CRÔNICAS

Meio século de casados: o improvável que deu certo

Em: 01 de Junho de 2026 Visualizações: 142
Meio século de casados: o improvável que deu certo

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“Quem não pode com o pote, não pega na rodilha”

 (ditado popular)

 

Existem casais que nasceram para comercial de margarina. Sorriso branco, mesa posta, roupa bege, silêncio elegante e um café da manhã onde ninguém discute porque esqueceram a tampa da manteiga aberta.

Meus pais jamais serviriam para isso. Nunquinha. Passam muito longe desse modelo.

Primeiro porque mamãe sempre teve personalidade demais para sorrir parada, olhando para o horizonte, enquanto uma música instrumental toca ao fundo. Segundo porque papai provavelmente aproveitaria a gravação para discutir desigualdade social com o cameraman e reclamar do preço do café.

Ainda assim — ou talvez exatamente por isso — eles chegaram a meio século de casamento, com amor transbordando. E isso, convenhamos, é um milagre estatisticamente mais improvável do que ganhar na Mega-Sena jogando os mesmos números toda semana.

O começo

Meus pais não começaram a história deles em restaurantes franceses, viagens românticas ou serenatas à luz da lua. Começaram lá no bairro de Aparecida, entre pobreza, solidariedade, amizade antiga, calor amazônico e uma confusão genealógica digna de novela das oito.

Depois da morte de vovó Laudelina, mãe do papai, ele praticamente virou um filho de Dona Elisa. Cresceu entrando e saindo daquela casa como quem atravessa a própria cozinha. Tudo começou correndo atrás do melhor amigo dele, Babá, filho de Dona Elisa e irmão da Preta. Os dois fizeram amizade ainda meninos, naquele tipo de relação construída no barro, na fome compartilhada e nas aventuras suficientemente perigosas para render bronca de mãe e orgulho secreto de moleque.

Aí a vida, essa roteirista completamente sem noção, resolveu aprontar: transformou o “filho agregado” em genro. De repente, Geraldão corria atrás da Preta. Ou era o contrário?

Até hoje acho que Dona Elisa precisou de uns três anos para entender aquilo.

— Como assim o Geraldo agora quer namorar a Preta? Mas ele já não é de casa? Então eu ganho um genro ou perco um filho?

Ninguém sabia direito. Mas deu certo. Deu certo mesmo?

Ou melhor: deu trabalhosamente certo, que é a forma mais honesta de um casamento durar meio século.

Porque casamento longevo não se sustenta só no amor. Sustenta-se também em paciência, renúncia, café quente na madrugada, silêncio estratégico e na capacidade de aprender a discutir sem pedir divórcio. E não estou dizendo que eles nunca pensaram nisso; apenas descobriram que algumas batalhas valem a pena e outras não.

Os testes

Cinquenta anos atrás, eles fizeram aqueles votos que todo mundo repete no casamento sem imaginar direito o tamanho daquilo:

“Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, todos os dias da minha vida, até que a morte nos separe.”

E, goste-se ou não da instituição casamento, preciso admitir: meus pais aparentemente levaram promessa muito a sério, embora preferissem a alegria e a saúde.

Houve momentos em que a vida colocou os dois diante da possibilidade real da perda. Longos períodos de hospital, sustos, noites difíceis.

E mamãe?

Mamãe continua exatamente onde prometeu estar.

Segurando a mão dele, agarrada à Nossa Senhora, brigando com os incrédulos, organizando remédios, mandando todo mundo comer e tentando impedir que o paciente se distraia com o futebol no meio da medicação.

Mas, pensando bem, eles sempre foram assim. Desde que me entendo por gente, os dois vivem funcionando em dupla, sempre se revezando nas tarefas.

Um dava aula perto da escola do outro.

Um fazia o chá; o outro mandava a gente beber.

Um preparava o banho de cheiro; o outro nos dava banho.

Um fazia a comida; o outro limpava a casa.

Um colocava dinheiro dentro de casa; o outro mantinha a casa inteira de pé.

Um comprava revista, tecido, linha e material de artesanato, mesmo quando o orçamento já tinha desistido da gente. O outro jogava na loteria ou no jogo do bicho, acreditando piamente que acertaria os números e conseguiria pagar as dívidas que ela fazia.

Um me batia do lado esquerdo; o outro completava o serviço no direito.

Depois de cinquenta anos, por exemplo, papai provavelmente já entendeu que existem discussões impossíveis de vencer contra mamãe. Quase todas. Ou todas.

E mamãe provavelmente já entendeu que Geraldão jamais deixará de agir como uma mistura de professor, sindicalista, filósofo de boteco e guardião dos seus. Ele já entendeu que ela é simplesmente aquela disposta a alimentar metade do bairro, mesmo sem dinheiro para alimentar direito a si própria.

Pedagogia do cinturão

Mamãe e papai sempre estiveram ali: acompanhando escola, corrigindo comportamento, dando conselho, brigando quando precisava, protegendo quando era necessário e tentando criar oito filhos da maneira mais digna possível dentro das condições que tinham.

Agora… também é importante dizer que, numa casa com tanto menino correndo, quebrando coisa, brigando, subindo em muro, desaparecendo na rua e testando diariamente a paciência dos adultos, os métodos de “reenquadramento pedagógico” às vezes atravessavam levemente — só levemente — a fronteira da Convenção Internacional dos Direitos Humanos. Afinal, um cascudinho aqui não é nenhum delito.

Lembro que, certa vez, tio Babá me contou que um americano ficou escandalizado quando soube que minha avó dava surras homéricas nele, até que, meses depois, conheceu os dois já adultos.

O gringo fez o que gringo costuma fazer com muita facilidade: generalizou. E generalizar, como se sabe, é sempre um risco:

O filho do tio Sam defendia, com convicção quase acadêmica, que mãe americana não pode bater porque, se bate, esse é o único contato físico com o filho. Já a mãe brasileira, segundo ele, pode — porque dá muito carinho, muito afeto, muito contato pele a pele.

Eu não sei se isso cabe em estatística, antropologia ou apenas conversa de bar, mas olhando para minha infância, sou levado a desconfiar que meus pais estudaram exatamente nessa cartilha, sem nunca terem lido o manual.

Não era nada muito grave. Apenas o suficiente para tentar fazer qualquer um aprender rapidamente que certas decisões realmente têm consequências. Afinal, nossos pais pertenciam a um tempo em que disciplina e afeto frequentemente caminhavam juntos, nem sempre da forma mais delicada. Nem doeu! E nem doi agora!

A casa viva

Juntos, eles construíram algo raro: uma família que nunca coube apenas na palavra “família”.

Foram oito filhos. Quatro biológicos mais quatro adotivos. Quatro homens mais quatro mulheres. Quatro casados mais quatro solteiros. Um lindo mais sete feios. Nenhuma diferença de amor.

Na casa deles sempre apareceu mais alguém: um amigo precisando de ajuda, um menino sem rumo, uma vizinha com problema, alguém querendo conselho, alguém querendo café, alguém querendo colo ou simplesmente alguém querendo existir sem ser julgado.

É verdade que dinheiro quase nunca sobrava. Às vezes, mal dava. Mas, olhando hoje, percebo uma coisa curiosa: nunca nos faltaram atenção, presença, educação e carinho. Isso existia de sobra. Havia escassez de muita coisa material, mas nunca houve abandono afetivo.

Hoje entendo que pobreza não era o que existia dentro daquela casa. Porque gente pobre de verdade não consegue repartir o pouco com tanta generosidade. E meus pais repartiam tudo: comida, tempo, preocupação, conselho, cuidado e até o último pedaço de banana frita. E repartiam não o que sobrava, mas até mesmo o que faltava.

Só depois de adulto percebi quantas vezes eles devem ter dormido preocupados para que nós pudéssemos dormir tranquilos.

Lá estavam Preta e Geraldão. E isso talvez seja o que mais marcou nossa infância: eles estavam presentes. É verdade, não eram perfeitos. Não tinham dinheiro. Não tinham respostas para tudo. Mas estavam lá. Sempre estiveram.

Em apresentação de escola. Em febre de madrugada. Em reunião com professor. Na fila do INAMPS e do PAM da Codajás. Na multidão da Feira do Produtor. Em dificuldade financeira. Em bronca merecida. Em abraço silencioso.

Afeto na prática

Crescemos talvez sem luxo, mas jamais sem amparo.

Ela acolhendo, tentando resolver. Ele tentando prover.

Ela organizando. Ele divagando e fazendo contas.

Ela brigando porque a conta não fechava. Ele explicando por que o capitalismo era o culpado.

No fim, misteriosamente, a vida seguia.

E talvez o grande segredo dos dois nunca tenha sido “combinar”. Porque eles nunca “combinaram” completamente.

Mamãe sempre me pareceu mais prática, mais chão, mais organização, mais “menino, enxuga essa louça direito”. Papai sempre foi mais silencioso, mais contemplativo, um homem capaz de discutir revolução social enquanto mexia um cozido de verduras.

Cresci também vendo, dentro de casa, uma espécie silenciosa de ruptura dos valores mais tradicionais sobre homem e mulher — embora meus pais provavelmente jamais usassem essas palavras para definir aquilo.

Enquanto muita gente ainda acreditava que existiam “coisas de homem” e “coisas de mulher”, eu cresci vendo papai cozinhar para todo mundo e passar roupa como quem simplesmente cuidava da própria família. E cresci vendo mamãe trocar tomada de aparelho eletrônico, resolver problema doméstico, dirigir pela cidade inteira, levar carro ao mecânico e enfrentar o mundo prático sem pedir licença a ninguém. Papai, aliás, nunca soube dirigir. Ainda bem.

Talvez eles nunca tenham percebido, mas nos ensinaram cedo que amor e parceria têm muito menos a ver com papéis fixos e muito mais com presença, responsabilidade e cuidado compartilhado.

Talvez seja justamente isso que sustente um casamento longo: um segura a parede enquanto o outro abre a janela.

Velocidade da vida

Juntos, eles criaram filhos, netos, princípios, memórias, discussões políticas, almoços barulhentos, cafés infinitos e uma quantidade de amor que desafia qualquer lógica financeira.

Porque, sinceramente, até hoje eu não entendo como dois professores conseguiram alimentar tanta gente durante tantos anos. Às vezes, cheguei a acreditar que mamãe multiplicava comida igual Cristo multiplicava pão e peixe. Outras vezes, achava que o feijão rendia só por medo do papai.

Hoje, vendo os cabelos brancos dos dois, às vezes me pego tentando entender para onde foi aquele tempo todo.

Parece que foi ontem que a gente corria pela casa, brigava por besteira, ouvia mamãe chamando da cozinha e escutava papai assobiando para mudarmos de emissora, girando o seletor da TV.

Parece que foi ontem que a gente dormia com o barulho da televisão ligada, sentia o cheiro da comida vindo cedo da cozinha (às vezes, às 6h da manhã) e acreditava, com a segurança absoluta das crianças, que nossos pais eram capazes de resolver qualquer problema do mundo.

E talvez a maior crueldade da vida seja justamente essa: a gente demora muitos anos para perceber que estava vivendo os dias dos quais sentiria saudade para sempre. Como canta Ataulfo Alves, lembrando a Miraí de sua infância, “eu era feliz e não sabia”.

A volta

Hoje, olhando para nossa família, filhos, genros, noras, netos correndo, gritando e desmontando a paz da casa —, percebo que meus pais construíram exatamente aquilo que o mundo moderno anda desaprendendo: pertencimento.

Num tempo em que as pessoas descartam relações por qualquer desconforto, eles permaneceram. Com defeitos. Com cansaço. Com dificuldades. Com briguinhas. Com boletos. Com perdas. Com esperança. Mas permaneceram.

Hoje, inclusive, existe uma ironia maravilhosa acontecendo dentro da nossa família: depois de décadas educando oito filhos, agora são eles que começaram a ser educados por nós.

A vida tem um senso de humor curioso.

Os mesmos dois seres humanos que passaram anos dizendo “sai da chuva”, “não chega tarde”, “desliga essa luz”, “juízo!”, “quem não pode com o pote...” e “isso não é hora de comer” agora escutam dos próprios filhos:

— Já tomou o remédio?

— Não pode comer isso.

— Vai dormir cedo.

— Me avisa quando chegar.

— E, pelo amor de Deus, parem de assistir a esses realities.

Entramos oficialmente naquela fase em que os filhos viraram uma espécie de conselho tutelar afetivo dos próprios pais.

E, honestamente, se quiserem chegar aos sessenta anos de casamento, talvez seja prudente começar a obedecer um pouco mais a gente. Porque educar oito filhos deu experiência suficiente para finalmente revidarmos.

E talvez o amor verdadeiro seja menos parecido com cinema e mais parecido com isso: um homem cansado chegando do trabalho, uma mulher educando os filhos, uma discussão sobre a conta de luz ou uma peça quebrada no Fusca velho, uma panela no fogo, alguém perguntando se já tomou remédio e os dois seguindo juntos, mesmo depois de todas as tempestades.

O legado

Cinquenta anos depois, continuo achando extraordinário que tudo tenha começado com a amizade entre dois jovens, num ambiente de dor e ternura.

Talvez o mundo realmente possa ser salvo assim: pela partilha, pela teimosia do afeto, pela mesa cheia, pela porta aberta e por duas pessoas comuns que decidiram, apesar de tudo, continuar escolhendo diariamente uma à outra.

Parabéns, Preta. Sei que não foi fácil aguentar a “ogrice” do Geraldão esse tempo todo.

Parabéns, Geraldão. Sei que amar uma mulher tão intensa também exige coragem — e um pouquinho de loucura.

Vocês não construíram apenas um casamento.

Construíram o lugar para onde todos nós sempre voltamos por dentro.

Porque, no fim das contas, quando o mundo pesa, é nesse lar — feito de barulho, afeto, comida, discussão, briga, fofoca, conselho, gargalhada e amor — que ainda mora a parte mais bonita de quem nós somos.

Estou convencido de que casais de comercial de margarina existem mais nas redes sociais do que na vida real.

Vocês nos ensinaram que nem todo sorriso é branco e impecável. Que as roupas são coloridas, gastas e, às vezes, passadas às pressas. Que mesa posta não significa ausência de problemas. E que, mesmo num café da manhã cheio de amor, alguém ainda pode reclamar da tampa da manteiga esquecida aberta.

Vocês nos ensinaram que casamento de verdade não é silêncio elegante. É barulho. É boleto. É preocupação escondida. É discussão na cozinha. É cuidar um do outro mesmo cansados. É continuar ficando quando seria mais fácil ir embora.

E talvez seja justamente por isso que, cinquenta anos depois, o amor de vocês continue tão inteiro. Porque vocês nunca viveram uma propaganda.

Vocês viveram uma vida.

Hoje, não vamos apenas parabenizá-los pelos 50 anos de casamento. Vamos agradecê-los. Porque foi desse amor duradouro que vocês construíram todo o nosso mundo.

Muito obrigado! Mas não é pra ficar besta não, hein!

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1 Comentário(s)

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Douglas Fabiam de Oliveira Pôrto comentou:
02/06/2026
Maravilha! Uma delícia de narrativa da trajetória bem-sucedida de dois pilares da sua formação e de toda a família — "o fruto não cai longe da árvore": dele brotarão sementes aprimoradas, mais resistentes e que gerarão frutos ainda mais generosos. Traduz aí a essência da vida, a sensibilidade que trazemos, o carinho, o amor e a afetividade que devotamos àqueles que nos precederam. O dia a dia descrito parece um dia comum, retrato de nossas famílias, muito peculiar a todos nós. Quase sinto o cheiro da comida e o barulho da "comunidade vivida". Manausbens aos envolvidos!
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