“Um currículo defasado torna o jornalista um profissional
superficialmente profundo e profundamente superficial”.
(Zuenir Ventura, 1966)
Suspeito que Lula perdeu 01 (hum) voto nas urnas nesse domingo. É 01 (hum) voto, que influencia milhares de eleitores. Se você tiver quatro minutinhos para ler, eu te explico.
Quando alguém que estimamos morre, vira santo: ressaltamos suas virtudes e esquecemos os “poréns”. O jornalista Zuenir Ventura que, aos 95 anos, morreu em casa neste 22 de setembro em decorrência de uma pneumonia, pode não ser santo, mas é preciso dizer em alto e bom som que ele foi o melhor professor que tivemos no Curso de Jornalismo da UFRJ. Escolhido paraninfo da nossa turma, em 1968, ministrou várias disciplinas, entre outras Técnica de Reportagem e Entrevista, para a qual cobrava exercícios práticos:
- Cada um de vocês vai entrevistar alguém que admire, valendo pra nota.
E começou a anotar os nomes. A escolha do meu entrevistado já havia sido feita anos antes, em Manaus, onde o jornal carioca Última Hora era disputado a tapas no único ponto de venda - a livraria Acadêmica, ali na rua Henrique Martins. O diretor do Instituto Christus do Amazonas, Orígenes Martins, sempre conseguia um exemplar, que circulava entre nós, professores do colégio. A primeira leitura feita sofregamente era a coluna de Stanislaw Ponte Preta, criador do cada vez mais atual “Festival da Besteira que Assola o País” – o FEBEAPÁ.
Dessa forma, aquele amazonense deslumbrado, agora estudante de jornalismo no Rio, começou a olhar com humor a tragédia nacional. Antes das aulas do Zuenir e de outros professores, eu lia o Stanislaw, em voz alta, para os colegas de sala, saboreando com entusiasmo cada palavra, sua crítica impiedosa à pilantragem dos cocorocas, a ironia e o deboche que nos faziam rir um riso libertador, que lavava nossa alma. Recortava e guardava suas colunas. Por isso, no dia em que o professor Zuenir anotava o entrevistado de cada um, ao chegar a minha vez, os colegas se anteciparam e responderam em coro:
- Stanislaw Ponte Preta.
A primeira entrevista, a gente nunca esquece: preparativos, telefonemas, nervosismo, emoção, tietagem. Stanislaw, grandalhão e corpulento, de repente estava ali, bem perto, ao alcance da voz, em seu apartamento, na Rua Leopoldo Miguez, em Copacabana, onde conversou descontraído durante várias horas, com o tímido aprendiz de repórter, seu fã de carteirinha, com quem foi muito generoso, enquanto arrumava livros de sua biblioteca, em estantes que subiam até o teto. A Pretapress, sua agência de notícias, cobria política, arte, literatura, música, futebol, carnaval, mídia, malandragem...
Trabalho de campo
Saí daquela entrevista com vontade ainda maior de ser jornalista, estimulado por Zuenir, a quem vi pela última vez recentemente na posse do Ailton Krenak na ABL. Na ocasião, lembrei que em dezembro de 1968 fomos à sua residência com o convite para ser paraninfo da nossa turma, sem saber que dias depois ele seria preso arbitrariamente pela ditadura após o AI-5, assim como o patrono Otto Maria Carpeaux. Não houve formatura coletiva. A turma, em solidariedade, se recusou a cumprir o ritual festivo. Cada um colou grau em dias diferentes no gabinete do diretor José Carlos Lisboa.
Zuenir foi responsável pelo início da minha vida de repórter. Fez parte da banca, em 1967, que examinou estudantes de jornalismo na seleção para o novo jornal O SOL, editado pelo Jornal dos Sports. Mais de 100 candidatos passaram por três provas: redação sobre a nova moda da minissaia, prova escrita sobre a atualidade e entrevista oral feita por ele, Reynaldo Jardim e Ana Arruda. Os aprovados fomos 50 alunos de jornalismo da UFRJ e da PUC. Está tudo registrado no documentário de Tetê Moraes “O SOL – Caminhando contra o vento”.
Mais de 20 anos depois, o acaso me fez encontrar Zuenir em Rio Branco. Ele foi enviado pelo Jornal do Brasil para fazer uma série de reportagens investigativas sobre o assassinato de Chico Mendes que, em 2003, resultou no livro “Chico Mendes: Crime e Castigo”. E eu, então professor no Curso de Jornalismo da UERJ, lá estava para ministrar a disciplina História da Amazônia no Curso de Pós-Graduação da UFAC – Universidade Federal do Acre. Trocamos telefones e de volta ao Rio ele me entrevistou em sua sala no JB sobre a Amazônia.
Acompanhamos sempre a trajetória do nosso eterno professor, repórter e escritor em busca de justiça contra a violência cometida contra os deserdados da vida. Após a chacina de Vigário Geral, em 1993, em seu outro livro Cidade Partida, ele se refere a “um mundo onde a República não chegou”, Zuenir passou cerca de dez meses frequentando esta comunidade na Zona da Leopoldina. Em suas reportagens investigativas, fazia “trabalho de campo” como um etnógrafo, tarefa para a qual o jornalista nem sempre está preparado.
Formação do jornalista
O currículo era uma das preocupações de Zuenir, que cursou Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), na qual funcionava o Curso de Jornalismo, onde se tornou professor. Em uma de suas aulas, ele definiu criticamente o jornalista graduado com formação genérica como “um profissional superficialmente profundo e profundamente superficial”, inapto para coberturas no campo do jornalismo científico.
Usei a frase no evento internacional na UERJ “Cem anos de descoberta da Física de Partículas”, que contou com participação de pesquisadores de mais de 15 países, entre eles o Prêmio Nobel de Física (1997), Claude Cohen-Tannoudji, professor de Física Atômica e Molecular do Collège de France, em Paris. Não entendo bulhufas de Física, mas fui convidado pelo físico Alberto Santoro para palestrar sobre “Mídia, analfabetismo científico e o Big-Bang no mito Tukano de criação do mundo".
Abordei a formação do jornalista em sua relação, de um lado com a ciência e de outro, com os saberes dos povos originários. Como sinalizou Zuenir, não somos preparados nos cursos de jornalismo para ler os saberes da humanidade nos discursos científicos, nem muito menos nas narrativas míticas. Em consequência, com honrosas exceções, a mídia é analfabeta nos dois casos, entendendo “alfabetização” como um dos instrumentos – não o único – de leitura do mundo.
Mesmo dominando técnicas de entrevista, até para formular perguntas ao especialista e entender a resposta, o jornalismo exige o manejo dos conceitos básicos de outros campos do saber. Se cada ciência constrói sua própria linguagem, quem a desconhece não pode “traduzir” com propriedade aos leitores os fatos e as descobertas feitas nesse campo.
O repórter que cobre a área da ciência, seja ciências físicas, biológicas ou sociais, não sabe, coitado, se neutrino se come com farinha e, por isso, produz aberrações preconceituosas quando, no caso que nos interessa, denomina de “dialetos” as línguas indígenas ou trata narrativas míticas como “fantasias”. Em alguns países desenvolvidos, jornalismo não é curso de graduação, mas de especialização. Um físico, um químico, um linguista ou um antropólogo, um economista, um botânico ou um zoólogo cursam pós-graduação em jornalismo, levando para lá teorias e conceitos da sua área específica.
Levantamento feito por Graciele Almeida e Diogo Lopes, em 2020, sobre o mapa da grade curricular dos cursos de graduação de jornalismo, revela que menos de 5% tem disciplinas dedicadas ao jornalismo científico. Várias iniciativas louváveis, mas ainda nascentes, foram feitas ultimamente em cursos de especialização por diferentes instituições: Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência), Laboratório de Jornalismo da Unicamp, Agência Bori, Ambiental Media, Curso da UFMG denominado de Amerek (cutucão, beliscão, em língua Krenak).
A apuração rigorosa
Mestre Zu nos advertia para não transformar impressão em certeza ao apurar denúncias, que devem ser checadas com rigor. Nas eleições de 2010, um mata-mosquito demitido por José Serra jogou no então candidato uma bolinha de papel. O autodidata Merval Pereira, que não foi aluno de Zuenir, jurou que foi “uma bobina de papel crepe que, arremessada com força, pode provocar danos graves na pessoa atingida”. O JN mostrou imagens nebulosas interpretadas por um perito, com os comentários do “bobinólogo”, atual presidente – imaginem – da ABL. Parece o recente “atentado” com um ovo contra Flávio Rachadinha, assim “ovoacionado”. Saudades do FEBEAPÁ.
Quando era nosso professor, Zuenir atuou em vários órgãos da mídia: Tribuna da Imprensa, JB, O Globo, Correio da Manhã, Fatos & Fotos, O Cruzeiro e foi editor-chefe da sucursal carioca da revista Visão. Levou para sala de aula essas experiências, assim como as do curso de especialização no Centre de Formation des Journalistes, em Paris, onde acompanhou as manifestações de protesto, em maio de 1968, como registra no seu livro “1968: O Ano que não terminou”, no qual combina a grande reportagem com alta literatura.
Muito aprendemos também com as crônicas e as reflexões de Zuenir sobre o modus operandi para sua elaboração.
- O cronista trabalha muito com os olhos – ele escreveu, reforçando Fernando Sabino em sua “Última Crônica”: “Quando estou sem assunto, lanço um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica”.
Com olhar solidário, Zuenir observou a luta de seu amigo Darcy Ribeiro contra o câncer, desfazendo aquele clima de tragédia com que esta enfermidade costuma envolver suas vítimas, humilhando-as. O próprio Zuenir, curado de um câncer na bexiga, mencionou o neologismo para desmoralizar a doença:
- Com um estoicismo cheio de humor, Darcy dessolenizou o câncer, tirou-lhe aquela gravidade homicida, brincou com ele, gozou-o, debochou e de certa maneira desmoralizou-o. Passou a mão na bunda do câncer, como ele diria. Depois de Darcy, o câncer não será o mesmo, não terá a mesma arrogância.
Inveja: mal secreto
Tomei a liberdade de pedir a contribuição de Zuenir para uma entrevista coletiva imaginária à la Nelson Rodrigues, que fiz com o então ministro do Esporte, Aldo Rebelo, em agosto de 2012. Aldo, hoje bolsominion, enfrentou uma plêiade de jornalistas, todos especialistas em inveja, que queriam saber porque ele havia agredido a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, convidada pela rainha da Inglaterra para ocupar um lugar de honra na abertura das Olimpíadas de Londres.
Da entrevista coletiva fictícia participaram, entre outros, o músico italiano Antônio Salieri, que invejava o austríaco Mozart; Dâmaso Salcede, protagonista invejoso do romance Os Maias de Eça de Queiroz; os hebreus Arão e Miriã, personagens bíblicos que morriam de inveja de Moisés; Iago, invejoso destrutivo que queria acabar com a raça de Otelo, o ciumento obsessivo criado por Shakespeare em o Mouro de Veneza. Do Brasil, Zuenir Ventura. Destaco aqui a resposta de Aldo à pergunta do mestre Zu, que cuspiu o caroço e soltou a fita:
Zuenir Ventura (O Globo) - O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho exulta. Só a inveja se esconde. Como você explica sua “coragem” de escancarar esse sentimento secreto, que costuma sempre ser dissimulado por todo mundo.
Aldo - Você precisa conscientizar que inveja é função natural da vida, como a respiração, o medo, o prazer, o ciúme. Não é necessariamente algo patológico. Inveja é humano. Eu sou humano. Todo mundo sente inveja. Posto que essa entrevista é imaginária, posso ser sincero. A inveja, que rói minhas entranhas, é admiração torta sem esperança. Sabe, no fundo, eu gostaria de ser a Marina, de ter o reconhecimento nacional e internacional que ela tem. Por isso dizem que a inveja é uma merda.
Zuenir, o autor de “Inveja: Mal Secreto” (1998), teve seu corpo velado na Academia Brasileira de Letras e foi sepultado no mausoléu da ABL no cemitério São João Batista. Ele começou a trabalhar aos 11 anos com seu pai, pintor de paredes. Foi ainda contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista.
Agora, nós perdemos o nosso professor. O Fluminense perde um torcedor. O Brasil fica sem a presença física de seu grande jornalista. Suspeito que Lula perdeu um voto. No entanto, Mestre Zu, que contribuiu na formação nossa e de milhares de leitores, estará presente nas urnas através de nós. Votaremos por ele. Como disse Daniel Cohn-Bendit, entrevistado por Zuenir em 1968, “ce n'est qu'un début, continuons le combat”.
P.S. – Foto do Blog Vermelho em matéria assinada por Cezar Xavier.