CRÔNICAS

A sujeira da sojeira: o guarani proibido

Em: 07 de Março de 2021 Visualizações: 2687
A sujeira da sojeira: o guarani proibido

Essa é a história de uma sojeira ou, perdão pelo trocadilho infame, de uma sujeira. A agronegociante brasileira descendente de alemães, Janice Neukamp Haverroth, dona de fazendas de soja em Colônia Luz Bella de Guayaibi, departamento de São Pedro, no Paraguai, quis estabelecer uma ‘política doméstica’ de línguas dentro de sua propriedade. Num áudio glotocida que bombou nas redes sociais, ela determinou:

- “A partir de hoje é proibido falar guarani na fazenda. Proibido, vocês estão escutando? Pro-i-bi-do”.

O uso três vezes de “proibido” era para não deixar dúvidas. Ameaçou demitir quem não obedecesse a ordem e justificou dizendo que seu marido Aldo também estava incomodado.:

- “Nós não falamos alemão na frente de vocês. Se querem falar guarani devem procurar outro patrão que fale guarani, um patrão paraguaio”.

Acontece que o guarani, idioma oficial do Paraguai desde 1992, é falado atualmente por mais de 80% dos 7.5 milhões de paraguaios, a maioria em situação de bilinguismo com o espanhol, além de uma minoria monolíngue em guarani, segundo estimativas feitas pela Dirección General de Estadística, Encuestas y Censos (DGEEC) com base no Censo de 2012. A língua guarani tem mais de cinco séculos de resistência. A exemplo de toda e qualquer língua, vem mudando, mas insiste em sobreviver no meio das proibições e repressões. 

No entanto, a relação dessas duas línguas nunca foi harmoniosa, porque o espanhol falado pelos detentores do poder continua sendo mais prestigiado.  Dos oito canais de TV aberta, apenas três apresentam aqui e ali programas com conteúdo integral em guarani. As editoras limitam suas publicações na língua, embora Mafalda já tenha dado o ar de sua graça: “Mbaeinchapa, che ha’e Mafalda tem ko’aga añe’ema guaraníme”, ela anuncia em sua apresentação: “Como estão vocês? Sou Mafalda e agora falo guarani”.

A escola também não abriu um espaço nobre para a maioria das crianças que são monolíngues em guarani e, por isso, são socialmente marginalizadas, com alto grau de evasão escolar.  Foi esse o contexto da proibição da sojeira, que se achou com grana e poder suficiente para reforçar a discriminação e proibir o guarani em sua fazenda, situada em território paraguaio.

Me desculpe

A resposta veio no plano institucional e na reação dos falantes de guarani. No primeiro caso, a Secretaria de Políticas Linguísticas condenou em nota oficial a sojeira por violar a Lei das Línguas (Lei 4251/2010), que garante os direitos linguísticos dos cidadãos paraguaios. O Ateneo y Cultura Guarani também repudiou o ataque “por parte de pessoas que mantém uma atitude imperialista e atropelam os direitos humanos dos falantes do idioma guarani”, criticando Janice por proibir que seus empregados vendessem sua força de trabalho numa língua oficial do país.

O fato ganhou a manchete do jornal ABC Color, que tentou entrevistar a sojeira, mas ela desligou o celular para não atender os repórteres. Uma multidão realizou manifestação em defesa da língua  na segunda-feira (1) e, para que a sojeira limpasse a sujeira feita, atiraram rolos de papel higiênico nas vidraças das janelas e no quintal da sua casa, em Curuguaty, cidade da região de Paranhos, tão distante da capital de Mato Grosso do Sul como o Rio é de São Paulo. Frases pedindo a expulsão do casal Aldo e Janice foram escritas na calçada da rua segundo noticiou o Campo Grande News.

A enorme repercussão internacional provocou indignação generalizada. Janice disse que não disse o que disse, seguindo o modelo de Trump e de Bolsonaro, os dois chefes de estado mais mentirosos do planeta. Mas a prova irrefutável da mensagem gravada se espalhou tanto, que ela foi obrigada a adotar o exitoso modelo cara de pau do veterinário e empresário Onyx Lorenzoni (DEM/RS vixe vixe), atual Secretário Geral da Presidência no Governo Bolsonaro. Flagrado com a mão no cofre em 2012, reincidente em 2014, ele admitiu três anos depois ter recebido da JBS uma grossa soma para o caixa 2 de suas campanhas, mas pediu desculpas.  

Não sabemos se o Poder Judiciário do Paraguai vai agir como o então ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, o ‘impoluto’, que perdoou o seu colega Onyx Lorenzoni, na época ministro-chefe da Casa Civil do Governo Bolsonaro, alegando que o veterinário reconheceu seu crime, mas não devia ser julgado nem punido porque havia pedido desculpas.

Lavar o tcherembó

Lorenzoni-mente falando, Janice acha que o pedido de desculpas é suficiente para limpar toda a sujeira feita nos 23 anos em que reside no Paraguai e dessa forma lavar o que os alemães denominam de “scheide” e os guarani denominam de “tcherembó”.

A relação da família Neukamp Haverroth com seus empregados nunca foi limpa e pacífica, informa Luis Indriunas, editor do De Olho nos Ruralistas. Quando os camponeses paraguaios se revoltaram contra os latifundiários brasileiros, em 2008, durante o governo do presidente Fernando Lugo, Aldo Haverroth foi acusado pela Organização Luta pela Terra de crime ambiental na fazenda El Progreso, de propriedade sua e de Valdir Neukamp. Os sojeiros brasileiros residentes no Paraguai tiveram participação decisiva na queda de Lugo, em 2012.

No Brasil são inúmeros os casos de discriminação contra as línguas indígenas. Há alguns anos, três deputados de Mato Grosso do Sul impediram que o líder terena Paulino, convocado a depor na CPI do genocídio, relatasse em sua língua materna do tronco aruak os ataques que sua comunidade vinha sofrendo. Da mesma forma, durante o júri dos acusados de assassinar o cacique guarani Marco Veron, uma juíza federal, contrariando a Constituição, se recusou a ouvir testemunha por meio de um intérprete. A gravidade de ambos os casos reside no fato de que representantes do Estado cometem delito ao desconhecer ou fazer descaso da legislação brasileira.

Algumas conquistas recentes merecem ser celebradas. Os esforços do movimento indígena com o apoio de seus aliados no Ministério Público, levou o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a promover credenciamento de  intérpretes de várias línguas indígenas, embora a papelada exigida dificulte enormemente a operação.

Línguas intubadas

O incauto leitor que chegou até aqui pode perguntar: o que tudo isto tem a ver com a tragédia maior que estamos vivendo? O Brasil marcha de forma acelerada, sob a batuta da dupla Bolsonaro-Pazuello, para atingir as 300 mil mortes. Com a vitória de Biden e a vacinação em massa dos americanos, o Brasil ultrapassa os Estados Unidos em novos óbitos por milhão de pessoas. Agora, o América First dá lugar ao Brasil acima de tudo, ao Brazil First, pelo menos em número de óbitos, entre eles mais de mil mortos indígenas bombardeados pelo discurso negacionista sobre as ‘sequelas’ das vacinas propagado por pastores evangélicos que reproduzem o discurso do capitão:

- Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?  - declarou ele, mais preocupado em liberar armas do que em comprar vacinas.

A catástrofe sem precedentes da pandemia, a política genocida do Brasil e outros fatos da semana como a compra feita pelo Flávio Rachadinha de uma mansão em Brasília, assim como as peripécias do Poder Judiciário para não investigá-lo não tornam secundário um tema como a sujeira da sojeira?

Acontece que as línguas indígenas estão sendo intubadas. Não podemos deixar que se aproveitem da epidemia para fazer passar a boiada glotocida. Afinal, diz Bartolomeu Meliá, "a história da América é também a história de suas línguas, que temos de lamentar quando já mortas, que temos de visitar e cuidar quando doentes, que podemos celebrar com alegres cantos de vida quando faladas". E que devemos defender quando agredidas - acrescento.

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16 Comentário(s)

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Lucia Cano comentou:
13/03/2021
Muchas gracias por el artículo sobre la prohibición del uso del guaraní en una hacienda de Paraguay. Me parece que es un caso aleccionador de los complicados ajustes (¿de cuentas?) entre los avances en la sociedad y en la legislación y los sectores sociales que se sienten con poder para ignorar estos avances, más envalentonados ahora por gobiernos y autoridades que abiertamente hacen gala de estar por encima de la ley, que su palabra es la ley. Uno siente cierto alivio por la reacción ante estas posiciones, pero no sabemos qué consecuencias tiene la aplicación de la ley para el caso de esta hacendada. Se disculpó, pero su falta de respeto a la ley, al uso de las lenguas nativas, implica una falta a los derechos ciudadanos, porque impedir hablar su lengua a un ciudadano debiera ser igual que impedir votar a un elector en un proceso electoral. Que se disculpe está bien, pero debe haber una sanción o al menos una investigación más acuciosa para que se cumpla la ley, que no sea tan fácil ponerla de lado; me parece que si la población laboral es mayoritariamente guaraní (o quizás no mayoritaria) debiera ser obligatorio y sujeto a supervisión, letrar los avisos en castellano y guaraní, tener funcionarios bilingües u otras medidas que respondan al bilingüismo de la sociedad local. No conozco qué dice al respecto la ley. He aplicado el traductor al artículo y he hecho algunos retoques, pero lamentablemente el juego de palabras al inicio no me resultó. De todas maneras lo enviaré a algunos amigos. Sé que a buena parte de ellos les interesará.
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Neide Martins Siqueira comentou:
08/03/2021
Belo texto, A lingua Guarani há de sobreviver e fortalecer, apesar dos políticos ,sojeiras e outros fdp.
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Gerson Wiauirauas Kapinawa comentou:
07/03/2021
Intimaã!!!!!!!Ti pemüda yané yeëga!
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Xamã Lu comentou:
07/03/2021
Que sujeira , tá querendo voltar a colonizadores está gente sem noção, guerreiros não baixem suas cabeças pra ninguém, não deixe ninguém desvalorizar seus dialeto.
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Decio Adams comentou:
07/03/2021
A língua de um povo é mais significativa do que a bandeira ou qualquer outro símbolo nacional. É por isso que devemos respeitar as línguas das várias etnias nativas do país.
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Herbert Luiz Braga Ferreira comentou:
07/03/2021
Belíssimo texto! Uma língua que desparece é todo um mundo que se vai com ela. A diverdsidade das línguas humanas é uma imensa riqueza! Belíssimo texto! Uma língua que desaparece é todo um mundo que se vai com ela. Não ao glotocídio!
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David Galeano de Olivera comentou:
07/03/2021
Excelente artículo y un análisis crítico de la realidad.Nadie puede negar a ningún ser humano el derecho de comunicarse en su lengua materna. La lengua es sinónimo de libertad, de humanidad, de dignidad, de justicia entre los seres humanos. Negar la lengua es negar a la mismísima humanidad y al valor más preciado de todo ser humano: la libertad. Ya que el ser humano se hace y es gracias a la lengua. A través de la lengua comunicamos nuestras alegrias, tristezas, nuestros anhelos, nuestros fracasos, nuestra historia o pasado, nuestro presente y a través de la lengua expresamos nuestros proyectos para el futuro. La lengua no es poca cosa, la lengua somos nosotros y a través de ella los seres humanos evolucionamos. Sin la lengua no somos nada. Por eso, cuando se prohibe hablar la lengua, se anula, se degrada y se destruye al ser humano. Mediante las lenguas los pueblos crecen, se desarrollan y se fortalecen. Luego de la Guerra contra la Triple Alianza (1864/1870) el Paraguay quedó destruido, diezmado y dentro de tanta miseria y pobreza el Paraguay emergió de la hecatombe gracias a las mujeres que repoblaron el Paraguay hablando en idioma Guarani, el genuino y verdadero factor de cohesión social, que sirvió para animar y fortalecer al heroico pueblo paraguayo. Por eso, nadie puede prohibir a un paraguayo hablar en Guarani, porque prohibirle hablar Guarani es prohibirle ser hoy todo eso que los paraguayos hemos acumulado a lo largo de nuestra rica y orgullosa historia. La agroempresaria brasileña no sabía eso, toco el nido de avispas y la reacción fue tremenda.
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Eva Ferreira comentou:
07/03/2021
Bom dia Bessa. Você veio no meu pensamento qdo li a reportagem sobre tamanha estupidez. Abraço grande.
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Susana Grillo comentou:
07/03/2021
Bessa, precisa sua crônica, como sempre. Acompanhei esse caso pensando que , infelizmente, se tivesse acontecido no Brasil, não teríamos essa repercussão toda na defesa dos direitos linguísticos. Ainda vivemos por aqui crimes como o de proibir estudantes indígenas de usar suas línguas em escolas não indígenas. Sabemos pouco sobre a diversidade linguística no Brasil e sobre os direitos linguísticos daí decorrentes. Abraços, .
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sapo comentou:
07/03/2021
nos temos brasiguaios que falam que nao devemos de falar pq o paraguai precisa de fazendeiros brasileiros (precisamos nao, a gente precisa respeito pro pais onde mora, nao só pro pais onde nasceu) Si eles acham q é melhor nao falar guarani, eles deveram voltar pro Brasil
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Alberto Albarez comentou:
07/03/2021
Javy ju xeirun! Como está meu amigo? Este dia atrás estive na aldeia Araponga, para gravar uma campanha para os parentes guarani do município de Paraty. E o Agostinho perguntou pelo senhor. Ele está com 101 anos, firme e forte ainda trabalhando no roçado dele e dançando ainda xondaro. Tenha um bom domingo.
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Tsultrim Kelsang comentou:
07/03/2021
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Valter Xeu comentou:
07/03/2021
Publicado no blog PATRIA LATINA https://patrialatina.com.br/a-sujeira-da-sojeira-o-guarani-proibido/
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Ademário Payayá comentou:
07/03/2021
Caro amigo e Prof. Bessa, em Guarani confesso: - Che-mo-pirimba! - "Estou em calafrios".
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Ligia Aquino comentou:
07/03/2021
Muito bom. Mas é muito triste e odioso tudo isso!
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Celeste Correa comentou:
07/03/2021
Tempos difíceis...pessoas entubadas, línguas indígenas entubadas e direitos elementares entubados pela inoperância e crueldade de um poder que sufoca e mata. Quando leio sobre essa sujeira da sojeira e vejo os mais de 260 mil mortos pelo covid-19, sinto que o "oxigênio" da esperança anda realmente escasso pra resistir a tanta entubação. Mas quando eu leio o Taquiprati a minha oxigenação melhora, pois vejo aqui a resistência de uma "UTI" incansável. E enquanto há vida a esperança nunca morre!
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