Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
A história dos homens reflete-se na história dos esgotos.
(Victor Hugo, em Os miseráveis)
Recentemente, o prefeito de Manaus, David Almeida, tornou-se alvo de questionamentos após uma viagem ao Caribe, realizada durante o período do Carnaval de 2025.
A presença de empresários na comitiva, as versões contraditórias sobre quem custeou a viagem e as suspeitas de favorecimento levantaram investigações por órgãos de controle. Em meio à repercussão, o prefeito negou irregularidades e apresentou explicações imprecisas sobre o destino e as despesas — episódio que reacendeu o debate sobre transparência na gestão pública. Especialmente em uma cidade onde até a água anda pedindo explicação.
— Mano, tu sabes que sou de Alter do Chão, aquele pedaço de paraíso no Pará, a uns 30 km de Santarém, deitado às margens do Tapajós. Ali, a água tem transparência de argumento honesto e a areia branca não precisa de decreto para parecer limpa. Não à toa, o The Guardian já colocou o lugar entre as praias mais bonitas do Brasil. Digo isso não por vaidade, mas por credencial: eu sei reconhecer uma praia — e, principalmente, sei reconhecer quando tentam vender uma miragem.
Porque o que o David Almeida faz com a população do Educandos — e, por extensão, de Manaus — não é política pública. É encenação fake com cenário de balneário e roteiro de propaganda. Uma piada sem graça, daquelas em que só ri quem não entrou na água.
Foi com essa ligação atravessada, meio denúncia, meio desabafo, que acordei no último sábado.
Sabe, caboco, o Marcelo Preto tem razão. Ele sabe o que é praia — não por folder, não por discurso, mas por vivência. Sabe pela pele, pelo olho, pelo corpo que entra na água sem precisar fazer ato de fé.
O prefeito David Almeida também sabe. Não por apreço à ciência — que ele costuma tratar como opinião debatível, quase um palpite —, mas por turismo. Sabe pelo contraste. Sabe pelo padrão.
Só que não estou falando do “Caribe Amazônico”, esse que a gente constrói com o que tem, entre beleza real e abandono estrutural.
Falo do Caribe… do Caribe mesmo.
Aquele onde a água é limpa de verdade — e, curiosamente, a conta também costuma ser mais transparente que o discurso por aqui.
E o Caribe é logo ali (para quem pode)
Dizem que governar é cuidar. Em Manaus, há quem conjugue o verbo como férias: eu cuido, tu cuidas, ele viaja.
No meio do Carnaval — quando o suor do povo é em parcelas e ele samba no crédito rotativo —, o prefeito resolveu atravessar o mapa e aportar no Caribe. E não foi turismo, foi metáfora: enquanto a cidade ferve, ele resfria.
Caribe não é ali depois da ponte do Educandos. Caribe é outro idioma: água transparente, problema invisível e responsabilidade em modo avião.
Nada contra descansar. O problema nunca foi o descanso — é o elenco.
Porque prefeito não viaja sozinho. Leva empresários a tiracolo, desses que não tiram férias do interesse público — só mudam o cenário. Em vez de gabinete, resort. Em vez de contrato, coincidência.
Coincidência, aliás, virou nosso gênero literário favorito: tudo acontece sem querer, sobretudo quando convém.
A dúvida não nasceu da viagem do prefeito David Almeida, mas da conta — essa criatura mística que aparece e desaparece conforme a versão. Quem pagou o quê? Quanto custou o quê? Cartão, dinheiro, recibo, silêncio — cada item com sua própria ficção. A viagem e do David, mas a conta é do tamanho do Golias.
E aí mora o incômodo: não é o Caribe, é a matemática criativa.
Porque, quando o dinheiro público entra na história — ainda que pela porta dos fundos —, a conta deixa de ser privada. Vira moral. E moral, em Manaus, anda mais desvalorizada que promessa de campanha.
O Ministério Público investiga. O Tribunal de Contas fareja. E a gente assiste ao velho espetáculo nacional: o sumiço da linha tênue que separa lazer de favorecimento.
O prefeito fala em perseguição. Natural. No Brasil, ser investigado já virou prova de inocência — basta declarar.
Mas há um detalhe incômodo: homem público não tira férias do cargo. Pode até trocar de praia, mas leva o CPF político na bagagem de mão.
No fim, nunca foi sobre o Caribe.
É que, enquanto uns mergulham em águas cristalinas, outros continuam engolindo explicações barrentas. E, em política, o que é barrento raramente decanta. Mas que o prefeito sabe o que é uma praia, não há dúvidas.
Entre o mergulho e o laudo
Na política, há dois tipos de verdade: a que se mede e a que se encena. Em Manaus, a segunda costuma vir com melhor iluminação.
O bairro do Educandos é um retrato antigo da cidade: popular, ribeirinho, marcado por décadas de abandono no saneamento básico. Ali perto, a Prefeitura passou a promover a chamada “praia da Ponta Branca” como espaço “revitalizado” de lazer urbano — um balneário improvisado às margens do rio, vendido como alternativa de descanso para a população. É nesse cenário, entre promessa e precariedade, que começa esta história.
O prefeito foi lá, viu e mergulhou. Um gesto coreografado: se o governante entra, a água vira confiável por decreto. É o argumento do corpo — mais convincente que os PowerPoints do Dallagnol ou da Globo.
Se dependesse disso, bastava o prefeito comer na merenda escolar para resolver o problema da fome dos estudantes.
Do outro lado, o laudo. Sem carisma, sem sorriso, sem filtro. Fala em coliformes — palavra feia que não cabe em outdoor. Não mergulha — denuncia.
Diante do dado, veio o truque clássico: relativizar. Se a regra incomoda, questiona-se a régua. Se o termômetro acusa febre, discute-se o termômetro.
E talvez aí tenha surgido a frase mais honesta do episódio: se a régua fosse levada a sério, interditaria boa parte da cidade.
Exato.
E isso não é argumento de defesa — é confissão de gestão. Porque governar não é convencer a população de que o problema é exagero. É resolver o problema antes que ele vire estatística.
Tempo, aliás, não faltou. O que faltou foi constrangimento.
Veio também o argumento da alegria: gente ocupando o espaço, comércio girando, criança correndo. Bonito. Fotogênico. Eleitoral.
Mas alegria não esteriliza bactéria. Uma coisa é usar o espaço. Outra é confiar na água sem precisar de fé.
E o roteiro se repete: inaugura-se antes de garantir, celebra-se antes de testar, divulga-se antes de comprovar. A realidade que se adapte ao marketing.
E, quando não se adapta, terceiriza-se: a água é de outro, o controle é de terceiro, o risco é coletivo — e a responsabilidade, curiosamente, evapora.
No fim, a Ponta Branca não virou praia. Virou método.
Governar por performance: mergulhar para convencer, sorrir para desviar, relativizar para sobreviver. Funciona — até o dia em que a biologia resolve votar.
Cagadas de Manaus
E nem precisa de auditoria sofisticada. Às vezes, basta o corpo — esse fiscal implacável — reagir.
Uma diarreia bem distribuída costuma ser mais honesta que qualquer coletiva.
Mas, nesse ponto, a gestão parece confortável: quem já se acostumou a produzir outras cagadas não se impressiona com efeitos colaterais.
E os números, esses estraga-festas, insistem em aparecer.
Segundo o DataSUS, em 2024, a taxa de mortalidade por diarreia e gastroenterite foi de 2,55 por 100 mil habitantes no Brasil. Em Manaus, 3,9. Incrível como ainda podemos ter mortes por diarreia! E a SEMSA, responsável pela a atenção básica, mantem silêncio diante do alerta dos pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas –UEA.
Nas internações, o padrão se repete: 52 por 100 mil no país; 81,75 por 100 mil em Manaus. Pessoas internam e vão a óbito nos hospitais da capital amazonense. E do governador Wilson Lima, nem um pio de apoio à Universidade do estado.
O IBGE traz no Censo de 2022 um dado alarmante: quando o assunto é esgoto, metade da cidade está conectada. A outra metade está… conectada com a realidade.
E há o dado que não cabe em propaganda institucional: enquanto no Brasil 8,91% vivem em favelas, em Manaus esse número chega a 55,8% (IBGE, Censo 2022)
Não é acaso. Não é narrativa. Não é perseguição. É estrutura. É política pública — ou a falta dela. É o resultado previsível de anos tratando saneamento como detalhe e marketing como prioridade.
E aí a pergunta continua simples — quase constrangedora: entre o mergulho do prefeito e o laudo técnico, quem deve dizer se a água é segura?
Em Manaus, por enquanto, a resposta continua a mesma: turva, conveniente — e perigosamente convincente para quem prefere acreditar.
Mas talvez a medida mais honesta ainda seja a mais simples: a do Marcelo Preto.
Não a do discurso, nem a da foto, nem a do mergulho ensaiado. A do corpo que entra na água sem precisar de narrativa para se tranquilizar. Porque quem sabe o que é praia de verdade não precisa provar nada.
Só percebe — na hora — quando aquilo ali não é.
Referências
https://www.theguardian.com/travel/2009/apr/15/beach-brazil-top-10
https://bncamazonas.com.br/poder/david-almeida-mentiu-sobre-viagem-ao-caribe/
https://www.manaus.am.gov.br/noticia/noticia-lazer/praia-da-ponta-branca-david-almeida/
http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sih/cnv/nibr.def
