Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
"A arte de perder não é nenhum mistério: tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.”
(Trecho de “A Arte de perder” de Elizabeth Bishop)
Caboco, nesta semana o Brasil vive dois campeonatos ao mesmo tempo. De um lado, a Copa do Mundo mobiliza milhões de pessoas diante da televisão, transforma desconhecidos em técnicos da seleção e faz o país prender a respiração a cada ataque. O Brasil foi derrotado pela Noruega. Do outro, o Festival Folclórico de Parintins acaba de consagrar mais um campeão, enquanto o Garantido, boi-bumbá do meu coração, também saiu derrotado.
Foi entre uma disputa e outra que me peguei pensando numa daquelas perguntas que parecem falar apenas de campeonatos, mas acabam falando da vida inteira: a quem interessa que a vitória seja tão importante?
Entre um jogo e outro, entre uma toada e outra, vai se tornando quase natural essa sensação de que tudo precisa de um vencedor. Como se a vida, para fazer sentido, tivesse de ser reduzida a um placar. E talvez o mais curioso não seja a disputa em si, mas o quanto já nos habituamos a enxergar qualquer celebração como competição — mesmo quando ela nasceu para ser festa.
O espetáculo
Parintins sempre me fascinou justamente porque nasceu para ser muito mais do que uma competição. Uma vez por ano, às margens do rio Amazonas, aquela pequena ilha parece crescer até caber o mundo inteiro. O batuque toma conta das ruas, as toadas invadem a noite, as alegorias desafiam a imaginação e o povo transforma memória em espetáculo. Durante três noites, o folclore caboclo deixa de ser lembrança para se tornar presença viva. Parece, por algumas horas, que o Brasil finalmente acerta o passo. Se não na seleção, pelo menos na festa do boi.
E havia algo ainda mais bonito no modo como essa festa era vivida. Antigamente, o boi escolhido era chamado pelo próprio nome; o outro era apenas "o contrário". Não havia ofensa nessa expressão. Havia afeto. Quando um boi entrava na arena, sua torcida explodia em alegria, enquanto a torcida do contrário permanecia em silêncio. Não era um silêncio de derrota, mas de respeito. Era como se todos entendessem que a beleza da festa dependia também de permitir que o outro celebrasse plenamente a sua escolha.
Talvez essa tenha sido uma das formas mais sofisticadas de convivência que já produzimos na Amazônia. Dois lados apaixonados, mas conscientes de que a festa existia antes da disputa.
Hoje, entretanto, quase ninguém discute as narrativas míticas amazônicas, os rituais indígenas, os artistas que constroem alegorias gigantescas, os compositores das toadas ou a criatividade dos itens. A conversa termina quase sempre no mesmo lugar: quem ganhou, quem foi prejudicado, quem foi favorecido pelos jurados, quem merecia mais um décimo.
Foi então que percebi que isso não acontece apenas em Parintins.
A torcida
Acontece na Copa do Mundo. Acontece no carnaval. Acontece nas Olimpíadas. Acontece na política, nas empresas, nas universidades, nas redes sociais e até dentro de casa. Em algum nível, quase tudo vira disputa, comparação, medição de valor.
O filho do outro é mal-educado; o nosso apenas tem personalidade forte. O candidato adversário compra apoio; o nosso faz articulação política. A escola de samba rival foi beneficiada; a nossa finalmente recebeu o reconhecimento que merecia. O jogador do outro time “se joga”; o nosso “sofreu pênalti claro”. Não é mesmo, Galvão Bueno? Quando o resultado favorece quem está do nosso lado, a moral parece mudar de endereço.
A primeira resposta parece simples: torcer é paixão. Mas paixão explica a intensidade das emoções; não explica porque nossa consciência moral muda tão rapidamente quando o beneficiado veste as mesmas cores que nós. Em alguns casos, parece até que não enxergamos o fato, mas apenas o emblema que o acompanha.
Isso acontece porque o ser humano raramente vive apenas como indivíduo. Vivemos também como membros de grupos. Somos o clube, o boi, a escola de samba, a profissão, a religião, a ideologia, a cidade, o time da firma, às vezes até a marca do celular ou o algoritmo que nos alimenta. Carregamos essas identidades como extensões de nós mesmos, como se fossem partes naturais do corpo.
Quando o grupo vence, sentimos que vencemos também — mesmo sem ter participado de nada concreto além da torcida.
O problema é que essa fusão entre identidade e pertencimento produz um efeito colateral perigoso. Aos poucos, deixamos de avaliar os acontecimentos pelo que realmente aconteceu e passamos a julgá-los quase exclusivamente por quem saiu beneficiado. A justiça deixa de ser um princípio para se tornar uma conveniência emocional, ajustada ao lado em que estamos. Isso ocorre, muitas vezes, no próprio Poder Judiciário, quando se quebra o sigilo de uns, mas não o de outros. Não é mesmo, André Mendonça?
E, quando isso se consolida, não é apenas o julgamento que muda: é a própria percepção da realidade.
Mas, enquanto escrevia estas linhas, outra pergunta começou a me incomodar. Será que a gente precisa transformar tudo em competição?
A competição
Será que o boi-bumbá não poderia existir simplesmente como espetáculo? Será que uma escola de samba não poderia desfilar apenas para emocionar? Será que o futebol não poderia voltar a ser apreciado pela beleza do jogo, e não apenas pelo resultado. Não é mesmo, Mané Garrincha?
Ninguém vai ao teatro esperando descobrir qual ator derrotou o outro. Ninguém aprecia um pôr do sol para decidir qual nuvem merece medalha de ouro. Ninguém contempla o Encontro das Águas e afirma que o Negro venceu o Solimões. Há manifestações naturais, artísticas, religiosas e culturais que atravessaram séculos sem produzir campeões, e nem por isso deixaram de emocionar multidões.
É claro que a competição acrescenta um ingrediente poderoso: a incerteza. O suspense nos prende. A disputa produz heróis, vilões, zebras e histórias memoráveis. Não há nada de errado nisso.
O problema começa quando o resultado devora o espetáculo.
Quando o placar importa mais do que a partida.
Quase sempre é isso que acontece. Mas, de vez em quando, o próprio esporte parece se insurgir contra essa lógica.
Foi o que aconteceu nesta Copa do Mundo, quando Argentina e Cabo Verde protagonizaram um daqueles jogos que sobrevivem ao próprio resultado. O placar registrou a classificação da atual campeã do mundo. Ainda assim, durante dias, boa parte da imprensa e dos torcedores falou menos da vitória argentina do que da coragem de uma pequena seleção africana que levou o favoritismo ao limite. Cabo Verde voltou para casa eliminado, mas saiu do torneio maior do que entrou. Por algumas horas, o espetáculo venceu o placar.
Talvez seja justamente por isso que aquela partida tenha emocionado tanta gente. Ela nos lembrou de algo que costumamos esquecer: vencer é importante, mas não esgota o significado de uma experiência. Há derrotas que ampliam a dignidade dos derrotados e vitórias que pouco acrescentam aos vencedores. Nem toda derrota diminui; nem toda vitória engrandece. Apesar disso, tenho três sobrinhas chamadas Vitória e nenhuma batizada de Derrota Freire de Souza.
Infelizmente, episódios assim são cada vez mais raros.
Talvez este seja um dos traços mais curiosos da nossa época. A lógica da competição deixou de organizar apenas as competições e passou a organizar quase toda a vida social.
Tudo virou ranking, nota, audiência, curtida, desempenho e produtividade. Tudo virou dinheiro, virou medalha, virou troféu. Tudo precisa produzir um campeão. Até atividades que nasceram para outros fins passaram a ser avaliadas como se fossem campeonatos.
O futebol nasceu para ser jogado, não apenas vencido.
O boi nasceu para celebrar, não apenas conquistar títulos.
O carnaval nasceu para brincar.
A religião nasceu para oferecer sentido, não mercado.
A universidade nasceu para produzir conhecimento e fazê-lo circular.
A política nasceu para organizar a vida coletiva, e não para fabricar torcidas organizadas.
Quando tudo se transforma em competição, perdemos justamente aquilo que deu origem à atividade.
Os vencedores
Talvez seja por isso que existam pessoas sinceramente felizes diante de vitórias obtidas de maneira duvidosa. Não porque amem a desonestidade, mas porque, naquele instante, a vitória representa algo muito maior do que o cumprimento das regras. Ela simboliza pertencimento, reconhecimento, autoestima e, muitas vezes, compensação.
Em sociedades profundamente desiguais, onde poucos experimentam conquistas concretas ao longo da vida, as vitórias simbólicas adquirem um peso gigantesco. O sujeito pode nunca ter levantado uma taça, mas diz "nós ganhamos" com a convicção de quem marcou o gol decisivo. A emoção é verdadeira, embora o troféu permaneça na sala de outra pessoa e a grana milionária seja embolsada por uns poucos.
Só que essa emoção não circula sozinha.
Ela é cuidadosamente alimentada por estruturas que aprenderam a transformar tudo em disputa lucrativa.
No futebol, por exemplo, a lógica do jogo já não pertence apenas ao campo. Pertence também aos contratos de transmissão, às casas de aposta, aos algoritmos de engajamento e aos interesses de quem transforma cada lance em produto. A própria imprevisibilidade do resultado virou mercadoria.
Vasco da Gama é apenas um entre vários casos recentes que mostram como decisões administrativas, disputas financeiras e pressões externas passam a disputar espaço com o próprio esporte — e como, muitas vezes, o jogo deixa de ser apenas jogo.
Na esfera global, a FIFA, que deu o Prêmio FIFA da Paz exigido por quem faz guerra, opera dentro de um ecossistema em que a competição não é só esportiva: é também econômica, política e midiática. E onde há audiência, há mercado. E onde há mercado, há disputa por controle da narrativa.
O mesmo se repete nas chamadas "novas paixões" digitais. As plataformas e as bets esportivas não apenas acompanham o jogo — elas o reconfiguram. A emoção passa a ser continuamente estimulada, fragmentada e monetizada. O torcedor já não assiste apenas: ele participa de um fluxo permanente de apostas, dados e recompensas simbólicas.
Na religião, algo ainda mais sutil acontece. Em muitos contextos, a fé que deveria ser experiência de sentido passa a ser reorganizada em torno de pertencimento, performance e consumo simbólico. A crença se aproxima do produto; a comunidade se aproxima do mercado; e a espiritualidade, da lógica de disputa por fiéis, recursos e influência.
E na política — inclusive na Amazônia — o fenômeno se repete com outras cores. Em Parintins, não é apenas o boi que disputa a arena. Há também disputas por visibilidade, financiamento, prestígio institucional e capital simbólico. O espetáculo popular continua sendo do povo, mas se torna indústria cultural, e os bastidores já não são apenas dele.
O ponto não é afirmar uma conspiração única por trás de tudo isso.
O ponto é perceber algo mais desconfortável: diferentes sistemas descobriram que a competição é uma das formas mais eficientes de organizar desejo, atenção e dinheiro ao mesmo tempo.
E quando isso acontece, a pergunta "quem venceu?" deixa de ser inocente. Ela passa a ser parte do próprio negócio.
Talvez seja por isso que eu continue preferindo o espetáculo ao placar, a festa ao ranking, a cultura ao troféu e a vitória àqueles que a merecem. Porque algumas das coisas mais bonitas da minha vida nunca venceram campeonato algum.
Como diz a toada do Garantido, meu coração é vermelho.
E nunca fiz muita questão de explicar onde termina o vermelho do boi e onde começa o vermelho das minhas ideias. Talvez porque ambos tenham nascido da mesma esperança: a de que o mundo seja um lugar onde a beleza valha mais do que o lucro, onde a solidariedade valha mais do que a disputa e onde ninguém precise derrotar o outro para existir plenamente.
Ou, mais explicitamente, como canta o argentino Atahualpa Yupanqui na música Preguntitas sobre Dios:
— Si hay una cosa en la tierra más importante que Dios, es que naide escupa sangre pa' que otro viva mejor.
