Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
"É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade"
(Washington Olivetto. Comercial de TV “Hitler”.1987)
Caboco, essa semana assisti a um reels publicado pelo deputado federal Amon Mandel, do Republicanos do Amazonas, onde o ex-prefeito de Manaus, David Almeida, lançou um desafio daqueles que parecem feitos para encerrar qualquer debate antes mesmo que ele comece. A frase tem aquela estrutura clássica da política brasileira: muita convicção, muita certeza e uma pequena sugestão de que quem discorda só pode estar movido por inveja ou interesse político:
“Eu desafio qualquer político, qualquer jornalista, qualquer autoridade, para mostrar uma pasta da Prefeitura de Manaus que não tenha tido sucesso e êxito, que não tenha tido avanços. A nossa gestão foi uma gestão pautada nas entregas, nos resultados, e é isso que assusta. O que assusta os meus adversários é eles saberem que tiveram muito mais do que eu e entregaram muito menos.”
O problema é que o desafio não foi lançado para mim. Não sou político. Não sou jornalista. Não sou autoridade.
Sou estatístico.
E estatístico tem uma mania inconveniente: quando alguém apresenta uma tese, ele procura os dados. Quando alguém afirma que tudo deu certo, ele pergunta: “certo para quem?” Quando alguém fala em sucesso, ele pergunta: “qual indicador mede esse sucesso?”
Porque número tem uma característica que incomoda muito na política: ele não aplaude, não vaia e não participa de inauguração.
Ele simplesmente aparece.
Então resolvi aceitar o desafio do ex-prefeito. Não para procurar uma pasta onde nada avançou, mas para olhar alguns números da cidade. Afinal, se a gestão foi realmente uma sequência de sucessos e êxitos, os indicadores deveriam contar essa mesma história.
Manaus em números
Manaus é uma cidade gigantesca. Segundo o IBGE, em 2025, temos uma população estimada de 2.303.732 habitantes. Somos uma metrópole amazônica, uma das maiores cidades do Brasil, com uma posição econômica estratégica e uma arrecadação que coloca o município entre os maiores arrecadadores de tributos do país.
Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), Manaus ocupa a sétima posição entre as capitais brasileiras em arrecadação de tributos.
É um número importante. Porque dinheiro público é o combustível que permite ao Estado transformar discurso em realidade.
Mas existe uma pergunta que deveria perseguir qualquer gestor: Uma cidade que arrecada muito está conseguindo devolver isso em qualidade de vida?
Porque orçamento não é troféu. Orçamento é responsabilidade. E quando olhamos para alguns indicadores sociais, a fotografia começa a ficar menos confortável.
No mercado de trabalho formal, por exemplo, Manaus aparece apenas na 25ª posição entre as capitais brasileiras. Segundo o Censo 2022 do IBGE, somente 30,86% da população ocupada possui um trabalho formal.
Traduzindo para o português das ruas: uma grande parcela dos trabalhadores manauaras ainda vive sem a proteção e a estabilidade que um emprego formal oferece. Já pensaste, caboco, quando esse pessoal envelhecer, - os que conseguirem envelhecer - sem aposentadoria, como eles se sustentarão? Temos uma cidade que arrecada como uma grande capital, mas que ainda possui um mercado de trabalho que não acompanha essa riqueza.
A matemática, às vezes, tem um senso de humor cruel.
Quando olhamos para a pobreza, o contraste fica ainda mais evidente. Dados do Cadastro Único mostram que Manaus possui 1.172.719 pessoas cadastradas. Desse total, 424.730 pessoas possuem renda mensal de até R$ 109, enquanto outras 238.881 vivem com renda entre R$ 109 e R$ 218.
São centenas de milhares de pessoas vivendo em situação de extrema vulnerabilidade.
Não são números abstratos. São famílias. São crianças. São idosos. São trabalhadores que muitas vezes aparecem nas estatísticas apenas quando precisam pedir ajuda ao Estado.
O IBGE também revela outro dado que deveria tirar o sono de qualquer administrador público: 55,81% da população manauara vive em áreas classificadas como favelas. Isso é mais da metade da cidade. Ou seja, Manaus é uma cidade partida ao meio.
Uma metrópole onde o crescimento urbano caminhou mais rápido que a capacidade do poder público de garantir infraestrutura adequada.
E aqui aparece uma das grandes contradições de Manaus: somos uma cidade cercada pela maior reserva de água doce do planeta, mas 23,76% dos domicílios ainda não possuem abastecimento pela rede de água.
É uma daquelas ironias amazônicas que parecem inventadas por um escritor de ficção: morar sobre rios gigantescos e ainda lutar para abrir uma torneira.
Também existe uma Manaus invisível nos discursos oficiais: a das mães.
Segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos do Ministério da Saúde (SINASC), aproximadamente 75% das mulheres que dão à luz na cidade declaram-se solteiras. São mães solo! São mulheres que, muitas vezes, carregam sozinhas o peso econômico, emocional e social de criar uma criança.
Esse dado deveria estar no centro das políticas públicas de assistência, educação, saúde e geração de renda.
Na educação, Manaus possui aproximadamente 91% das crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos matriculados. É um avanço, mas quando comparado ao Brasil, que apresenta aproximadamente 97%, percebemos que ainda existe uma distância que não pode ser escondida atrás de discursos comemorativos.
Uma gestão pública não pode ser avaliada apenas pelo que entrega. Ela precisa ser avaliada pelo tamanho dos problemas que ainda permanecem. Porque inaugurar é importante. Mas transformar vidas é o objetivo.
A saúde de Manaus
Na saúde, o debate fica ainda mais delicado, porque estamos falando de uma área onde estatísticas significam pessoas esperando atendimento, famílias procurando respostas e cidadãos dependendo de um sistema que deveria funcionar antes da doença aparecer.
O próprio Ministério da Saúde estabelece, através da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), que a Estratégia Saúde da Família (ESF) é o modelo prioritário para organização da Atenção Primária à Saúde no Brasil.
A lógica é simples: a saúde pública eficiente não começa no hospital. Ela começa antes. Começa quando o agente comunitário conhece a rua, quando a equipe conhece as famílias, quando o profissional acompanha o território e consegue perceber o problema antes que ele vire uma emergência.
A Atenção Básica é justamente isso: cuidar das pessoas antes que elas precisem disputar uma vaga em uma unidade de média ou alta complexidade.
A Portaria GM/MS nº 3.493, de 10 de abril de 2024, estabelece como referência um limite aproximado de 3 mil pessoas por equipe de Saúde da Família.
Fazendo essa conta para Manaus, seriam necessárias aproximadamente 768 equipes de Saúde da Família para garantir cobertura integral da população.
Mas os dados disponíveis no sistema público eGESTOR, aberto para consulta de qualquer cidadão, mostram que, em abril de 2026, quando David Almeida deixou a Prefeitura de Manaus, a Secretaria Municipal de Saúde possuía 361 equipes de Saúde da Família.
Em abril de 2021, no início daquela gestão, eram 330 equipes.
Sim, houve crescimento. Mas crescimento não pode ser confundido com suficiência.
Uma cidade com mais de 2,3 milhões de habitantes ainda estava muito distante da quantidade necessária para garantir que toda família manauara tivesse uma equipe acompanhando sua realidade.
O mesmo acontece quando analisamos os Agentes Comunitários de Saúde.
Em abril de 2026, Manaus possuía 1.740 agentes em atividade. Segundo os dados do próprio eGESTOR, cada agente atende, em média, 575 usuários.
Fazendo essa multiplicação, chegamos a aproximadamente 1 milhão de pessoas alcançadas, o equivalente a cerca de 43,43% da população.
Em abril de 2021, eram 1.202 agentes, alcançando aproximadamente 691 mil pessoas, ou 31,14% da população.
Novamente: houve avanço. Mas a pergunta que os números fazem é outra: Avançou o suficiente? Avançou a passo de cágado? Porque essa é a diferença entre apresentar resultados e resolver problemas.
Uma gestão pública sempre terá alguma entrega para mostrar. Sempre haverá uma obra, um programa, uma inauguração ou uma campanha de comunicação capaz de apresentar uma imagem positiva.
Mas a saúde pública é cruel com discursos grandiosos.
Ela aparece na fila da unidade, na consulta que demora, na família que precisa de acompanhamento e não encontra, no bairro onde o atendimento básico ainda não chega.
E os números revelam também algo que vai além daquilo que falta: revelam as escolhas feitas quando os recursos públicos precisam ser distribuídos.
O conselheiro municipal de saúde, enfermeiro Elton Aleme, denunciou em seu perfil no Instagram uma contratação da Secretaria Municipal de Saúde envolvendo a locação de um terreno destinado a estacionamento para atender as necessidades da sede da SEMSA. O contrato nº 005/2024, firmado com a empresa Tucupita Empreendimentos Imobiliários Ltda., prevê a locação pelo período de 60 meses, com valor global de R$ 2.034.000,00.
Antes que alguém tente transformar essa discussão em uma crítica aos servidores públicos, é preciso deixar uma coisa clara: não há nada de errado em servidores da SEMSA terem um local adequado para estacionar seus veículos. Trabalhadores que dedicam sua vida ao serviço público merecem condições dignas de trabalho.
A questão não é o estacionamento. A questão é a prioridade.
Porque orçamento público é uma escolha permanente. Cada recurso destinado a uma determinada finalidade deixa de estar disponível para outra.
E quando olhamos para uma cidade onde milhares de pessoas ainda precisam de uma atenção básica mais presente, onde a cobertura da Estratégia Saúde da Família está distante do ideal e onde tantos cidadãos dependem justamente da porta de entrada do SUS, toda decisão de gasto merece ser analisada dentro do contexto maior.
Não se trata de dizer que um estacionamento é mais importante que uma equipe de saúde. Trata-se de perguntar quais eram as urgências de uma cidade que ainda não conseguiu garantir plenamente o cuidado básico para todos.
Essa é a diferença entre administrar uma estrutura e administrar prioridades.
E por falar em prioridades, existe ainda uma escolha administrativa que merece debate: enquanto o Ministério da Saúde disponibiliza gratuitamente o e-SUS PEC, uma ferramenta nacional criada para fortalecer o prontuário eletrônico e organizar as informações da Atenção Primária, Manaus optou por investir em outro sistema de informação, o Salux.
Tecnologia na saúde não é apenas uma questão de computador ou programa instalado.
É uma questão de acesso. É uma questão de inteligência de gestão. É saber quem precisa de atendimento, onde essa pessoa está, quais famílias estão sem acompanhamento e quais territórios precisam de mais atenção.
Quando a informação não funciona, o problema não fica preso dentro do sistema.
Ele chega na ponta.
Chega para o cidadão.
Meu parecer
Caboco, depois de olhar esses números, preciso voltar à frase inicial do ex-prefeito David Almeida:
“Eu desafio qualquer político, qualquer jornalista, qualquer autoridade, para mostrar uma pasta da Prefeitura de Manaus que não tenha tido sucesso e êxito.”
Confesso que, depois de analisar os dados, existe uma parte dessa afirmação que me parece difícil de contestar.
David Almeida talvez tenha razão em uma coisa: muitos políticos tiveram oportunidade de mudar a realidade de Manaus e não mudaram. A fotografia que vemos hoje não nasceu em quatro anos. Ela é resultado de décadas de decisões, omissões e prioridades escolhidas por diferentes grupos políticos que passaram pelo comando da cidade.
Os problemas de Manaus não foram criados por uma única gestão, por um único prefeito ou por um único partido. A falta de saneamento, a desigualdade social, a precariedade urbana, a baixa cobertura de serviços públicos e tantos outros desafios são frutos de oportunidades desperdiçadas ao longo de muitos anos.
Nesse ponto, a crítica do ex-prefeito encontra fundamento.
Muita gente passou pela Prefeitura prometendo transformar Manaus e deixou para trás problemas que continuaram esperando solução. As promessas de campanha foram engavetadas. Os jingles eram pura propaganda. O do Cabo Pereira era: “Alfredo, Alfredo, cedo está no sol pra fazer com a gente nossa Manaus cada vez melhor”. O do Amazonino Mendes cantava: “Amazonino está voltando pra você, Amazonino está voltando para nós”. As voltas foram muitas, com resultados pífios.
Mas existe uma diferença fundamental entre reconhecer a herança recebida e transformá-la em justificativa permanente.
Porque todo gestor público recebe uma cidade com problemas. A pergunta que realmente importa é outra: O que ele fez com a cidade que recebeu?
Existe uma propaganda histórica da Folha de São Paulo que considero uma das maiores lições sobre comunicação já produzidas no Brasil. O comercial utilizava a trajetória de Adolf Hitler para demonstrar como uma narrativa pode ser construída selecionando apenas fatos verdadeiros que favorecem determinada interpretação. A redução do desemprego e a recuperação econômica inicial da Alemanha eram fatos históricos. O problema era apresentá-los isoladamente, omitindo todo o restante da história. Ao final, a propaganda revelava sua verdadeira mensagem:
"É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade."
Caboco, existe uma enorme lição estatística escondida nessa propaganda. O problema nem sempre está no número apresentado. Muitas vezes, o problema está no número que ficou de fora.
Na estatística aprendemos que nenhum indicador fala sozinho. Ele precisa de denominador, comparação, referência e contexto. Um dado isolado pode informar, mas também pode desinformar quando retirado do seu contexto e do conjunto da realidade.
Uma fotografia pode mostrar uma rua asfaltada e esconder as outras cem que continuam sem pavimentação. Pode mostrar uma Unidade de Saúde inaugurada e esconder a fila de pessoas aguardando atendimento. Pode mostrar que o número de equipes da Estratégia Saúde da Família aumentou e, ao mesmo tempo, esconder que a cobertura continua alcançando menos da metade da população.
O dado isolado pode ser absolutamente verdadeiro. Mas a conclusão construída a partir de uma seleção conveniente de dados pode ser profundamente enganosa. É justamente por isso que estatística não é apenas contar números. É entender contexto. É comparar. É perguntar qual era a necessidade, qual era a meta e qual foi o resultado efetivamente alcançado.
Então, meu parecer é o seguinte:
Sim, muitos políticos tiveram oportunidades de transformar Manaus e não conseguiram.
Sim, existem avanços que precisam ser reconhecidos.
Mas uma gestão pública não pode ser avaliada apenas pelo que conseguiu entregar em relação ao passado. Ela precisa ser avaliada pelo tamanho dos problemas que ainda permanecem quando ela termina.
No fim, caboco, talvez a pergunta mais honesta não seja se David Almeida fez alguma coisa. Fez.
A pergunta é se, diante da arrecadação que Manaus possui, do tamanho da população e da urgência dos problemas sociais, aquilo que foi feito foi suficiente.
Porque a política trabalha com discursos. A estatística trabalha com evidências.
E os números, como eu disse lá no começo desta conversa, têm uma característica que incomoda muito na política: eles não aplaudem, não vaiam, não participam de inaugurações e não disputam eleições. Eles simplesmente aparecem.
E, quando aparecem, mostram a distância entre aquilo que foi prometido, aquilo que foi entregue e aquilo que a população ainda continua esperando.
Porque, no fim das contas, quem espera atendimento, água na torneira, emprego formal e uma vida mais digna não vive de narrativa.
Vive de resultado.
Referências
https://www.instagram.com/reels/DaQjPCRSJR6/
https://amazonas1.com.br/eu-me-apresento-como-aquele-que-resolveu-varios-dos-problemas-de-manaus-diz-david-almeida-ao-defender-pre-candidatura-ao-governo/
https://www.instagram.com/reels/DaTumk4vfe7/
https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/indicadores.html?localidade=1302603&tema=11
https://cecad.cidadania.gov.br/tab_cad.php
https://www.instagram.com/reel/DS3FNWWDj3a/?igsh=Z2N3cWRmcHUyYXRu
