CRÔNICAS

A BANHA É NOSSA!

Em: 07 de Maio de 2006
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A História pode até dispensar cenários exuberantes, mas precisa obrigatoriamente de frases pomposas e grandiloquentes. O riacho do Ipiranga, por exemplo, é um igarapezinho mixuruca de quinta categoria, um ‘bosteiro’, como se diz no Amazonas. Mas foi palco da história justamente por causa do brado retumbante de um povo heroico, que sacudiu suas margens plácidas com um banzeiro retórico.
Todo mundo sabe que Dom Pedro não era capaz de matar sequer um prato de bacalhau, mas me diga lá, maninho, qual seria o significado da independência do Brasil, se ele tivesse declarado prosaicamente: “A coroa é minha e ninguém tasca”, em vez de clamar dramaticamente “Independência ou Morte!”? É a frase que dá dimensão à história.
O presidente Vargas, acusado de corrupção, lavou a honra com seu próprio sangue. No entanto, o que conferiu grandeza histórica ao seu suicídio foi o testamento deixado ao povo: “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio dessa vida para entrar na História”.
A frase é tudo. O presidente Jânio Quadros até hoje é motivo de galhofa, porque não criou a frase capaz de transformar num fato histórico grandioso sua renúncia, atribuída por ele às pressões das chamadas “forças ocultas”. Em vez disso, numa frase chocha, teria copiado Vargas, mas pelo avesso:“Deixo essa história para sair com vida”
Fraldas geriátricas
Eis o que eu queria dizer. No episódio da greve de fome do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, faltou uma frase espetacular para ornamentar o fato, e negar as acusações de ter sua pré-campanha presidencial financiada por empresas que receberam uma gorda bufunfa do governo de sua mulher, Rosinha Mateus.
O Tribunal de Contas registrou o pagamento de milhões de reais a entidades suspeitas de desvio de dinheiro público para a campanha de Garotinho. Uma delas, a empresa Aloés Indústria e Comércio, presidida pelo pastor Altomir Cunha, embolsou R$10, 54 milhões, com a venda de 17 milhões de fraldas geriátricas para o programa Farmácia Popular.
Parece que para financiar a viagem de um candidato nunca se mijou tanto, nem se fez tanto coco, como agora no Rio de Janeiro. A população, intrigada com o fantástico crescimento da incontinência dos velhinhos cariocas, acha que é muita merda junta. No entanto, do que ela mais se ressente é da ausência de uma frase histórica, retumbante, espalhafatosa e teatral.
O ex-governador não explicou os fatos, os pagamentos sem licitação ou a origem das doações. Vargas também não esclareceu o ‘mar de lama’ de que o acusavam, mas lavou sua honra com sangue, declarando para a posteridade: “Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto o meu sangue e a minha vida”.
Suicídio sem sangue
E o Garotinho? Levado às últimas consequências, seu gesto atenta contra o princípio sagrado da vida, conforme a definição sobre greve de fome aprovada pela Assembleia Médica Mundial, realizada em Malta, em novembro de 1991. A greve de fome não deixa de ser uma forma de suicídio, embora sem derramamento de sangue.
Perguntado se morrer de fome não contrariava os seus princípios evangélicos, o ex-quase-futuro presidente da República, Anthony Garotinho respondeu:
- O que vale mais? A vida ou a honra de um homem?
Dessa forma, Garotinho insinua que está disposto a lavar sua honra com a própria banha, sem derramar uma gota de sangue, sem fornecer uma explicação sobre as doações que recebeu.
A contagem regressiva começou. No quinto dia de jejum, Garotinho não havia prestado qualquer esclarecimento, mas já havia queimado quase quatro quilos de banha, baixando de 89,9 para 86,3. O boletim médico registrou desidratação em grau moderado, baixos níveis de potássio, magnésio e cálcio, e aumento do ácido úrico. Por isso, ele passou a ingerir soro caseiro.
Garotinho, que copia Vargas, mas sem jorro sangue, podia muito bem declarar: “As aves de rapina querem a banha de alguém, querem continuar fritando a banha do povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha banha, a minha vida”. Voilà! Eis a frase espetacular que dá sentido histórico para sua greve de fome.
Jeca na internet
Vargas lava sua honra com sangue. Garotinho, com banha. O fato nos faz lembrar a citação muito conhecida de Karl Marx, para quem a história só se repete como farsa ou tragédia.
Um empresário de Sorocaba, dono da Funerária Ossel, já ofereceu uma caixão de graça para Garotinho. Montou um velório na sede da empresa, com o caixão mais caro, modelo luxo, forrado de cetim e com alças douradas boca-de-leão, faixas com mensagens de pesar e coroas de flores. Justificou: “Com isso, quero denunciar essa palhaçada”.
A mídia tem fiscalizado de perto as campanhas de Lula e Alckmin. Por isso, ninguém acredita no papel de vitima de Garotinho, que mantém há anos um programa de rádio com vasta audiência. Na internet, ele virou piada. Surgiram frases de apoio à sua greve de fome: “Não desista nunca. Vá até o fim”. Criaram a comunidade ‘JECA – Jesus está te chamando, Anthony’ - visitada por milhares de pessoas. No item intitulado “que música você cantaria no funeral dele”, foram lembradas ‘O pulso’, dos Titãs, e ‘Estou a dois passos do paraíso’, da Blitz de Evandro Mesquita.
P.S.1 – Meu amigo Tarcisio Lage, jornalista brasileiro com quem convivi no exílio, mora há mais de vinte anos na Holanda. Recomendo o site dele: www.anarco.net. Lá, tem um artigo intitulado “O petróleo é nosso. O gás é deles”, que critica o nacionalismo a la Galvão Bueno da mídia brasileira.  Quando Tarcisio escreveu, Lula não havia ainda se pronunciado sobre o direito soberano do povo sofrido da Bolívia sobre seus recursos naturais. Aliás, foi a melhor fala de Lula em mais de três anos de governo.
P.S. 2 - Rogelio Casado viajou a Tefé e observou muita coisa interessante. Lá, nessa semana, cerca de 5 mil índios se reuniram em assembleia para protestar contra uma ONG ligada ao deputado federal Lupércio Ramos, que quer controlar o novo convênio de saúde indígena. Vamos acompanhar essa luta. 

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