Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“A gente quer é ter muita saúde /A gente quer viver a liberdade /
A gente quer viver felicidade.” (Trecho da música “É”, de Gonzaguinha)
Caboco, chegou a hora de falar da eleição que transforma o Brasil numa grande mesa de bar, onde todo mundo sabe exatamente o que o presidente deveria fazer, embora muita gente não consiga lembrar sequer em quem votou para deputado na eleição passada. É a eleição para presidente da República, esse cargo maravilhoso em que o sujeito recebe uma faixa, uma caneta, uma pilha de problemas e a obrigação de ouvir durante quatro anos que a culpa é dele até quando chove demais em Manaus.
Depois de olhar para minha própria trajetória eleitoral, descobri que ela parece ter sido organizada por alguém com particular apreço por candidatos derrotados. Não me incomodo. Democracia não é campeonato para descobrir quem consegue dizer “eu avisei” depois que a eleição termina. Voto é escolha, e escolha exige responsabilidade.
Por isso, vez por outra, eu me lembre daquela velha provocação do Ultraje a Rigor: “A gente somos inútil”. A música brinca com nossa sensação de impotência diante do país, como se fôssemos apenas passageiros de uma história decidida por outros. Mas, se existe alguma coisa que a urna ainda nos permite fazer, é justamente provar que não somos tão inúteis assim. Podemos escolher. Podemos rejeitar. Podemos errar. E, principalmente, podemos cobrar.
Em 2026, para presidente da República, eu vou votar em Lula. Não porque ele seja perfeito — político perfeito só existe na propaganda eleitoral —, nem porque o PT tenha acertado sempre. Não acertou. Também não concordo com todas as decisões dos governos petistas. Meu voto nasce de uma comparação entre os caminhos disponíveis e daquilo que considero melhor para o Brasil.
E existe uma segunda razão, igualmente importante: rejeito com veemência o projeto político da extrema direita brasileira, especialmente aquele que se consolidou em torno de Jair Bolsonaro e que busca continuidade por meio de seus aliados e de sua família. Não rejeito o pensamento de direita em si. Uma direita democrática, liberal ou conservadora tem todo o direito de existir, apesar de não concordar com ela. O que rejeito é uma direita que transformou, na minha avaliação, o ataque às instituições, a intolerância política, a desconfiança eleitoral e a guerra cultural em método de governo.
O passado não desaparece
Não consigo tratar 2026 como se estivéssemos começando uma história do zero. A eleição tem memória. O país tem memória. E me incomoda a facilidade com que acontecimentos graves viram rodapé de jornal depois que muda a disputa eleitoral. Parece que o calendário possui uma borracha própria: quatro anos depois, a tragédia vira estatística, o escândalo vira esquecimento e o responsável reaparece dizendo que agora fará diferente.
Eu não quero participar dessa amnésia. Por isso lembro da pandemia, da forma como o governo Bolsonaro enfrentou a Covid-19, das mais de 700 mil mortes, das disputas em torno das vacinas, da desinformação e das famílias procurando atendimento enquanto o governo minimizava a gravidade da doença. Não digo que um presidente pudesse impedir todas as mortes. Seria injusto. Mas também não aceito que a Presidência da República não tenha responsabilidade quando uma emergência sanitária dessa dimensão é enfrentada com resistência à ciência, negacionismo, falta de coordenação e politização. Governo existe justamente para enfrentar aquilo que o cidadão sozinho não consegue resolver.
Durante a pandemia, o Brasil viu a máscara virar símbolo político, a vacina virar objeto de suspeita e a ciência ser tratada como opinião. Caboco, imagine o médico dizendo ao paciente: “Não sei se seu coração está funcionando, mas vamos fazer uma enquete”. Foi quase esse o espírito de uma parte do debate nacional. Eu não quero novamente um governo que trate conhecimento científico como adversário ideológico. Se houver outra emergência sanitária, prefiro um presidente que ouça cientistas, coordene instituições e coloque a vida das pessoas acima da conveniência política.
Há uma outra questão que também pesa na minha escolha: a tentativa de ruptura democrática que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Não considero aquilo uma simples manifestação que saiu do controle. Houve mobilização para contestar o resultado eleitoral, pressão contra as instituições e, finalmente, a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. Não consigo olhar para isso e depois votar em alguém ligado ao mesmo campo político como se nada tivesse acontecido. Democracia não é brinquedo que pode ser quebrado quando o resultado desagrada.
Para mim, essa é uma das razões mais profundas da rejeição à extrema direita bolsonarista: não aceito que alguém dispute uma eleição dentro das regras democráticas e depois coloque em dúvida as regras quando percebe que pode perder. Especialmente no caso do dito cujo Jair, que se elegeu sete vezes deputado federal com as urnas eletrônicas, e elegeu os quatro zeros pelo mesmo sistema: o 01, o 02, o 03 e até o 04. Isso vale para Lula, para a direita, para a esquerda e para qualquer candidato — vale até para a minha tia Dile nos jogos dominicais de dominó em família. Se Lula perder, deve entregar o poder. Se um candidato de direita perder, deve fazer o mesmo. Urna eletrônica não é brinquedo que só presta quando o resultado agrada.
Por isso, minha rejeição não é estética, religiosa ou partidária. É política. Rejeito a ideia de que o Brasil precise de um líder forte para colocar as instituições “no lugar”. Rejeito a transformação do adversário em inimigo da pátria. Rejeito a tentativa permanente de desacreditar o processo eleitoral. E rejeito também uma cultura política que, em setores do bolsonarismo, normalizou discursos misóginos, homofóbicos e racistas, como se preconceito pudesse ser vendido como opinião e intolerância como liberdade de expressão.
Não consigo aceitar que mulheres sejam tratadas como cidadãs de segunda classe, que pessoas LGBT sejam transformadas em ameaça moral ou que negros e povos indígenas continuem sendo alvo de preconceito enquanto seus direitos são apresentados como privilégios. Não posso aceitar a justificativa da tortura expressa no voto de Jair no impeachment da Dilma. Rejeito a censura aos jornais, à música, ao teatro, ao cinema praticada pela ditadura civil-militar e defendida pela extrema direita. Patriotismo não pode ser uma senha para dispensar o respeito ao outro. Amo o Brasil o suficiente para não querer entregá-lo a quem acredita que democracia só é boa quando seu grupo vence.
Outro aspecto que ajuda a explicar meu voto é a maneira como uma parte da direita tratou a educação. E aqui entra Paulo Freire. Caboco, o homem morreu em 1997, mas conseguiu uma proeza rara: continuar sendo acusado de praticamente todos os males da educação brasileira décadas depois de morto. Se tivesse realmente todo esse poder que seus críticos imaginam, talvez já tivesse recebido uma sala no Palácio do Planalto e uma vaga permanente no Conselho Monetário Nacional.
A rejeição a Paulo Freire diz mais sobre a visão de educação de seus críticos do que sobre o próprio educador. Ele não defendia que professor ensinasse aos alunos o que pensar, mas que a educação ajudasse o estudante a compreender criticamente o mundo. Escola não existe para fabricar alunos que repitam a opinião do professor, do pai, do pastor, do partido ou do presidente. Existe para formar pessoas capazes de pensar, perguntar, pesquisar, argumentar e discordar. Talvez seja justamente isso que incomode quem prefere cidadãos obedientes a cidadãos críticos.
Acredito numa educação que ensine matemática, português, história, ciência e também a fazer perguntas. Acredito em professores respeitados, universidades valorizadas e ciência tratada como instrumento de desenvolvimento. Não acredito que o Brasil vá resolver seus problemas educacionais perseguindo um educador morto. Talvez seja mais produtivo olhar para alfabetização, formação docente, infraestrutura, evasão escolar, desigualdade e políticas públicas. Mas isso exige trabalho. Bode expiatório é mais barato.
Sem canonização
Meu voto em Lula não nasce de paixão cega. Político é para ser votado, cobrado, fiscalizado e, se necessário, derrotado. Lula tem erros, contradições e decisões que merecem crítica. O PT também. Há problemas fiscais, econômicos e administrativos que precisam ser enfrentados. Se houver corrupção, que se investigue; se houver crime, que se puna; se houver incompetência, que se denuncie. Meu voto não é uma borracha que apaga o passado.
Mas, entre Lula e o projeto político representado pela extrema direita bolsonarista, minha escolha é clara. Prefiro um governo que reconheça a democracia como limite do poder, dialogue com as instituições, valorize ciência e educação e enfrente a desigualdade. Prefiro um presidente que possa ser criticado sem transformar a crítica em crime de lesa-pátria. Prefiro um presidente que perca uma discussão para um jornalista a um presidente que declare guerra ao jornalista porque não gostou da pergunta.
E há uma diferença importante: posso votar em Lula sem acreditar em Lula como salvador. O Brasil não precisa de salvador. Precisa de instituições funcionando.
Cansei da política em que todo adversário é comunista, todo crítico é inimigo e qualquer decisão judicial vira conspiração. Cansei de vacina virar assunto ideológico, ciência virar suspeita e patriotismo ser medido pelo tamanho da bandeira na camiseta. Não quero mais quatro anos em que o país inteiro precise escolher diariamente entre “nós” e “eles”. No meio dessa guerra está o Brasil, tentando simplesmente ser um país.
Também não quero transformar todos os eleitores de direita numa caricatura. Quem vota em candidato de direita não é automaticamente fascista, assim como quem vota em Lula não é automaticamente comunista. Essa simplificação é preguiçosa. Minha rejeição é às ideias e ao projeto político que considero perigosos para a democracia, não à humanidade de quem pensa diferente.
Mas respeitar o adversário não significa fingir que todos os caminhos são iguais. Existem escolhas que considero melhores, outras piores e algumas perigosas. Por isso digo sem constrangimento: minha rejeição à extrema direita bolsonarista é veemente. Não por ela ser direita, mas porque, enquanto insistir em relativizar a ruptura democrática, atacar instituições, desprezar a ciência, transformar professores em inimigos, alimentar discursos de misoginia, homofobia e racismo e usar a polarização como combustível político, terá minha oposição.
A minha escolha
Em 2026, eu vou votar em Lula. Vou votar porque acredito mais em seu projeto de democracia, porque rejeito a tentativa de ruptura institucional que marcou o bolsonarismo, porque não esqueci a forma como a pandemia foi tratada, porque acredito numa educação pública que forme cidadãos capazes de pensar, porque defendo ciência e porque considero a redução da desigualdade uma prioridade nacional. Vou votar também porque prefiro diálogo institucional a guerra permanente.
Não escondo isso e não tenho vergonha disso. Mas também não pretendo transformar minha escolha numa ordem para ninguém. Tu, Caboco, podes votar diferente. Podes discordar de cada linha desta crônica. Podes achar que Lula é o pior candidato e que a direita tem melhores propostas. Tens esse direito. Eu também. Esse é justamente o ponto: posso defender Lula porque acredito nele e comungo com os valores que ele defende, e tu podes rejeitá-lo porque não acreditas e tens outros – digamos assim - valores. Nenhum de nós precisa tentar destruir a democracia para fazer prevalecer sua opinião.
Eu vou votar em Lula, mas não vou entregar a ele minha consciência. Não vou defendê-lo quando estiver errado nem justificar erro porque “o outro lado também fez”. Meu voto será Lula; minha consciência continuará sendo minha. Democracia não é escolher um lado e desligar o cérebro. É escolher, acompanhar, cobrar e, quando necessário, mudar.
Talvez seja essa a parte mais importante. A urna fecha, a apuração termina, o presidente toma posse e começa o trabalho do eleitor. Se Lula vencer, terá meu voto, mas também minha cobrança. Se acertar, reconhecerei. Se errar, criticarei. Se houver corrupção, defenderei investigação. Porque votar em alguém não significa abandonar o senso crítico na porta da seção eleitoral.
Caboco, desta vez eu sei exatamente qual número vou apertar: 13 + “confirma”. Não porque acredito que seja perfeito, mas porque considero que, diante dos caminhos disponíveis, é o que melhor protege aquilo que não aceito perder: a democracia, a liberdade de discordar, a ciência, a educação e o direito de escolher novamente daqui a quatro anos.
Não quero um Brasil em que a política vire religião, o adversário vire inimigo, a mentira vire método e o autoritarismo seja vendido como coragem. Quero um país imperfeito, porque esse é o único Brasil que existe, mas capaz de discutir seus problemas sem precisar destruir suas instituições. Presidente passa, partido passa, ideologia passa. O Brasil fica. E, desta vez, Caboco, eu quero ajudar a escolher um caminho em que a democracia não precise pedir carona.
Talvez seja por isso que, depois de tanta discussão sobre direita e esquerda, democracia e autoritarismo, ciência e negacionismo, educação e ignorância, eu prefira terminar esta crônica lembrando Gonzaguinha. Porque a política, assim como a vida, não nos oferece escolhas perfeitas. Oferece escolhas possíveis. E viver é também escolher, insistir, corrigir e continuar.
A urna fecha, o resultado aparece e a vida continua. E é justamente aí que começa a nossa parte.
Caboco, desta vez eu já fiz minha escolha. 13 + “confirma”. Vou de Lula.