CRÔNICAS

Capitã Cloroquina: o tênis e o pênis do Fon-fon

Em: 30 de Maio de 2021 Visualizações: 1602
Capitã Cloroquina: o tênis e o pênis do Fon-fon

Essa versão cearense daquela piada manjada e preconceituosa aconteceu de verdade na Praia de Iracema, em Fortaleza, a antiga Praia do Peixe. Taí minha irmã Tequinha que não me deixa mentir. Ou deixa? Da varanda de sua residência de veraneio, ela viu quando uma jovem senhora que passeava no calçadão parou na Ponte dos Ingleses para curtir o pôr do sol e foi logo abordada por Chico Feitosa, figura popular que vendia aos banhistas água de coco e até protetor solar, competindo com um batalhão de vendedores ambulantes. 

Chiquinho Feitosa tinha o lábio leporino popularmente conhecido como “goela de lobo”. A fissura no lábio superior, agravada por um buraco no céu da boca, atingia a base do nariz, o que dificultava a pronúncia especialmente das consoantes bilabiais. Não se ofendia com o apelido de Fon-fon, mas a situação piorou quando um câncer de alto risco se instalou em sua próstata.  Para controlar a doença que podia ser mortal, um cirurgião extraiu-lhe os testículos. A crueldade da turba enriqueceu o apelido com um adjetivo: Fon-fon Capado. Tristonho e macambúzio, consultava todos os médicos que passavam pela praia para tentar recuperar o bem perdido que lhe haviam cortado.

Foi aí que naquele belo entardecer o Fon-fon cruzou com a pediatra neonatologista Mayra Pinheiro, bastante conhecida naquela praia. Numa manifestação pública em 2013, ela havia gritado raivosa aos médicos cubanos que voltassem “para a senzala”. Um ano depois se candidatou a deputada federal e em 2018 ao Senado (Partido Novo, vixe vixe), sendo derrotada em ambas com votação inexpressiva. O Fon-fon, seu cabo eleitoral, distribuíra gratuitamente “santinhos” na praia. Agora, perguntava de que maneira ela podia retribuir, ajudando-o a reaver o falo ausente.

A fala e o falo

 A Tequinha, que quase não é fofoqueira, nada ouvia de onde estava. Despachou seu filho Fabico, jornalista, como enviado especial, para fazer a cobertura daquele encontro na Ponte dos Ingleses. Ele desceu rapidamente e acompanhou tudo. Reproduzo aqui aquilo que meu sobrinho apurou.

Mayra, conhecida como “Capitão Cloroquina”, receitou o remédio para curar a fala e o falo do fanho Feitosa. Tirou da bolsa Vuitton um vidro com um líquido espesso. Era uma “garrafada” em cuja composição entrava cloroquina, ivermectina, azitromicina, mel de rapadura e o caríssimo leite condensado de quartel. O “lambedor” prescrito para covid-19 curava ainda castração do pênis, lábio leporino, pereba no pé, maneba na mão, coceira no corpo e curuba não-digo-onde, além de frieira, febre aftosa e tristeza parasitária bovina. A “Garrafada da Mayra”, válida até as eleições de 2022, garantia no rótulo que trazia de volta a fala e o falo.

- Tome uma dose três vezes ao dia – ela recomendou.

O Fon-fon tomou logo a primeira lapada ali mesmo. Os dois caminhavam pela praia quando viram uma lâmpada na areia. A médica derramou sobre ela o líquido cloroquinado, transformando-a na lâmpada mágica de Aladin. De dentro dela saiu um gênio que se curvou diante do Chico Fon-fon:  

- Faz três pedidos, atenderei tuas súplicas.

Estimulado pela doutora Mayra, o Fon-fon, com sua fala sem consoantes como o “p” de Pazuello, rogou: 

- Um ...into. Um ...into.

O gênio pensou, pensou... e colocou ao seus pés um cinto. Fon-Fon sinalizou o equívoco do gênio e fez o segundo pedido com um sinônimo iniciado com o “c” de cloroquina:

-  Eu ...ero um ...aralho.

Quando viu diante dele o baralho, abriu o zíper da calça onde outrora residira sua “alavanca-de-arquimedes”, apontou pra lá e berrou desesperado o último pedido numa palavra que começava também com “p”:

- Um ...ênis,

O gênio ouviu o “t” de Traticov e entregou-lhe o par de Nike Moon Shoe anunciado por Neimar antes de ser acusado de assediador.

CPI e CTI

O episódio foi tão marcante que levou Mayra a ver pênis por todos os lados e até no Kremlin, visão compartilhada por Damares e Carlucho, colegas no gabinete das sombras. Durante seu depoimento na sessão desta terça (25), o vice-presidente da CPI da Covid, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) exibiu áudio no qual Mayra, alucinada, acusa a Fundação Oswaldo Cruz - uma instituição respeitada no mundo inteiro - de ter “um pênis na porta” de sua sede. Nem Freud explica.

- Eu ouvi “tênis” – declarou o leniente presidente da CPI, Omar Aziz, cujos ouvidos similares aos do gênio da lâmpada foram herdados do seu avô árabe que falava “babai” por “papai”. De fato, os fonemas P & T distinguem significados de palavras em português, mas os meios eletrônicos podem dificultar a distinção entre eles e aí cada pessoa ouve de acordo com seus interesses e seus fantasmas. É por isso que, ao telefone, se faz necessário informar: “P” de “pato” ou “T” de “tatu”, para não transformar uma CPI em uma CTI.

No entanto, a aguerrida Capitã Cloroquina, atual secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, desdenhou a tentativa de contemporização do Omar Aziz e reafirmou com todas as letras que ela não era fanha e havia dito “pênis” mesmo, com “p” de Pazuello, tal como aparece no áudio:

-  [...] Eles têm um pênis na porta da Fiocruz, todos os tapetes da porta são a figura do Che Guevara, as figurinhas são do Lula Livre, Marielle Vive. Então é um órgão que tem um poder imenso, porque durante anos eles controlaram a saúde do país através do movimento sanitarista que foi todo construído pela esquerda, eles mandam no Ministério da Saúde".

Questionada por Randolfe se ainda concorda com o que disse na gravação, Mayra respondeu que sim, o que podia comprovar com o pênis inflável representado no logo da instituição.

O chá e a vacina

A fala despirocada da Capitã Cloroquina, ridicularizada no Brasil e no exterior, se auto propagou em memes e trendig topics no Twitter. É inacreditável ser sua protagonista a médica do Ministério da Saúde, cujo mentor é o Capitão Cloroquina, que após visitar comunidades indígenas em São Gabriel da Cachoeira (AM), recomendou nesta quinta (27) contra a covid-19 o uso de “chá de carapanaúba, saracura ou jambu usada pelos índios Balaios”, povo que não existe.

O que ele chamou rudemente de “Balaios” são vários povos de etnias, línguas e culturas diferentes: Tukano, Tuyuka, Baniwa, Baré Desana, Koripako, Kubeo, Piratapuya e Tariana, que vivem na Terra Indígena Balaio homologada pelo presidente Lula em 21/12/2009. No atual governo, não foi reconhecida nenhuma terra indígena.

O Capitão aproveitou sua visita para ironizar os conhecimentos tradicionais indígenas ao colocá-los no mesmo nível da cloroquina, que não tem eficácia comprovada e pode ser fatal quando usada por pacientes com covid:

- Você pode tomar o chá disso daqui e pode curar. Pode não curar também. Agora, se não tomar, vai para o beleléu” -  disse o Capitão Cloroquina, omitindo-se sobre a distribuição de vacinas aos índios.

Como escreveu Thomaz, outro sobrinho que me enviou a notícia, “a declaração do presidente da República pode levar a uma nova onda de preconceito em relação à medicina e aos saberes indígenas, que aparecem aqui descontextualizados”. Ele exibe aqui o seu projeto político des-educativo, não só nos modos, que não primam pela cortesia, mas pelos conteúdos anti-ciência em qualquer área do conhecimento.

O Capitão Cloroquina entrou em terra indígena sem estar vacinado, sem máscara, com uma comitiva igualmente negacionista, capaz de transmitir vírus e bactérias, demonstrando aquela competência que defendeu em discurso no dia 15 de abril de 1998, publicado no dia seguinte no Diário Oficial da Câmara:

- A cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”. 

A cavalaria está operando atualmente aqui. Os Yanomami e os Munduruku que vêm sofrendo frequentes ataques de garimpeiros ilegais estimulados por Ricardo Salles, ministro Contra o Meio-ambiente, sabem o que é essa “competência”. Os invasores estão usando armamento pesado, como metralhadora e outras armas liberadas por este (des) Governo.

O Brasil, sinceramente, não merece o Capitão e a Capitã Cloroquina, nem muito menos o seu “gordinho de estimação”. Eles representam a derrota da inteligência e do pensamento, a vitória do terraplanismo, da cloroquina e das armas.

Chico Feitosa, que agora vive jogando baralho, calçado com o tênis da Nike e ostentando um cinto de couro cor café com fivela dourada,  acabou ofendendo as mulheres ao definir o atual mandatário:

- Ele é ...ilho da ...uta. Um ...enocida.

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13 Comentário(s)

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Paulo Roberto Malty comentou:
18/06/2021
Esta cronica conheço desde 1972 e agora foi requentada. Reescreve com historia dos petistas ladroes do erário publico e do governador do amazonas ou da Sra. com bastante dinheiro usurpado, ai sim. O Brasil faz por merecer.
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Isabella Thiago de Mello comentou:
06/06/2021
É uma comédia dos horrores, um crime contra a humanidade...um genocídio...uma bestialidade... Imagino como esteja o nosso médico sanitarista Oswaldo Cruz lá do Céu vendo esse circo macabro... Bessa, permita-me uma pergunta: o Fon-Fon perdeu os bagos ou o falo...Não me diga que ele perdeu os dois...Puxa, vida... Os culhões não tem jeito. Internamente são uns "novelos de lã" um emaranhado de veias do caminho do espermatozóide. Mas o pênis tem jeito. É muito mais simples, é só uma artéria gigantesca para irrigar, "encher" de sangue a mangueira. Há próteses... Podíamos fazer uma vaquinha...
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Rodrigo Vascaíno comentou:
31/05/2021
O governo quer levar os jogos para Manaus e Brasília além do RJ. Eu queria pedir para o gênio da lâmpada para tirar esse presidente o mais rápido possível, talvez o governo olhasse para a trofeu da copa América e observasse bem , até que tem um aspecto fálico , assim poderiam ficar bravos e cancelar o torneio
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Decio Adams comentou:
31/05/2021
Admirável a conexão estabelecida entre o folclore de longa data e os acontecimentos de agora. Sinceramente, seria extremamente hilário, se não fosse uma tragédia o atual estado da economia, da saúde pública (estamos em pandemônio) não pandemia, desmoralização internacional, tornando-os o motivo da chacota de todos os jornais e jornalecos ao redor do mundo. Somos "gozados" até pelo abençoado Papa Francisco: Muita cachaça e pouca oração. Assim não pode haver salvação.
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Luiz Pucú comentou:
31/05/2021
GARGALHADAS A CADA PARÁGRAFO....AXE BABÁ!!!
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Gaucho Guille comentou:
30/05/2021
: To chorando e mijando das gargalhadas Tragedia e comedia Junto
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Janine Malanski comentou:
30/05/2021
Delicia de ler descontração e delação
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Aurelio Michiles comentou:
30/05/2021
Babá, sensacional! Dei boas e deliciosas gargalhadas.
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Ruth Henrique Henrique (via FB) comentou:
30/05/2021
Adorei a história. Fiquei pensando, para além dos povos indígenas da TI Balaios, após o "passeio de motocicletas", no grupo de motociclistas Balaios, que viviam em pé de guerra com os Hell's Angels, nos anos 90. Acho que dei uma viajada no tema. Deve ser porque ainda não consegui virar jacaré...
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Magela Ranciaro (via FB) comentou:
29/05/2021
olha, maninho, nesse fim de tarde, num ensolarado sábado, apesar de tanta tragédia, tinha mesmo que ser comemorado com fartas gargalhadas. Uma pérola esse Fon-fon Capado e a capitã, pense!?
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Geraldinho Caleffi comentou:
29/05/2021
A tia Teca havia me contado uma historia muito parecida com essa, embora a versão dela seja um pouco diferente.
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Teca comentou:
29/05/2021
Deixo sim, deixo sim, fica à vontade, as verdades estão nas entrelinhas.
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Ana Silva comentou:
29/05/2021
Sensacional, única e inteligente! Adorei Bessa, estás afinado como nunca. Bravoooooooooo!
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