CRÔNICAS

Com medo de ser infeliz? Eleição: eu não me entrego não

Em: 06 de Outubro de 2026 Visualizações: 621
Com medo de ser infeliz? Eleição: eu não me entrego não

"Se entrega, Corisco! - Eu não me entrego, não!  Não me entrego a tenente,

não me entrego a capitão! Eu me entrego só na morte de parabelo na mão!"

(Glauber Rocha, 1964, ano do golpe empresarial-militar)

O resultado do primeiro turno me deixou duas noites seguidas com insônia. Com medo de ser infeliz. Não fui o único. Lembrei de dona Maria Alberta, que compartilhava residência com 70 idosos num asilo em Portugal e era atacada de madrugada por um vulto com foice de cabo comprido, corpo peludo e disforme. Era a NOITE, personagem do romance “Misericórdia” de Lídia Jorge (Prêmio Camões 2026), que sentava na beira da cama, fixava seu olhar sem olhos nos olhos de dona Alberta e a atormentava com a pergunta, cuja resposta ela sabia desde criança, mas não conseguia mais lembrar:  

- Baku é a capital de qual país?

O monstro noturno insistia repetidas vezes, impedindo que dona Alberta, dormisse. Ela se angustiava com a pergunta martelando sem cessar em sua cabeça. Recordava que Baku era capital de um país rodeado pelo mar Cáspio e pelas montanhas do Cáucaso, lembrava detalhes da sua história e da sua economia, que produzia petróleo e gás natural, trigo, cevada e batatas, mas inexplicavelmente o nome não lhe vinha à mente. Revirava na cama cutucada impiedosamente pela NOITE.

Cada um tem a Baku que merece. Pois não é que a Monstra pulou das páginas da “Misericórdia” para minha cama e me atormentou dois dias seguidos com perguntas insistentes:

- Por que a extrema direita conseguiu eleger 25 senadores pelo PL (vixe, vixe)? Como Marina Silva, Simone Tebet e Benedita da Silva perderam para quatro biltres? Como é que o Rachadinha obteve mais votos que o Lula?

E para piorar a situação, a NOITE chamou Rita Lee, que saltitou na minha cama, gesticulou na escuridão, fez caretas e cantou “Arrombou a Festa” perguntando:

- Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira?

Eu não sabia responder. Lula teve apoio da fina flor da intelectualidade: cantores, artistas, atores de teatro e de telenovela, cineastas, juristas, intelectuais de renome internacional, produtores culturais, economistas, jornalistas, influenciadores, professores de universidades, estudantes, publicitários, sindicalistas, gente respeitada e querida pela população, mas nada disso convenceu a maioria dos eleitores. Afinal, o que aconteceu com tantas celebridades, que fizeram postagens em favor de Lula sem convencer a maioria dos eleitores? Ficamos apenas dentro da nossa bolha? 

Rumo da minha vida

A NOITE cruel inibiu meu sono, marretando sem parar, com obsessão. Deixou-me exausto, com os olhos ardendo. Ao amanhecer, recolheu seus braços com o papo peludo e seu roupão de penas pretas e desapareceu derretida pelo sol. Durante o dia inteiro, mastiguei as perguntas obsessivamente, quando surgiu a pista de resposta graças à máquina de lavar roupa de casa, que parou de centrifugar. O técnico Zeca Aleluia-Aleluia (com esse nome aparece nas redes sociais), examinou o tambor que deixou de girar e marcou voltar na sexta-feira, 11 de outubro. Justificou porque eu teria que esperar:

- Tenho que fazer tudo sozinho. É difícil encontrar um ajudante, os vagabundos recebem a tal bolsa-família e não querem mais trabalhar. Não querem nem pagar o dízimo para a nossa Igreja.

Fiquei olhando para a máquina parada. Achei que havia alguma coisa familiar naquela cena: quando o tambor não gira, a roupa não sai do lugar; quando a política trava, a gente também fica rodando em falso, esperando alguém descobrir onde está o defeito.

Zeca Aleluia-Aleluia foi embora prometendo voltar. Eu fiquei com a máquina parada, a roupa molhada e mais uma pergunta na cabeça: e se o problema não estiver no tambor, mas em quem escolhe a direção da máquina?

Foi aí que pensei em Igrejas como a Universal do Reino de Deus (IURD), propriedade de Edir Macedo, transformada em partido político, que comercializa a imagem de Cristo. Brizola já havia cantado a pedra há mais de 20 anos: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente e matarão em nome de Deus”.

Aí está uma das chaves para responder à Monstra Noturna sobre o resultado das urnas. No domingo da eleição, uma amiga minha passou diante de um templo em Copacabana, de onde saíam fiéis exibindo a “colinha” dos candidatos em quem deviam votar. Uma ovelha desgarrada rasgou o papel, reclamando que o pastor não era dono de seu voto. Mas foi uma exceção.

De qualquer forma, fiquei com munição para a segunda noite, pensando na versão brasileira do bolerão mexicano “Aquece-me esta noite” gravado por Dalva de Oliveira, tocada na Rádio Baré de Manaus na década de 1960:

Eu sei que nesta noite / de ânsia incontida /

será traçado o rumo / de toda a minha vida.  

Bastou apagar a luz, que o personagem das trevas atravessou a parede, rodopiou para dentro do quarto e, de pé, ao lado da cama, atacou outra vez:

- Você leu o editorial Flávio e a sombra dos milicianos do insuspeito Estadão? Lá está escrito com todas as letras que Flávio Rachadinha tem conexões históricas com milicianos e é um perigo para a democracia. Então como é que um mequetrefe autor de tantas falcatruas, que tomou dinheiro da Previdência Social roubado pelo Vorcaro, que é lambe-botas do poder estadunidense, que se preocupa apenas com os interesses de sua família, pôde passar a perna num estadista reconhecido internacionalmente, defensor de nossa soberania, com programas sociais em benefício da população?  

Resposta do travesseiro

A pergunta me angustiava e uma vez mais ouvi a voz de Dalva de Oliveira, cujo conselho segui:

“Pergunta ao travesseiro / Lá fora o que te espera /

Uma noite perdida / Nunca se recupera”.

O travesseiro considerou que a ação das igrejas-partido político era um fato, mas que debaixo daquele angu tinha mais caroço. Recomendou que eu só conseguiria dormir se lesse o Brasil de Fato. Levantei de madrugada, abri o computador e li o artigo de Leonardo Fernandes, que compara a eleição presidencial na Colômbia, em junho deste ano, com a nossa, afirmando que qualquer semelhança não é mera coincidência. Contra todas as pesquisas, o candidato Abelardo Espriella, de extrema direita, recebeu 43% dos votos contra 40% do esquerdista Iván Cepeda. No segundo turno, o Rachadinha de lá ficou com 49.66% e seu adversário com 48,70%.

Empurrei goela abaixo da NOITE o artigo, que pode explicar o resultado do primeiro turno no Brasil, ao comprovar a interferência eleitoral dos Estados Unidos, que articularam e manipularam as redes digitais, robôs, dados vazados, uso intensivo de inteligência artificial, como explicou a analista digital colombiana Susan Pérez, autora de análise forense sobre a campanha de desinformação. Ela documentou a criação de plataformas com repórteres gerados por IA, que direcionavam a opinião pública sem revelar o financiador responsável.

Uma investigação jornalística revelou a existência do Projeto Júpiter – rede secreta de manipulação montada para interferir no processo eleitoral da Colômbia. Susan analisou o papel de colombianos no exterior nessa rede de desinformação, o que nos remete, no caso do Brasil, ao empresário Paulo Figueiredo, neto do último general ditador, a Allan dos Santos e Alexandre Ramagem, o golpista ex-diretor da ABIN e ao execrável Eduardo Bananinha, suspeito de viver com a grana do Vorcaro enviada por seu irmão Rachadinha.

- Apenas uma página colombiana publicou mais de 1.100 vídeos e fictícias  entrevistas de ruas com 380 milhões de visualizações. Por meio do cruzamento de dados em redes sociais, os anúncios são direcionados a perfis de eleitores específicos, impedindo a ação dos órgãos fiscalizadores. No Brasil, essa conta deve ter sido maior.

O artigo cita The New York Times e The Guardian sobre as redes abertas e o uso de contas automatizadas, apontando que o fator mais decisivo na difusão de conteúdos falsos e atentatórios à democracia ocorreu no ambiente privado de aplicativos de mensagens, como grupos de WhatsApp familiares ou de trabalho, em que a criptografia impede a auditoria.

Exército do Lula

O presidente Petro alertou Lula sobre a dimensão digital do esquema: “Cuidado com os algoritmos” e com a máquina de fake News e seus ecossistemas desinformativos altamente sofisticados de intervenção simultânea em vários níveis. 

Avisei pra NOITE importuna que me alistei como soldado no Exército digital do Lula comandado por André Janones. A trincheira é um canal no Zapp voltado para a militância progressista neste segundo turno. E gritei em alto e bom som a frase de Othon Bastos, com 92 anos de idade, retirada do filme de Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol, que dá o título ao seu monólogo de duas horas:

- Não me entrego, não.

Já alvorecendo, dei um chega pra lá na NOITE e botei a Monstra pra correr. Ela escafedeu-se e só então pude dormir tranquilo, porque agora eu sei que Baku é a capital do Azerbaijão e que eu não me entrego não, seguindo o exemplo do Corisco.  Mas a história ainda não terminou. Sonhei com Ademir, o advogado vigarista protagonizado por Dan Stulbach em Quem Ama Cuida, que cortava o cabelo com o barbeiro Guilherme Boulos, sob o olhar atento de Pilar (Isabel Teixeira):

- Em quem você vai votar, Ademir?

- No Flávio Rachadinha, que chamou o meu cliente Daniel Vorcaro de irmão.

Boulos, contrário a qualquer tipo de violência, pegou a navalha para fazer o acabamento e limpar os pelos indesejados da nuca e inocentemente perguntou outra vez:

- Não ouvi direito. Em quem?

- No Lula, respondeu Ademir, se borrando de medo com a navalha na sua nuca.

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11 Comentário(s)

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Neilde Martins Siqueira comentou:
07/10/2026
Adorei ! Canto sempre essa música do Sérgio Ricardo: eu não me entrego não.
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Elaine Meneghini comentou:
07/10/2026
Era tudo o que eu precisava ler
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Ivo Barbieri comentou:
07/10/2026
Meu amigo, ninguém nos impede de pensar e agir, vamos resistir.
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Eduardo Parga comentou:
07/10/2026
Também estou angustiado... mas no dia 25 de outubro ainda é 13!
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Luciana de Oliveira comentou:
07/10/2026
Meu grupo de pesquisa se chama Corisco. E eu não me entrego não !!
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Manu Rebollo comentou:
07/10/2026
Se a gente cair, eu caio esperneando
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Mário Adolpho comentou:
07/10/2026
O “fenômeno” Flávio Rachadinha baço tem outra explicação:compra de votos
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Renan de Cuiabá comentou:
07/10/2026
Tá tensooooo Mas vamos seguir na luta
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Ana Jacob comentou:
07/10/2026
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Leandro Guedes comentou:
07/10/2026
Tá dificil, mestre, tá dificil
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André Ramos comentou:
07/10/2026
Ótima crônica, abre para pensarmos como é preciso avançarmos, e que a percepção que temos ainda se distancia da realidade de boa parte da população. Muitíssimo obrigado pelas ótimas crônicas que envia. Fico feliz sempre em recebê-las, e saber que temos pessoas maravilhosas como você nesse Brasil
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