CRÔNICAS

A MÃE DE PEZÃO, DILMÉCIO E OS ÍNDIOS

Em: 26 de Outubro de 2014
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Este depoimento, repetido à exaustão no horário eleitoral, me deixa arrepiadinho (passa a mão no meu braço, leitora, espia só os cabelinhos todos em pé). Com voz mansa, boca ligeiramente torta e o chiado do sul fluminense - humildche, humildadche - ela nos traz uma verdade para esse mundo de mentira. Eu sei, eu sei, a marquetagem é sempre falsa, mas o depoimento é uma coisa, o uso dele é outra. A  marquetagem vê em mamãe Pezona uma máquina de votos; para nós, ela tem outra dimensão, é mãe de verdade, como a da gente: fofinha, luminosa, sábia. Linda!
Remembrancer
Pois é, menina, concordo, quem escreve ou dá aulas deve puxar e não encher o saco dos outros. No semestre passado, caminhava eu pelo corredor da universidade e ouvi sem querer a conversa de duas alunas à minha frente. Uma delas perguntou com quem a outra teria aula.
O chato era eu. Quando me viu, empalideceu com receio de represália, improvável aliás, pois ela tem razão. Sou professor há meio século, já ministrei disciplinas que até o capiroto duvida. Daria aula de química inorgânica se pudesse acrescentar um tópico: "a classificação Guarani do fósforo, cloro e oxigênio". Ministraria a disciplina Estruturas no Curso de Engenharia se o professor dela, Gilberto Moraes, me orientasse e se a ementa contemplasse "a visão dos Tuyuka sobre os orifícios retangulares em vigas de concreto armado na construção das modernas malocas".
Num poema em que define o perfil do historiador, Carlos Drummond diz que ele "veio para contar o que não faz jus a ser glorificado",  por isso "é importuno, sabe-se importuno e insiste, rancoroso, fiel". Rancoroso não no sentido de vingativo, mas com conotação positiva de ferido, ofendido, dolorido.
Quando insisto na importância das culturas e línguas indígenas para o país, tema ausente até nas perguntas dos indecisos no debate desta sexta, há quem fique incomodado. Mas a questão indígena e a ambiental não foram contempladas nesta campanha. Levantamento realizado pela Folha de SP mostra que apenas 12% do espaço dos programas no horário eleitoral discutiram propostas, nenhuma delas sobre índios. Podiam substituir um minutinho dos xingamentos para falar ao Brasil sobre a situação de quem está aqui há milênios.
Dilma e Aécio não cometeram tal erro. Na última hora, embora ausente da propaganda eleitoral, os índios mereceram duas postagens nas redes sociais. Uma de Aécio propondo a "ampliação do diálogo com as comunidades indígenas para criar uma agenda de prioridades". Ou seja, algo tão genérico formulado por quem não tem o que dizer e quer enrolar, dando pequena satisfação aos eleitores de Marina.
Amigos argumentam que não posso colocar os direitos dos índios acima dos interesses do Brasil. No pescoço francês, gaivota! Quando se fala em interesse nacional excluindo os índios é porque tem interesses privados escusos por baixo dos panos. Esse papo a gente ouve desde Thomé de Souza, Mem de Sá e Duarte da Costa. O interesse nacional implica línguas e culturas indígenas. A obrigação constitucional do Estado é garantir esses direitos, não apenas para reparar injustiças contra "coitadinhos", mas para incorporar seus saberes e experiências na construção do Brasil moderno.

O ex-BBB Serginho, com foto no Instagram, diz que não fala com índio: "Tenho fobia de índio e de palhaço". Esse pobre coitado é fruto do adestramento que lamentavelmente foi reforçado nesta campanha eleitoral, alimentado por omissão de marqueteiros e parafernália partidária. Nos debates, Dilma e Aécio nem sempre falaram como estadistas, mas em defesa de interesses empresariais privados. Os dois, embora se comportem como tal, não são ex-BBB. Deviam aprender com dona Ercy: humildsche. Domingo, Dona Ercy, nem sei o número e Dilma 13, sem entusiasmo. 

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