CRÔNICAS

OS URUBUS, A PROPINA E AS ELEIÇÕES NO AMAZONAS

Em: 13 de Agosto de 2006 Visualizações: 3289
OS URUBUS, A PROPINA E AS ELEIÇÕES NO AMAZONAS

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Os dois marqueteiros são coordenadores do comitê eleitoral de um candidato ao governo do Amazonas. Vestidos de terno preto, dois urubus, com bicos tortos e garras afiadas. Começaram a procurar em Manaus um especialista capaz de fazer pesquisas de opinião. Encontraram um estatístico, a quem pediram um plano de trabalho para acompanhar semanalmente a tendência do eleitorado. Ah, e um orçamento, é claro.

Os dois urubus

O estatístico fez o que lhe pediram. Competência não lhe falta. Conhece o seu ofício. Cursou pós-graduação na UFRJ e na UFMG e publicou artigo em revista especializada nos Estados Unidos. Na reunião com os urubus, mostrou um plano tecnicamente impecável, com todos os gastos detalhados: número de homens/hora (entrevistadores) durante três meses, custos do material de consumo e de transporte, o seu pro-labore e o de um auxiliar, etc e tal, tudo pelo preço de mercado. Total: R$120.000,00.

 - “Cento e vinte mil reais?”- perguntou o Urubu-de-asfalto, que tinha pescoço de piroca. Ele piscou o olho para seu cúmplice, o Urubutinga, que tinha careca avermelhada. Os dois não escondiam a alegria. Afinal, era serviço de qualidade e custaria uma merreca, já que o candidato, orientado pelos próprios urubus, havia liberado R$ 400 mil para a pesquisa.

Os dois abutres se prepararam, então, para atacar aquela carniça eleitoral e arrancar suas vísceras. O Urubu-do-asfalto, que parecia ser o chefe, propôs na maior cara de pau: - “Fechado. A gente te paga R$ 120 mil. Você assina um recibo de R$ 400 mil”. O estatístico recusou. O urubu-chefe aumentou para R$150 mil. Nova recusa. Aí, ele crocitou: “Acha pouco, cara? Essa é nossa última oferta: R$ 200 mil em troca de um recibo de R$ 400 mil”.

O estatístico se levantou: “Aqui está o meu cartão de visita. O serviço vale R$ 120 mil. Assino o recibo por essa quantia. Se quiser assim, me telefone”. O urubu com pescoço-de-piroca disse: “Tu não tá entendendo, cara. Assim, nós não vamos te chamar”. Aí, o estatístico pegou o cartão de volta: - “Então não vale a pena gastar o cartão. Passar bem”.

Saúbinha e Saúbão

Esse fato aconteceu realmente há três ou quatro semanas. Quem me contou dando os nomes aos urubus, foi o próprio estatístico, meu amigo de longa data. Ele queria apenas um trabalho honesto, que lhe permitisse reformar a modesta casa dos pais, construída há mais de trinta anos pela Cohab-AM e que alaga cada vez que chove, pois o telhado está todo esburacado. A única opção que lhe ofereceram foi a falcatrua.

Por que ele não aceitou? No tempo de urubus, quem não rouba é considerado otário. Tem eleitor indignado, só porque não encontrou parlamentar amazonense na lista dos 72 ‘sanguessugas’ envolvidos na compra de ambulâncias superfaturadas: “uns incompetentes, sem prestígio político”.  Agora, chegaram as ‘saúvas’ para nos salvar.

As ‘saúvas’ colocaram o Amazonas outra vez nas manchetes dos jornais nacionais, como nos velhos tempos do Negão. Empresários, oficiais do Exército, altos funcionários públicos como o secretário executivo da Fazenda e o assessor do vice-governador desviaram R$ 126 milhões da merenda das crianças e da cesta básica de flagelados. Alguns se venderam por passagens à Disneylândia. (Credo! Se fosse ao menos para Paris!).

Na verdade, quando se apropriam de verbas destinadas à merenda, à saúde e à educação do povo brasileiro, os urubus, as saúvas e os sanguessugas estão nos roubando um bem maior e nos seqüestrando duas virtudes importantes: a fé e a esperança. Os jovens, desencantados, estão se tornando cínicos, não acreditam mais em nada. Acham que as pessoas estão contaminadas, que o sistema está podre, que não dá pra acabar com essa pouca-vergonha..     

No poleiro da política

No entanto, embora os jornais não noticiem, existe muita gente anônima e honesta no Brasil, resistindo. Rondônia tem 24 deputados estaduais. Gritaram: “pega ladrão”. Ficou um, meu irmão: o deputado Néri Firigolo. Os outros 23 foram acusados de formação de quadrilha. É no comportamento desse que ficou e do meu amigo estatístico, que devemos nos concentrar para renovar nossas esperanças na possibilidade de mudar o sistema que favorece a corrupção.

Meu amigo confessa que a tentação foi grande demais, que achou injusto o sistema excluir do mercado de trabalho quem é capaz, mas honesto, que encontrou forças para rejeitar a trapaça porque pensou no seu pai, um professor de ensino médio, exemplo de retidão, que morreria de vergonha se o filho baixasse as calças para os urubus. Como esse pai, que é honesto até debaixo d’água, existem milhares e milhares de brasileiros anônimos.    

Enquanto o amigo me contava sua história, era como se eu estivesse vendo as duas aves de rapina, vorazes e necrófagas, empoleiradas no galho da política, tentando comprar consciências. Senti o cheiro forte e repugnante que exalavam. Os dois urubus fúnebres se acham espertinhos, mas não entenderam bulhufas do que aconteceu. Acostumados com a carniça, no dicionário de urubu não existem as palavras ‘honra’ e ‘decência’. Temos que lutar para que deixe de existir também a palavra ‘impunidade’.

P.S.1 - No Brasil, existem 5,7 milhões de surdos ou deficientes auditivos. Um deles, Silvio Márcio Freire Alencar, escreve reclamando porque o debate com os candidatos a presidente na Rede Bandeirantes, nesse dia 14 de agosto, não vai ter legenda, o que impede o acesso deles à informação. Silvio, altamente politizado, diz que isso é um desrespeito à Lei de Acessibilidade 10.098/2000, ao Decreto 5.296/2004 e à Portaria MC 310/2006. Pede que a gente escreva pro Tribunal Superior Eleitoral (webmaster@tse.gov.br) e pra Secretaria Especial de Direitos Humanos (direitoshumanos@sedh.gov.br). Eu já escrevi, porque além de ser uma causa justa e cidadã, o Silvio é meu sobrinho e a Roberta Spener Gomes, que está na mesma situação, é filha do meu amigo Betão Sá, da banda Blue Birds, e hoje o meu nepotismo está à flor da pele. É isso ai.

P.S.2 – O webmaster Amaro Jr. informa que cerca de 2.731 pessoas visitaram o site Taquiprati no mês de julho. Mais da metade é daqui do Brasil. Os demais, de diferentes países, nessa ordem: Portugal, USA, Alemanha, Japão, França, Peru, Itália, Uruguai, Suécia, Holanda, Inglaterra, Israel, Chile, México, Colômbia, Moçambique, Suíça, Arábia Saudita, Canadá, República Dominicana, Lituânia, Finlândia, Rússia, Filipinas e Taiwan. Vá lá saber o que esse pessoal procurava...

P.S.3 – Por falar em legislar em interesse próprio, registro o lançamento no circuito comercial do filme “O Sol – Caminhando contra o vento”, de Teté Moraes, que conta a história de um jornal editado no Rio de Janeiro em 1967. O papaizinho aqui aparece no elenco, dando entrevista e coisa e tal, conquistando seus 15 segundos de fama e de glória.

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