CRÔNICAS

O FIOFÓ DO DIABO

Em: 11 de Fevereiro de 2007
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Era uma vez um diabo que não tinha fiofó... Eu já te contei, leitor (a), essa história do diabo que não tinha fiofó? Não? Ela circula nas aldeias indígenas do alto Rio Negro. A versão que conheço é a dos índios Tariana, também denominados de Taliaseri, e foi contada em 1999 por dois velhos narradores: o pajé Kedali (Manuel Barbosa), e o rezador Kali (Adriano Garcia), ambos do respeitado clã dos Phukurana.
 
Quem ouviu a história foram dois filhos do Adriano Kali: o mais velho, Pedro Garcia, cujo nome cerimonial é Pukutha, e o caçula Benjamin Garcia. Durante cinco meses, assessorados pela pesquisadora do Instituto Socioambiental/ISA, Dominique Buchillet, eles gravaram dezenas de narrativas míticas, muitas histórias do Curupira e as lembranças que os tariana têm da chegada dos primeiros brancos na região, da Cabanagem, dos missionários, dos seringalistas e dos comerciantes.
 
Todas essas narrativas foram traduzidas ao português e passaram por uma revisão final, feita por dois antropólogos do ISA - Beto Ricardo e Geraldo Andrello. Daí nasceu, em 2000, Histórias de antigamente, um livro que faz parte da Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro. É nele que está, com esse título, a ‘História de Iriyumakeri-yanapere e do Diabo sem Cu’, que agora vos passo a narrar com minhas palavras, pedindo licença aos seus autores pelas adaptações feitas para o leitor de jornal.
 
O fazedor de coisas
 
O diabo sem fiofó se chama Iñe-dieriku-sedeite, em língua tariana, e Wâtî-sii-pehé-mariró, em língua tukano. Ele queria ter um fiofó, como todo mundo. Aí, ouviu falar que lá na boca do rio Papuri havia um homem, chamado Iriyumakeri-yanapere, que era capaz de inventar e fazer qualquer coisa. O diabo andou, andou, andou e andou, até que encontrou o fazedor de coisas, numa cachoeira, pescando e tomando conta dos seus jiraus de pesca. Depois de se apresentar, o diabo disse:
 
- Eu ouvi falar muito de você. Dizem por ai que você é capaz de fabricar muitas coisas. É por isso que eu vim até aqui. 
 
- O que você quer, Excelência?
 
- Um fiofó. Eu não tenho fiofó. Aliás, o meu fiofó fica no meu queixo. Eu preferiria ter um bem aqui - disse, indicando o bum-bum, que é o lugar normal do fiofó.
 
- Deixa comigo. Me espera aqui que eu vou buscar um cipó de espinho.
 
O fazedor de coisas foi até o lugar onde havia cipós de espinho e trouxe um pedaço. Ele fez um buraco na bunda do diabo e enfiou lá dentro o cipó, enrolou nele as tripas, puxou e jogou tudo fora, na direção do rio Papuri. As tripas caíram lá, em Ucapinima, e se transformaram em muçuns.
 
Depois disso, o fazedor de coisas mandou o diabo esperar mais um pouco, entrou no mato com um cesto, apanhou uma fruta chamada e´pêsa, que não tem nome em português, abriu, tirou os caroços e meteu tudo dentro do buraco feito no bum-bum do diabo. Aí, enfiou outra vez o cipó de espinho, virou e mexeu até os caroços ficarem presos no cipó. Aí, né, puxou pra fora e arrancou tudo, jogando os caroços no rio Papuri. Ao caírem, estes se transformaram em tambuatás.
 
A história não fala das dores insuportáveis que o diabo deve ter sentido, mas a gente imagina. No final, o fazedor de coisas disse:
 
- “Agora está bom! Experimenta peidar”. O diabo experimentou, conseguindo soltar vários puns pelo novo fiofó. Curioso, o fazedor de coisas perguntou:
 
- “Como você fazia antes?”.
 
- Eu peidava pelo queixo. Por isso, fedia muito, eu não agüentava mais! – disse o diabo.
 
- Agora está bom! Você tem um fiofó novinho. Suas tripas se transformaram em muçuns e os caroços em tambuatás, peixes que vão servir de comida para o povo do rio Papuri.
 
Belão e Berinho
 
O Diabo, com seu reluzente fiofó, foi embora para os quintos dos infernos. O fazedor de coisas, então, decidiu:
 
- “Esses muçuns e tambuatás serão a comida daqueles que vivem no rio Papuri e servirão para fazer dabucuris, com muita festa. Agora mesmo, vou preparar o lugar e as armadilhas para eles pescarem esses peixes”.
 
Daí, o fazedor de coisas foi a Ucapinima. Lá chegando, preparou o lugar pra colocar os matapis e falou:
 
 - “A partir de agora, vocês vão pescar esses peixes aqui. Os matapis vão se encher de muçuns e de tambuatás. Os peixes que pescarem é pra vocês mesmos comerem. Mas já que os peixes são muitos, dá pra criar um viveiro dentro de um lago. Eu preparei isso para vocês”, ele disse. Depois, completou:
 
- “Cada vez que precisarem de peixe, basta vir aqui. Terão comida pra vocês, mas também pra fazer dabacuri pros outros. Vocês vão recolher um matapi grande, cheio desses peixes. Aí, irão procurar as pessoas que querem o dabacuri, e vão pedir que elas preparem caxiri. Depois, vocês preparam um dabacuri pra elas. Vocês aproveitarão esses peixes durante muito tempo, tanto pra comer, quanto pra fazer dabacuri, dançando. Vocês vão ficar muito tempo com esses peixes. Aqui termina essa história”.
 
A literatura indígena está cheia de narrativas de todo tipo – míticas, líricas, dramáticas, trágicas, divertidas - que remetem quase sempre ao real-maravilhoso, mas que ainda são pouco conhecidas, e que só agora começam a despertar o interesse dos cursos de letras do Brasil. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro/Foirn, já publicou oito volumes da Coleção Narradores Indígenas, com o apoio do ISA, num total de 2170 páginas.
 
No final de maio, muitos desses autores, de diferentes etnias, estarão presentes no IV Encontro Nacional de Escritores e Ilustradores Indígenas, que acontecerá no Rio de Janeiro organizado pelo Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual / INBRAPI, com o apoio da Fundação Ford, da UERJ e da UNI-Rio.
 
Daniel Munduruku, escritor e um dos organizadores do IV Encontro, diz com razão que “a literatura indígena tem se mostrado um instrumento importante para que a sociedade brasileira reinvente um novo modo de se relacionar com a diversidade, ao mesmo tempo em que tem fortalecido a identidade dos povos indígenas”.
 
A história terminou, mas falta uma conclusão. Eis o que eu queria dizer. E quando escrevo “eis o que eu queria dizer”, o leitor já sabe que vou fazer um gancho com alguma presepada do presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, Belarmino Lins (PMDB vixe!), conhecido como Belão, ou do eterno e desgastado secretário de Cultura, Roubério Braga, o Berinho, cujas famílias são donas do Tribunal de Contas do Estado – o Tribulins, a tal ponto que quando se fala de ‘natal em família’, os Braga e os Lins correm para a sede do TCE.
 
O Belão fez uma manobra prorrogando o prazo para indicar o novo conselheiro do TCE, fazendo com que o cargo continue sendo ocupado por sua prima, Yara Amazônia Lins, que é auditora. O cargo de conselheiro tem salário mensal de R$ 22.000,00, é vitalício e aposenta com o salário integral. Foi com esse salário que se aposentou, em março do ano passado, o conselheiro João dos Santos Braga, irmão do Berinho.
 
E o que é que o fiofó do diabo tem a ver com os Lins e os Braga? Sei lá! Não tenho a menor idéia! Te vira, leitor (a), e encontra uma ligação entre as duas coisas. Se ficar difícil, faz um gancho com o fiofó do povo amazonense, do qual todos nós fazemos parte. Aí, então, as coisas ficam claras.

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