CRÔNICAS

Heranças sem escritura: Memórias de uma viagem póstuma

Em: 25 de Julho de 2026 Visualizações: 172
Heranças sem escritura: Memórias de uma viagem póstuma

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver..."
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas.1880).

 

Caboco, Machado de Assis teve a ousadia de começar um dos maiores romances da literatura brasileira pelo fim. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a primeira voz que ouvimos é a de um morto. Confesso que isso não me ocorreu agora quando acabo de visitar Petrópolis nas férias com minha filha. Mas, olhando para a viagem, percebo que nós também começamos pelo fim.

Nossa primeira parada foi a Catedral de São Pedro de Alcântara, onde repousam os restos mortais de Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina. Achei curioso iniciar uma viagem justamente diante da morte. Enquanto observava aquele mausoléu silencioso, imaginei que ali terminava a história de um homem que governou o Brasil por quase meio século.

Ao meu lado, porém, as perguntas não davam trégua. Minha filha já conhecia boa parte da história do Império pelas aulas da escola, mas queria entender aquilo que os livros normalmente deixam em segundo plano. Por que um imperador estava enterrado ali? Quem havia projetado aquela catedral? Quem decidia aqueles vitrais? Por que existiu um império no Brasil? E, principalmente, por que e como ele acabou?

Foi então que percebi uma ironia bonita. Nossa viagem começava onde a vida de Dom Pedro II havia terminado, mas seguia impulsionada pela curiosidade de uma adolescente determinada a transformar cada resposta em uma nova pergunta. Se Brás Cubas narra sua história depois de morto, a nossa seria contada justamente porque minha filha insistia em lembrar que a História só continua viva quando alguém ainda se dispõe a questioná-la.

Talvez seja essa a maior virtude de viajar com filhos. A gente imagina que está mostrando um lugar para eles, quando, na verdade, são eles que nos obrigam a enxergá-lo pela primeira vez. Isso não acontece apenas porque perguntam muito, mas porque fazem indagações diferentes das nossas. Foi assim durante toda a viagem. Cada prédio, cada jardim, cada corredor e cada escadaria deixavam de ser apenas patrimônio histórico para se transformar em assunto de conversa entre pai e filha. Descobri, mais uma vez, que poucas experiências são tão bonitas quanto aprender sem perceber que estamos estudando.

O imperador

Da catedral seguimos para o Palácio Imperial. Confesso que entrei esperando encontrar uma opulência ainda maior. Talvez porque a palavra "palácio" sempre faça nossa imaginação trabalhar em excesso. Pensei em salões cobertos de ouro, lustres monumentais e uma ostentação digna das grandes monarquias europeias. Nesse aspecto, o prédio me surpreendeu justamente pela sobriedade. Juro que esperava ver mais ouro ali do que vi no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.

Mas seria injusto dizer que saí decepcionado. Pelo contrário. Fiquei novamente impressionado com a imensidão da construção. Os salões parecem não terminar, os tetos desafiam a altura, as paredes transmitem uma sensação de permanência, e os jardins parecem abraçar o visitante. A grandiosidade está menos nos adornos e mais na escala da obra. Naquele momento, lembrei o que meu pai me dissera outrora: o palácio nunca foi apenas uma casa. Era um símbolo. Um país recém-independente precisava convencer o mundo de que era estável, organizado e digno de respeito, e aquele edifício cumpria essa missão sem precisar levantar a voz.

Enquanto caminhávamos pelos corredores, minha filha me perguntou quantas pessoas moravam ali e por que um homem precisava de uma casa tão grande. Achei graça, porque talvez essa seja a pergunta mais sincera que alguém possa fazer diante de um palácio. Expliquei que Dom Pedro II morava ali, mas que o prédio existia para muito mais do que isso. Era ali que o Brasil recebia diplomatas, cientistas, artistas e autoridades estrangeiras.

Curiosamente, quanto mais eu falava sobre o edifício, mais percebia que seu morador parecia gostar menos da pompa do que a própria construção. Dom Pedro II preferia livros a bailes, ciência a cerimônias, fotografia às intrigas da Corte. Talvez o maior luxo daquele imperador não fosse o mármore dos salões, mas o privilégio de poder dedicar boa parte da vida ao conhecimento.

O inventor

E, falando em ciência, seguimos para A Encantada, casa de Santos Dumont, o pai da aviação. Foi ali que senti uma sensação completamente diferente. Achei aquele lugar incrivelmente aconchegante. Pequeno, silencioso, acolhedor. Não era uma casa construída para impressionar ninguém. Era uma casa feita para viver. Havia uma harmonia difícil de explicar entre os ambientes, como se cada metro quadrado tivesse encontrado exatamente sua razão de existir.

Comentei com minha filha que as MRVs da vida poderiam passar uma temporada estudando aquela planta antes de lançar certos apartamentos onde a mesa de jantar disputa espaço com a porta da geladeira. Ela riu. Eu também. Mas a brincadeira escondia uma verdade: Santos Dumont entendia que conforto não depende apenas de metragem. Depende de inteligência. Nesse sentido, parecia muito com D. Pedro, mas o outro, o bispo Pedro Casaldáliga, que abdicou do palácio episcopal por uma choupana.

Cada detalhe da casa parecia confirmar isso. A famosa escada, que obriga o visitante a subir sempre começando com o pé direito, não nasceu de superstição, mas de engenharia. Ela economiza espaço sem perder funcionalidade. Não havia cozinha convencional porque Santos Dumont preferia fazer as refeições fora de casa. Os cômodos são compactos, iluminados e extremamente bem aproveitados. Não existe desperdício. Não existem espaços criados apenas para parecer importantes. Tudo ali cumpre uma função. A casa parece menos uma obra de arquitetura e mais uma ideia construída em tijolos.

Foi então que minha filha fez uma observação que me desmontou. Disse que o palácio era bonito, mas que conseguiria se imaginar morando em A Encantada. Sorri, porque eu também havia pensado exatamente isso. O Palácio Imperial encanta os olhos; A Encantada abraça a gente. Um impressiona pela dimensão; o outro conquista pela intimidade. Um foi construído para representar um país inteiro. O outro foi pensado para acolher um homem e suas ideias.

O educador

Na volta, caminhando pelas ruas arborizadas de Petrópolis, fiquei pensando que talvez aquela comparação dissesse mais sobre nós do que sobre seus antigos moradores. Passamos boa parte da vida acreditando que felicidade tem relação com tamanho, luxo ou aparência. No entanto, basta entrar na pequena casa de Santos Dumont para perceber que inteligência, conforto e beleza podem ocupar um espaço surpreendentemente modesto. Da mesma forma, basta atravessar os salões do Palácio Imperial para entender que algumas construções precisam ser grandes porque representam algo maior do que seus próprios moradores.

Também me chamou atenção o fato de que ninguém sabe dizer exatamente quanto custou erguer aquelas construções. O Palácio Imperial consumiu recursos públicos durante quase duas décadas, mobilizando engenheiros, artesãos, trabalhadores livres, imigrantes e pessoas escravizadas. Já A Encantada foi construída pelo próprio Santos Dumont em poucos meses, sem ostentação e sem registros detalhados de seu orçamento. Talvez por isso um edifício seja lembrado pelo tamanho do investimento e o outro pelas ideias que continua inspirando.

Quando deixamos Petrópolis, percebi que o maior presente da viagem não estava no palácio, nem na casinha, nem nas fotografias que tiramos. Estava nas conversas. Em cada pergunta feita, em cada resposta improvisada, em cada momento em que precisei admitir que não sabia alguma coisa e que descobriríamos juntos. Viajar com filhos tem esse efeito curioso: a gente acredita que está mostrando o mundo para eles, quando, na verdade, são eles que devolvem ao mundo a capacidade de nos surpreender.

Enquanto minha filha fazia perguntas percebi que, de certa forma, eu também levava comigo os velhos da minha vida. Meus pais, meus tios, meus professores e tantas outras pessoas que me ensinaram a gostar de livros, de História e de boas conversas. O que hoje ofereço a ela não nasceu comigo. É uma herança que recebi sem escritura, construída em almoços de domingo, conversas demoradas, salas de aula, bibliotecas e exemplos silenciosos. Agora, tento apenas passá-la adiante. Talvez a melhor forma de agradecer a quem nos educou seja justamente essa: fazer com que o conhecimento, a curiosidade e o encantamento não terminem na nossa geração.

Talvez seja por isso que nossa viagem tenha começado diante da morte de um imperador e terminado celebrando a vida por meio da curiosidade de uma jovem que já começa a construir seu próprio olhar sobre a História. Dom Pedro II repousa em silêncio sob as pedras da catedral. Minha filha saiu de Petrópolis falando sem parar, relacionando o que havia visto com o que já conhecia das aulas e com perguntas instigantes que ainda permaneceram sem resposta. Entre um e outro, existe mais do que um século de distância. Existe a certeza de que nenhuma história permanece viva por causa dos monumentos que construiu, mas porque alguém continua disposto a contá-la, questioná-la e passá-la adiante.

No fim das contas, caboco, acho que Machado tinha razão em começar sua obra pela morte. Às vezes é preciso olhar para o fim de uma história para compreender tudo aquilo que ela ainda é capaz de fazer nascer.

 

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