CRÔNICAS

Educando para a boiolice

Em: 29 de Abril de 2007 Visualizações: 12327
Educando para a boiolice

 

Peru, 1975. Dentro de um táxi, enfrento o trânsito caótico das ruas de Lima. O motorista realiza manobras ilegais e perigosas, correndo como um alucinado, furando sinais, xingando, entrando na contramão. Costura daqui, costura dali. Na Avenida La Marina, tenta ultrapassagem temerária pela direita. Coloco meu braço pra fora, abanando freneticamente a mão para avisar o outro carro que ia ser fechado. Contrariado, o taxista me repreende. Explico: só estou querendo ajudar. Ele liquida o assunto:
- No hagas eso! Si no van a pensar que no soy macho.
O taxista estava convencido de que sinalizar era demonstrar medo e que dar uma fechada provava sua coragem e virilidade. Por isso, preferia arriscar mil vidas a ser considerado um ‘maricón’. Quando homens necessitam dirigir agressivamente para afirmar sua masculinidade é porque a sociedade está doente e as normas de convivência foram para o beleléu. Mais grave ainda quando alguém defende que é exatamente assim que os professores devem educar seus alunos: formando machos e não boiolas.
A pedagogia do taxista
Essa é a tese de Olavo de Carvalho em artigo ‘Educando para a boiolice’ no Diário do Comércio, no qual discute a responsabilidade pelo massacre ocorrido na Virginia Tech. Ele pergunta: “Por que ninguém atacou o coreano maluco enquanto ele recarregava sua pistola?” A resposta é contundente: por causa da “epidemia de frescura na escola”, que forma alunos “tímidos, fracotes e efeminados”. O autor usa depoimento de seu filho Pedro, que estudou um ano e meio na Virginia. O rapaz, falando por experiência própria, confirma: "É uma educação para boiolas".

Não sabemos se Pedro, filho de peixe, foi bom aluno. Mas seu pai adverte que boiola - cujo equivalente em inglês é sissy - “não é necessariamente um gay”. Boiolice nada tem a ver com o sexo, é “uma covardia abjeta, um desfibramento da alma, uma pusilanimidade visceral que os educadores de hoje em dia consideram o suprassumo da perfeição moral. É a fórmula da pedagogia usada nas escolas públicas americanas”.
Se os jovens são obrigatoriamente efeminados é porque “passam o ano inteiro só aprendendo boiolice”, ensinada em “cada página dos manuais didáticos” e nas aulas. “Cada vez que um professor abre a boca em sala de aula, espalha mais um pouco desse entorpecente pedagógico nos cérebros infanto-juvenis”.
Contra tais princípios, o autor defende pedagogia similar a do taxista: “As escolas têm de ensinar os meninos a serem mais agressivos”. Justifica, afirmando que a bandidagem só ataca nas escolas porque sabe que os estudantes são boiolas. Propõe: “As escolas têm de planejar sua defesa e reagir com igual agressividade. O treinamento tem de ser tão intensivo e levado tão a sério quanto o assassino leva a sério sua missão de matar”.
A escola é do carvalho
Segundo o autor, o modelo que transforma a sala de aula num campo de batalha deve ser implantado, no Brasil, cuja situação é ainda “mais desesperadora que a dos americanos” porque no nosso país “a boiolice está espalhada entre homens adultos, nas ruas, nas fábricas, nos escritórios e essa gente tem medo de armas até quando vistas pelo lado do cabo”. Faça o teste, leitor, para saber se você é boiola!
Fico imaginando o ‘treinamento intensivo’ nessa que é uma escola do cacete, digo, do carvalho. No currículo do Maternal, para aquecer as crianças, devem constar obrigatoriamente as disciplinas “Xingamentos e Palavrões” “Tapas, Bofetes e Mordidas” e “Pistolas de água”. No Ensino Fundamental seriam ministradas “Armas brancas” e depois “Introdução ao manejo de armas de fogo”, como pré-requisito para “Técnicas de Pontaria”, “Tiro ao alvo I e II”  e “Explosivos e Granadas”.
O leitor amazonense, perplexo, se pergunta: “Mas, afinal, quem é Olavo de Carvalho no jogo do bicho?” A página pessoal do dito cujo na internet não economiza auto-elogios e afirma na maior cara-de-pau: “Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, SP, em 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros”.  Eita ferro! Não é gozação não! Juro que está escrito assim. Qualquer leitor pode ir lá e conferir.
Olavo é autor de um livro, que dizem ser autobiográfico: O imbecil coletivo. Ele explica que o título é mais do que uma alusão satírica, pois retrata "uma das propriedades essenciais daquilo que se convencionou chamar a inteligentzia". Comenta que o leitor deste livro seu pode se espantar porque "alguns dos fatos aqui abordados não tem por cenário o Brasil e sim os Estados Unidos". O leitor não se espantou.
Ex-colunista do jornal O Globo, da revista Época e do diário Zero Hora, Olavo de Carvalho foi desligado, quando descobriram que ele não é aquilo que ele diz que é. Revoltado, escreveu:
Querem saber do que mais? O corte brutal do meu orçamento doméstico é, nas presentes condições, uma libertação. Vou mais é para Virginia Beach tomar banho de mar e participar da alegria nacional deste país hospitaleiro e generoso. O Globo que se dane”.
Comicidade intraduzível
O Globo não se danou, mas Olavo hoje mora em Richmond, na Virginia. No entanto, o visto de residência concedido pelo ‘país hospitaleiro’ não lhe permite exercer trabalho remunerado. Sua página na internet, escrita por ele próprio, explica que é difícil os americanos entenderem seus ensaios eruditos, porque ele usa “a linguagem popular, incluindo muitos jogos de palavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis”, o que confere aos textos “uma profundidade surpreendente”.
A profundidade é discutível, mas quanto à comicidade, ele tem razão: ela é intraduzível até ao português. Por essa razão, Carvalho sobrevive ministrando cursos à distância de História da Filosofia para alunos no Brasil, escrevendo para o Jornal do Brasil e o Diário do Comércio e recebendo contribuição de admiradores, entre os quais estão militantes da Ação Integralista Brasileira, organização de extrema-direita.
Olavo de Carvalho parece que não perdoa o fato de ter ficado de fora da academia. Por isso, esculhamba as universidades e os intelectuais. “A USP sempre foi o templo da vigarice intelectual”, ele escreve. Marilena Chauí e Artur Gianotti são “impostores”. Em contrapartida, é motivo de chacota nas universidades, onde ninguém o leva a sério.
Henrique Sobreira, professor da UERJ, fez a maior gozação: “Depois de décadas ‘dormindo na caixa’, Olavo de Carvalho, finalmente, ‘saiu do armário’. A comunidade GLS, que suportou anos a fio o seu destilado preconceito, lhe dá uma solene ‘beijoca’ de boas vindas ao Clube cor-de-rosa”. Ele recomendou que Olavo lesse vários textos do filósofo alemão Theodor Adorno, nos quais analisa o conceito de “educação para a dureza”, próprio do facismo. Gilberto Moraes, outro professor da UERJ, da área de Engenharia, acredita que “Olavo nunca esteve diante de uma arma, passível de tomar um tiro de um bandido”.
O que Carvalho não entende é que a vitória do pensamento macho-taxista-carvalhista é a morte da sociedade. Não é a escola que deve ficar “macha”, mas a sociedade que deve viver os valores humanistas. Isso é possível, conforme Nelson Mandela, porque “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Mas para isso é necessário, com todo respeito, aquilo que Carvalho denomina de uma “escola-boiola”. Vai ver o negão Mandela falou isso porque é ‘boiola’, pensará Carvalho, que é macho pacas.

P.S. - Ver:

1) ALÔ ALÔ REALENGO.  http://www.taquiprati.com.br/cronica/911-alo-alo-realengo

2) EU ODEIO A ESCOLA -  http://www.taquiprati.com.br/cronica/116-eu-odeio-a-escola

3) A ESCOLA DE CHO -  http://www.taquiprati.com.br/cronica/141-a-escola-de-cho

 

 

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13 Comentário(s)

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Frank Lanne comentou:
17/06/2017
Passar a ideia de que o autor de \"Educando para a boiolice\" prega que as devem ensinar a violência ou a truculência como forma de reafirmar a virilidade é atestar-se um analfabeto funcional ou vigarista intelectual. O artigo inteiro se apóia no exemplo do menino Zach Petkewick, que ao invés de permanecer paralisado pelo medo agiu, em meio ao ataque, salvando a sua classe de ser alvejada pelo atirador. Esse aspecto de defesa salvadora ausente na moçada em geral é o tópico central de todo o artigo. Defesa é uma ação contrária e em sequência a um ataque, com o propósito de neutralizá-lo ou minimizá-lo. Nesse sentido, o autor acusa os agentes de educação do nosso tempo a ensinar aos meninos serem covardes, baseando-se talvez em uma falsa perfeição moral, ao deixar de reagir a qualquer tipo de agressão. Deixar de enfrentar o perigo por se encontrar paralisado pelo medo, quando a situação concreta o impõe, é sim ao indivíduo do sexo masculino um defeito de caráter é tão anticristão quanto a qualquer outro pecado (\"os covardes\"... \"não entrarão no reino dos céus\" e \"Deus não nos dá espírito de covardia\"). Não reagir às injustiças dirigidas a si visando um objetivo maior, isso sim!, é nobreza de caráter e ser cristão e o contrário de pusilanimidade (é o dar a outra face, é o exemplo de Cristo na cruz). Sabemos que a esperança do cristão não reside em sua força ou nas armas que possui (David, rei de Israel, nos mostrou isso bem, principalmente no episódio com Golias) e que a paz de Cristo não se manifestará no mundo por meio delas (por isso Cristo adverte Pedro a meter a espada em sua bainha). Mas deixar de usar no momento, por medo, qualquer instrumento ou capacidade que Deus te dispõe para enfrentar o perigo, tendo consciência e a oportunidade de fazê-lo, principalmente se o objetivo é o socorro ao próximo, é covardia abjeta a Deus, desculpável em certos casos somente às mulheres. Nossos garotos precisam aprender a ser homens!
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Lu Escobar comentou:
19/06/2011
Não o conhecia.Gostei muito mesmo do seu posicionamento. Parabéns. Belíssimo texto.Quanto ao dito cujo,Olavo de Carvalho,um ser execrável e sabermos que ele não está sozinho nessa,´´e mais doloroso ainda.
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Marcelo de Abrantes Fortuna comentou:
03/05/2011
Li seus textos sobre Realengo e a crítica a Olavo Carvalho que é favor de educação 'pra macho'.São textos muito bons,fiquei admirado.Sem labirintos literários que esbanjam pretensiosidade;mensagem clara apresentada de forma prazerosa;conexões inteligentes entre fatos, consumando idéias consistentes e novas.Gostei muito.É bom saber q ainda tem gente q usa a própria cabeça.Tenho um blog no qual publiquei alguns textos. Contos, na sua maioria.Se interessar, o endereço é marcelo-fortuna.blogspot.com
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claudia andrade comentou:
25/04/2011
Estou agora conhecendo melhor suas crônicas, Bessa, e gostando muito, do conteúdo e das reflexões feitas. Continuarei acompanhando.
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Paulo Silveira comentou:
20/04/2011
Excelente artigo. So nao acho coerente relacionar extrema-direita com "então ele está errado".
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Rejane Machado comentou:
11/04/2011
Caríssimo colega. Aplaudo de pé. Penso, tenho certeza de que só o amor constroi.Lamento qeu os professores não sejam bem remunerados, mas acho que dinheiro não é tudo. É preciso ter nascido professor, seja,irmão,mentor, amigo,pai.Não discriminar,respeitar profundamente, Em suma:amar, porque só o amor constroi.
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Deise comentou:
08/04/2011
Show de bola! É para refletirmos... Valeu Bessa.
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Mary Gaspari comentou:
08/04/2011
Eu adoro Educando para a Boiolice. Escrevi uma reflexão a respeito na sua aula na época e postei no meu espaço no Recanto das Letras:http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/791974
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comentou:
08/04/2011
Eu adoro Educando para a Boiolice. Escrevi uma reflexão a respeito na sua aula na época e postei no meu espaço no Recanto das Letras:http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/791974
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fsedffogryu comentou:
08/12/2010
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mxiswl comentou:
04/12/2010
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david honório comentou:
23/08/2010
esse colunista olavo de carvalho pensa que a educação se resolve na marra e na violéncia. Um escritor imbecil e idiota mostrou a sua falta de bom senso ao achar que a escola tem que ter uma disicplina para formar bandidos e terroristas.e muita arogancia e e um mau exemplo para a nossa literatura
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André Ricardo comentou:
08/08/2010
gostei de como vc fechou o texto...criticou muito bem o olavo... mas não contradisse as suas afirmações de como o PT tem vinculos com as Farc, conteudo do texto por mim sugerido...(comentário cronica 863)em suma: rebaixou o autor, não o texto. a vida, não a obra.partirei para a leitura da cronica da semana...
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