CRÔNICAS

MARAVALHAS: O FADO NO AMAZONAS

Em: 21 de Fevereiro de 2016 Visualizações: 4378

 

"Este meu Porto tripeiro / berço de tantos heróis

viu uma nesga do rio / e quis o resto depois".

Fado cantado por Maravalhas (1927-2016)

Desocupado leitor, eis aqui a saga heroica de um tripeiro que salvou um bucheiro, uma criança que se afogava no rio Negro, mergulhando em suas águas profundas, com risco da própria vida. Bucheiro, em "amazonês", é quem nasce em São Raimundo, bairro que sedia o Matadouro Municipal de Manaus. Tripeiro designa, em "portoguês", os nativos da região do Porto, norte de Portugal - berço de tantos heróis entre os quais D. Henrique, o Infante Navegador e José Fernandes Gomes Novo, o Maravalhas, cuja missa de sétimo dia foi celebrada nesta quinta-feira (18).

O nosso herói nasceu em Póvoa de Varzim, mas viveu ali pertinho, no Porto, onde bebia vinho e comia tripa de vitela com chouriço e toucinho. Até que um dia, em 1946, viu uma nesga do rio Douro, cruzou a Ponte das Barcas que liga as suas duas margens e quis o resto. Pegou um navio e mudou de mala e cuia para Manaus às margens do rio Negro. Trazia na bagagem seus 19 anos, uma bela voz de cantor de fados e o apelido com vários significados - apara de madeira, cavaco, pau pequeno - mas o nome Maravalhas - acreditem - se inspirou na lasca da madeira serrada na oficina de carpintaria onde trabalhou ainda menino, o que descarta qualquer especulação maledicente.

Marias Papoilas

Há outra versão. O apelido - diz seu compadre José Campos - é antigo e tradicional, vem de longe, da família, o que é confirmado na tese "Imprensa, Política e Etnicidade: portugueses letrados na Amazônia (1885-1936)" defendida por Geraldo Sá Peixoto Pinheiro na Universidade do Porto, em 2011. A tese reproduz carta ao etnógrafo Geraldo de Macedo Pinheiro de 1º de julho de 1958 enviada pelo poeta poveiro Admário Maravalhas, mencionando Antônio Maravalhas e outros pescadores e catraieiros poveiros que migraram para Manaus muito antes, em 1888.

Conheci o nosso Maravalhas no bairro de Aparecida, palco de tudo o que aconteceu no mundo ou ainda vai acontecer. Ele morava na Bandeira Branca e trabalhava com o pai, responsável pela atracação dos navios no Ródo, o porto de Manaus. Quando o navio apitava, os dois iam ao seu encontro, o amarravam a um motor com um cabo de aço, rebocando-o até o cais. No fim de semana, porém, Maravalhas era poeta, cantor e artista. Cantava fados na Rádio Baré e no Luso Sporting Club, do qual foi diretor, e onde disputava o título de melhor ator com João Bosco Araújo, o cão do Luso.

O sucesso como fadista gerou convites de outros clubes: Olímpico, Ideal, Rio Negro, Sheik, Maloca dos Barés e do grupo de danças folclóricas lusas do comandante Ventura, que se apresentou no Teatro Amazonas com as marias papoilas - Regina, Helena, Angela e Stella - as filhas da mãe, que por acaso compartilham comigo a mesma genitora, dona Elisa. Elas dançavam e cantavam com Fátima Buchinho, Neide Toscano, Mário Toledo e outros. Gina se lembra como se fosse hoje o Maravalhas cantando Marinheiro português:

- Lá vão elas / naus do infante a navegar / Brilha a luz das caravelas / Sobre as ondas do mar.

Solidariedade tripal

 - Durante a semana, Maravalhas era trabalhador braçal, mas aos domingos, quando não jogava futebol pelo Olímpico, vestia terno de linho branco, gravata e chapéu panamá e ia passear no Ródo, o shopping da época - conta o ex-prefeito de Manaus, Serafim Corrêa (PSB). Foi justamente num desses passeios na companhia do pintor Moacir Andrade, também morador de Aparecida, que Maravalhas mostrou seu heroísmo numa tarde quente do ano de mil novecentos e cinquenta e lá vai poeira.

Nesse dia, os irmãos Pedro, Paulo e Kid Queiroz flanavam pelo Ródo com família e amigos bucheiros para comemorar a primeira comunhão de várias crianças, quando uma delas - Jurandir ou Irandir - escorregou, caiu na água e desapareceu. Todo mundo gritou diante da iminente tragédia e, de repente, o tripeiro Maravalhas, honrando a tradição heroica de além-mar, num gesto generoso de solidariedade tripal, pulou no rio com chapéu e tudo, mergulhou e resgatou o bucheirinho são e salvo. Trouxe-o nos braços e quando vinha subindo a escada lateral, o pintor Moacir puxou um coro:

- Viva Maravalhas, o nosso herói!

Um herói ensopado, com o terno de casemira inglesa estragado, o chapéu perdido no fundo do rio e os sapatos de camurça com sola grossa avariados. Alguém perguntou por que não havia, pelo menos, tirado o chapéu e os sapatos antes de se atirar no rio. Sorriu sem graça, entregou o garoto aos pais, enquanto a multidão aplaudia e Moacir Andrade continuava berrando:

- Herói, herói!

Foi ai que ele se aproximou do Moacir e lhe disse bem baixinho:

- Herói é o c'ralho! Quem foi o filho da puta que me empurrou no rio? Eu ia salvar o garoto, não precisava me empurrar, seu porra.

Há testemunhas de que quem empurrou foi mesmo o Moacir, que está vivinho da silva e pode dar a sua versão. De qualquer forma, por esse e outros feitos, Maravalhas recebeu o titulo de Cidadão do Amazonas concedido pela Assembleia Legislativa por iniciativa do deputado Maneca, numa sessão em que o agraciado, em vez de discurso, abriu o vozeirão para cantar seu fado preferido "Foi Deus", da Amália Rodrigues, que faria inveja ao Antonio Zambujo:

- Fez poeta o rouxinol / Pôs no campo o alecrim / Deu as flores à Primavera /Aaaaaaaaaai, deu-me esta voz a mim.

Depois da sessão convidou o distinto público para comer um senhor bacalhau e tripas à moda do Porto no bairro de Aparecida, onde sempre morou, ultimamente num prédio que construiu na rua Alexandre Amorim.

Casado com dona Alice, teve três filhos: Constância, médica, reside em São Paulo; Frank, administrador de empresa, ficou em Manaus; Izabel, psicóloga, mora agora em Póvoa de Varzim, com quem ele foi passar o carnaval e revisitar o seu torrão natal. Recolheu seus passos, olhou a nesga do rio e cruzou de volta, pela última vez, a ponte sobre o Douro. No dia 11 de fevereiro, deu adeus ao Porto tripeiro e morreu aos 89 anos na cidade onde nasceu. Faz parte da migração lusitana que se acabocou, que nos ensinou a amar o melhor de Portugal e que nos deixa saudosos. O bairro de Aparecida perde seu herói. Ele ia pular.  Não precisava o Moacir empurrar.

P.S. Minhas dispersas lembranças foram reavivadas por Serafim Corrêa e por seu Campos da Usina de Beneficiamento de Castanha dos Benzecry, em Educandos. Ele e dona Creusa, de quem Maravalha, padrinho de Fátima, é compadre, foram entrevistados pelo Tuta e Regininha, a quem agradeço, assim como às marias papoilas que trouxeram histórias, fotos e música. Ao Geraldo Pinheiro, a brilhante tese é sempre uma fonte de consulta.

P.S. 2-  Nesta terça (16), faleceu em Manaus o padre Cânio Grimaldi, fundador da Faculdade Dom Bosco. Nossa solidariedade à família salesiana nesse momento doloroso de perda.

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21 Comentário(s)

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Gilson Corrêa comentou:
16/04/2016
Fiquei triste com a notícia do falecimento do Seu Maravalhas, que por sinal era dono da lanchonete que ficava ao lado do cine Odeon. Por outro lado fiquei feliz por saber notícia da Izabel, minha amiga querida, que juntamente com a Constância e Frank, fizeram parte da minha adolescência. Bela crônica e merecida homenagem ao grande Português! Parabéns Bessa Contato de Gilson Corrêa
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Eudimar Carvalho Néri comentou:
24/02/2016
Uma correção na sua bela homenagem ao Maravalhas: o nome do garoto salvo das águas não é Jurandir nem Irandir, mas Jandir, eu o conheci, era do São Raimundo, morava na rua Cinco de Setembro, mas a família dele mudou para o interior, acho que para Eirunepé, não tenho certeza, não sei se ainda está vivo.
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Paula comentou:
23/02/2016
Adorei, adorei. Não precisa dizer mais. Ah sim! adorei o relato e o Maravalhas.
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Ana Stanislaw comentou:
21/02/2016
Adorei, Bessa. Linda e divertida a história de Maravilhas!!
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Paulo José Cunha comentou:
21/02/2016
Crônica deliciosa, seu Bessa. O senhor é muito danado com essa pena afiada! Saudades de um tambaqui na brasa, de um tacacá ali na frente do teatro, de dois dedos de prosa com a turma do Armando. Qualquer hora bato aí na porta de você. Deve-nos crônica sobre o fim do glorioso Galo Carijó, onde fui apresentado a uma das mis espetaculares iguarias da culinária nacional – o jaraqui frito com baião. Aquele lugar era inimaginável. Mesmo assim, existiu. E se acabou, graças à incúria ou lá-o-que-seja que deu fim a um dos lugares mais autenticamente manauaras que já conheci. Já falei sobre isso com Aldísio, que não se conforma, nem deve.
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lucienne comentou:
21/02/2016
Bessa sempre insuperável! Também fui criada com vizinhos portugueses, o v ira, a desgarrada, o fado; e ainda o sabor regional amazonense. AMEI.
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Geraldinho Caleffi comentou:
21/02/2016
O poeta Luis Bacellar, que era de Aparecida, antes de morrer me contou uma conversa que ele teve na banca da Dona Alvina tacacazeira, ali na Alexandre Amorim com a Xavier de Mendonça, quase em frente a casa dos dois. Bacellar jura que Moacir confessou a autoria do empurrão, mas que se redimiu. Comprou para Maravalhas um terno novo feito sob medida pelo Domingos Demasi, um sapato de bico fino na Sapataria Montemurro, do velho Nicolau, e um chapéu novinho em folha na Casa Alberto, do seu Greijal. Moacir certamente confirmará a histórica.
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Mauro Souza Almeida Queiroz comentou:
21/02/2016
Com todo respeito, me permito discordar da versáo apresentada pelo Caleffi. Na verdade, quem ressarciu o Maravalhas foi a SOBUCHA, Sociedade dos Bucheiros do Amazonas, na época presidida por um dos irmãos Queiroz, que era tio da minha mãe. O Moacir só serviu de intermediário.
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ir. giustina zanato comentou:
20/02/2016
mesmo de longe sempre gosto de ler os artigos deste jornal...muito obrigada
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Jandir Jr comentou:
20/02/2016
Show Professor. Belo registro para a memória do nosso torrão e nossos heróis.
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Paulo Jacob comentou:
20/02/2016
Babá acho q o Maravalha já tinha fixado residência em Portugal pois há mais de um ano vi a fotografia dele no face da filha dele q e médica. Bem de qualquer maneira achei sensacional a crônica sobre o Portuga q eu conheci quando ele tinha um salão de sinuca ao lado do Odeon na antiga BOITE ODEON.
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20/02/2016
Que linda história. è muito bom passar por este planete e de fato, escrever história. Contato de Gerusa Pontes de Moura
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Angela Maria (via FB) comentou:
20/02/2016
Eram três poveiros em Aparecida. O sr.Campos era o mais bonito dos três ( Maravalhas, Campos e o Leopoldino) a primeira mulher do sr. Campos a D. Tereza tb era muito bonita
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José MARAJÓ Varella (via FB) comentou:
20/02/2016
Me lembrando de meu tio Xandico, tripeiro de Póvoa de Varzim no Pará como o Maravalhas no Amazonas, José Bessa. Bem diz o Chico em seu fado tropical, isto aqui ainda vai se tornar um imenso Portugal..
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Astrid Lima comentou:
20/02/2016
O José Bessa e as histórias de uma outra Manaus. É sempre bom ler sobre uma época em que a cidade tinha tempo - e o necessário silêncio, a fundamental delicadeza - para ouvir essas pequenas histórias. Naquela época se pulava, não precisava empurrar.
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Nelson Peixoto (via FB) comentou:
20/02/2016
Maravlha, esse Maravalhas na inspiração histórica do nosso bairro de Aparecida e aos portugueses que tanto conversávamos quando comprávamos banana e picolé! Da Casa dias, passando pelo Luciano até mais do seu Mário Soeiro!
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aurelio michiles comentou:
20/02/2016
Fazia muito tempo que não escutava ou lia "Bandeira Branca"...ainda existe?
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Fatima Campos (via FB) comentou:
20/02/2016
Obrigada, foi bom reviver esses momentos únicos.Fico imensamente agradecida por essa homenagem bem merecida que prestou ao meu padrinho.
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Geraldo Sá Peixoto Pinheiro (via FB) comentou:
20/02/2016
Bela crônica Bessa! Vou enviá-la aos amigos Poveiros e Tripeiros para lembrarem as proezas do Maravalhas, um verdadeiro Herói, de cá e de lá!
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Ulisses Nogueira comentou:
20/02/2016
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Juarez Silva (Manaus) comentou:
20/02/2016