Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Ideologia, eu quero uma pra viver.” (Cazuza e Frejat. 1988)
Caboco, passou a eleição e chegou aquela hora meio ingrata em que a gente precisa parar de comemorar, lamentar ou reclamar e começar a olhar para os números. Número não tem torcida, embora a gente saiba que, dependendo de quem olha, até estatística pode acabar puxando para um lado ou para outro. Como tenho mania de desconfiar das primeiras impressões e, talvez por deformação profissional, gosto de deixar os números falarem antes de tirar conclusões, fiquei olhando para o resultado de Manaus e tentando entender uma coisa que me parece mais importante do que saber simplesmente quem ganhou ou quem perdeu.
A pergunta é: onde está a esquerda de Manaus quando o eleitor precisa distribuir seus votos entre os diferentes cargos? Porque uma coisa é dizer que a esquerda tem eleitor. Outra, bem diferente, é saber se esses eleitores se reconhecem como parte de um mesmo campo político quando chegam diante da urna. E foi aí que a frase de Cazuza começou a me perseguir: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Talvez, depois desta eleição, a esquerda brasileira esteja precisando de uma outra: ideologia, eu quero uma pra votar.
Os números
Comecemos pelo que aconteceu em Manaus. Na eleição presidencial, o eleitor manauara não repetiu exatamente o comportamento observado no conjunto do Amazonas. Enquanto Lula terminou o primeiro turno à frente de Flávio Bolsonaro (PL) no estado, em Manaus Flávio ficou na frente, com 641.587 votos, contra 438.668 de Lula (PT).
É um resultado que merece ser olhado com atenção porque Manaus não é apenas a maior cidade do Amazonas; é também o lugar onde se concentra uma parcela enorme do eleitorado e onde se encontram, de maneira mais visível, as contradições políticas, econômicas e sociais do estado. Mas não quero transformar esta crônica em mais uma discussão sobre a disputa presidencial. O que me interessa é outra coisa: perceber como o eleitor que eventualmente se identifica com a esquerda se comporta quando a urna oferece diferentes possibilidades de escolha. E aqui entram os votos nominais, que considero mais reveladores do que percentuais quando a pergunta é justamente saber quantos votos cada candidatura de esquerda consegue efetivamente produzir.
No caso do Senado, os números de Manaus chamam atenção. Os candidatos que podemos situar no campo da esquerda somaram 172.340 votos nominais, dos quais 168.229 foram para a professora Evany (PSOL). Há uma observação importante: como nesta eleição o eleitor podia votar em dois candidatos para o Senado, esses 172.340 votos não significam necessariamente 172.340 pessoas diferentes. Um mesmo eleitor poderia ter contribuído com dois votos. Ainda assim, o número é politicamente significativo porque mostra a capacidade de uma candidatura de esquerda de mobilizar uma quantidade expressiva de votos nominais em Manaus.
E é justamente aí que começa a minha inquietação. Se existe, na cidade, uma massa eleitoral capaz de produzir mais de 172 mil votos nominais para candidaturas de esquerda ao Senado, seria razoável imaginar que uma parcela significativa desse mesmo eleitorado pudesse aparecer, em números semelhantes, nas demais disputas proporcionais, em vez dos 77.867 votos para deputados federais de esquerda e dos 93.722 votos para deputados estaduais. Não necessariamente o mesmo candidato, evidentemente, mas uma quantidade de votos que revelasse alguma continuidade, alguma fidelidade, alguma espécie de identidade política atravessando os diferentes cargos.
Não estou dizendo que o eleitor seja obrigado a votar em candidatos do mesmo partido para todos os cargos. Nem que uma pessoa que vota em Lula tenha de votar automaticamente em um senador, deputado estadual ou deputado federal de esquerda. A democracia não funciona assim, e ainda bem. O eleitor pode perfeitamente fazer suas escolhas de maneira diferente. Como a minha tia Dile, que votou em João Tayah (PT) para deputado estadual e em Eduardo Braga (MDB) para senador.
Ela, e qualquer outra pessoa, pode gostar de um candidato, rejeitar outro, considerar determinado nome mais preparado, escolher pela história pessoal, pela relação com a cidade ou até por razões absolutamente particulares. O voto não vem acompanhado de contrato de fidelidade partidária. O que me interessa é justamente a diferença entre a liberdade individual de escolher e a existência, ou não, de um comportamento coletivo que possa ser reconhecido como identidade política.
O desencontro
É aqui que aparece o desencontro. Se a esquerda consegue reunir 172.340 votos nominais para o Senado em Manaus, mas não consegue reproduzir uma quantidade semelhante de votos nominais quando seus candidatos disputam outros cargos, alguma coisa precisa ser explicada. Pode ser a força individual de uma candidatura específica. Pode ser a diferença entre as campanhas. Pode ser a estrutura partidária. Pode ser a falta de recursos. Pode ser a dificuldade de comunicação. Pode ser, inclusive, a própria característica do voto proporcional, em que o eleitor escolhe pessoas e não apenas ideias. Tudo isso precisa ser considerado.
Mas existe também uma hipótese política que me parece mais incômoda: talvez a esquerda tenha eleitores, mas não esteja conseguindo transformar esses eleitores em um campo político reconhecível e coerente. E aqui faço uma distinção que considero importante. Não estou dizendo que os números provam que “a esquerda não tem ideologia”. Número eleitoral não mede ideologia diretamente. Não existe uma coluna na apuração do Tribunal Regional Eleitoral chamada “voto ideológico”. O que os números podem fazer é revelar comportamentos, aproximações e distâncias. E, quando esses comportamentos se repetem, eles podem levantar hipóteses sobre o que está acontecendo politicamente.
No caso de Manaus, a hipótese que me interessa é justamente essa: se há uma quantidade expressiva de votos de esquerda em determinada disputa, por que esses votos não caminham juntos para outras disputas? Onde eles se perdem? Em que momento o eleitor deixa de enxergar os candidatos como parte de um mesmo projeto? E, principalmente, o que faz com que uma pessoa reconheça uma candidatura como sendo de esquerda em uma eleição e, em outra, não reconheça nenhum nome como representante de suas próprias ideias?
Talvez uma parte da resposta esteja na própria maneira como a esquerda tem se apresentado ao eleitor. A direita, com todas as suas contradições e diferenças internas, conseguiu construir nos últimos anos uma narrativa política muito mais facilmente reconhecível. Segurança, família, liberdade, propriedade, autoridade, religião, antipetismo e anticomunismo aparecem como elementos capazes de ligar candidatos diferentes. Um eleitor pode não conhecer profundamente um candidato, mas muitas vezes sabe identificar rapidamente o campo político em que ele pretende se colocar. A identidade vem antes do currículo. Vem antes da proposta. Vem até antes do nome.
Na esquerda, essa identificação parece mais difícil. Há candidatos que evitam a palavra “esquerda”, partidos que apresentam suas diferenças entre si, discursos que se concentram em problemas específicos e uma certa dificuldade de dizer claramente qual é o projeto de sociedade que existe por trás daquela candidatura. O resultado pode ser uma esquerda com vários candidatos, mas sem necessariamente produzir um eleitorado que reconheça esses candidatos como partes de uma mesma história.
O nome da esquerda
Foi pensando nisso que voltei ao livro A esquerda que não teme dizer seu nome, de Vladimir Safatle, nascido no Chile três meses antes do golpe de Pinochet e hoje professor de Teoria das Ciências Humanas da USP. Filho do exilado Fernando Safatle, militante da ALN, ele já sofreu a repressão como bebê. O título, por si só, já parece uma provocação adequada para o momento. Safatle parte de uma questão que continua bastante atual: o que significa ser de esquerda quando a própria esquerda passa a ter dificuldade de afirmar, sem medo ou constrangimento, aquilo que historicamente a diferenciou?
Para ele, a esquerda não deveria abandonar ideias como igualdade radical e soberania popular em nome de uma política que se limite a administrar, com pequenas correções, as crises produzidas pelo próprio sistema. A questão não é simplesmente ser mais ou menos progressista, nem escolher entre um candidato mais moderado ou outro mais radical. A questão é saber se ainda existe uma ideia de transformação social capaz de dar sentido à palavra “esquerda”.
Talvez seja justamente aí que esteja uma parte do problema eleitoral. Durante muito tempo, a esquerda conseguiu ser reconhecida não apenas pelos seus candidatos, mas pelas ideias que esses candidatos representavam. Havia uma identidade política mais facilmente compreendida: trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais, defesa dos serviços públicos, redução das desigualdades, direitos sociais, participação popular, distribuição de renda. Evidentemente, isso nunca foi homogêneo. A esquerda sempre foi plural, cheia de divergências, disputas e contradições. Mas havia alguma coisa que permitia ao eleitor dizer: “eu sou desse lado”.
Hoje, em muitos momentos, parece que a esquerda passou a ter receio de pronunciar o próprio nome. Fala-se em democracia, inclusão, sustentabilidade, desenvolvimento, direitos e políticas públicas — tudo isso é importante, evidentemente —, mas às vezes falta responder à pergunta mais simples: que sociedade queremos construir e que interesses estamos dispostos a enfrentar para construí-la?
A direita, por sua vez, já teve, mas agora não parece ter o mesmo constrangimento em relação à identidade. Seus discursos podem ser diferentes, seus partidos podem disputar espaço entre si e seus candidatos podem ter interesses particulares bastante distintos, mas existe uma linguagem comum que o eleitor reconhece. A política passa a funcionar também como pertencimento. E pertencimento é uma força eleitoral poderosa. Não basta convencer alguém de que determinado candidato é competente; é preciso fazer com que o eleitor reconheça naquele candidato alguma coisa de si, dos seus valores e das suas expectativas. Quando isso acontece, o voto pode deixar de ser apenas uma escolha entre nomes e passar a ser uma escolha de campo.
É claro que não podemos romantizar isso. Identidade política forte também pode produzir intolerância, fanatismo e incapacidade de diálogo. A própria experiência recente do Brasil mostra o perigo de transformar política em guerra permanente entre grupos que já não conseguem reconhecer legitimidade no adversário. Mas a solução para esse problema não pode ser uma política sem identidade, em que todos os discursos se tornam tão cuidadosos e tão genéricos que ninguém sabe mais exatamente o que cada candidato está defendendo. Uma democracia precisa de pluralidade, mas pluralidade pressupõe diferenças reconhecíveis. Se todos falam quase a mesma língua, o eleitor pode até escolher, mas terá dificuldade para saber o que está escolhendo.
A esquerda não acabou
Mas também seria um erro olhar para o resultado da eleição e concluir que a esquerda simplesmente desapareceu. Uma derrota eleitoral não apaga uma história política, não elimina valores e não faz desaparecer pessoas, movimentos, partidos, sindicatos, universidades, artistas, professores, movimentos sociais e tantos outros espaços em que ideias de esquerda continuam presentes. A urna pode mudar a composição do poder, mas não consegue, sozinha, determinar o que uma sociedade pensa, deseja ou está disposta a defender. A esquerda não acabou porque perdeu votos ou mandatos. E talvez seja justamente por não ter acabado que precise olhar com mais coragem para os próprios problemas.
A direita cresceu, sim. Mas a esquerda também se renovou. Há novas vozes, novas gerações e pessoas chegando aos espaços institucionais com disposição para falar, questionar, incomodar e disputar ideias. Ana Elisa (PT-MG), com apenas 21 anos; Guilherme Cortez (PSOL-SP); Jones Manoel (PSOL-PE); Renato Freitas (PT-PR) e especialmente Erika Hilton (PSOL-SP), a deputada federal mais votada da história do Brasil, com mais de 1,4 milhões de votos. São exemplos de uma geração que começa a ocupar espaços políticos e parlamentares trazendo outras experiências, outras linguagens e outras formas de fazer política. Não é preciso idealizá-los, nem imaginar que uma nova geração, apenas por ser nova, terá respostas para os velhos problemas. Mas a presença desses nomes mostra que existe futuro político para a esquerda — e que esse futuro ainda está em disputa.
Talvez seja esse o ponto em que a tristeza pela derrota eleitoral precise encontrar alguma coisa diferente do consolo. Não basta dizer que “vai passar”, nem fingir que uma mudança importante na correlação de forças não tem consequências. Tem. Há motivos reais para preocupação quando determinadas ideias e projetos ganham espaço e outros perdem representação. Mas também não parece razoável transformar uma eleição em sentença definitiva sobre o futuro. Instituições resistem. Pessoas resistem. Universidades resistem. Professores resistem. Artistas resistem. Movimentos sociais resistem. Famílias resistem. E, sobretudo, ideias resistem. O problema é que resistir não pode ser o ponto final da política. Resistir é preservar a possibilidade de fazer política novamente.
E talvez aqui esteja a diferença entre simplesmente sobreviver e reconstruir uma força política. Se a esquerda quiser apenas continuar existindo, poderá se contentar com a resistência, com seus espaços tradicionais, com seus militantes e com seus votos fiéis. Mas, se quiser voltar a disputar a sociedade para além de seus próprios círculos, precisará fazer perguntas desconfortáveis. Precisará rever erros, mudar estratégias, ouvir quem pensa diferente e descobrir novas maneiras de conversar com quem não se reconhece mais em suas antigas formas de fazer política. Isso não significa abandonar princípios. Significa descobrir como fazer com que esses princípios sejam novamente compreendidos por pessoas que talvez não estejam mais dispostas a recebê-los da maneira como eram apresentados no passado.
Uma ideologia para votar
É por isso que a frase de Cazuza volta ao final desta conversa. “Ideologia, eu quero uma pra viver.” A canção falava de uma geração que procurava referências, certezas e sentidos num mundo em transformação. Mas, olhando para esta eleição, talvez seja possível fazer uma pequena mudança na frase: “Ideologia, eu quero uma pra votar.” Não no sentido de exigir que o eleitor abandone sua liberdade de escolha ou passe a votar mecanicamente em qualquer candidato que se declare de esquerda. Muito pelo contrário. Uma ideologia política deveria servir justamente para permitir uma escolha mais consciente. O eleitor pode discordar do candidato, pode trocar de partido, pode rejeitar uma proposta. Mas precisa ter condições de saber quais valores estão em disputa e que projeto de sociedade cada candidatura representa.
Em uma conversa de bar com meu amigo Douglas Pôrto, enfermeiro da atenção básica que tem um olhar especial para a estratégia saúde da família, ouvi dele um belíssimo argumento defendendo que uma ideologia política deveria servir justamente para permitir uma escolha mais consciente. Não sei se por causa da eloquência ou do teor de álcool já ingerido, quase deixei escapar umas lágrimas de emoção. Mas a frase ficou comigo porque ela ajuda a voltar ao ponto de partida: talvez o problema não seja a esquerda ter deixado de existir, mas ter perdido parte da capacidade de fazer com que seus próprios eleitores reconheçam uma ideia comum por trás de candidatos diferentes.
Os números de Manaus não encerram essa discussão. Eles apenas abrem a porta. Os 172.340 votos nominais da esquerda para o Senado mostram que existe um eleitorado capaz de produzir uma votação expressiva. Os 168.229 votos de Evany mostram também como uma candidatura específica pode concentrar praticamente todo esse desempenho. O que falta compreender é o que acontece depois.
Se parte desse eleitorado escolhe candidatos diferentes nas disputas proporcionais, precisamos perguntar: Por que? Se esses votos se dispersam, precisamos saber se a dispersão é resultado da estratégia individual dos eleitores, da fraqueza das candidaturas, da fragmentação partidária ou de algo mais profundo: a dificuldade de a esquerda apresentar uma identidade capaz de atravessar a urna inteira. Essa é uma investigação que pode — e talvez deva — ser feita com os números, candidato por candidato, cargo por cargo, sem recorrer a percentuais que muitas vezes escondem justamente aquilo que queremos enxergar.
Porque talvez a grande questão não seja descobrir se a esquerda tem votos. Ela tem. A questão é saber se esses votos se reconhecem. Um eleitor pode votar em Lula para presidente, em Evany para o Senado e, na hora de escolher um deputado estadual, procurar outro nome que não necessariamente se identifica com esse mesmo campo. Isso não é crime, não é erro e não precisa ser corrigido por ninguém. É uma escolha legítima. Mas, quando esse comportamento se repete em grande escala, ele passa a ser um fenômeno político que merece ser estudado. Afinal, uma coisa é ter votos espalhados pela sociedade; outra é conseguir transformar esses votos em força política organizada, capaz de disputar projetos, governos e futuros.
Caboco, talvez a esquerda esteja fazendo a pergunta errada quando tenta descobrir apenas quantos votos tem. A pergunta mais difícil talvez seja outra: o que faz um eleitor reconhecer que esses votos pertencem ao mesmo lado? Safatle nos lembra da necessidade de a esquerda não ter medo de dizer seu próprio nome. Cazuza, décadas antes, já havia colocado a palavra ideologia no centro da inquietação de uma geração. E a urna de Manaus, com seus números, parece acrescentar uma provocação mais prosaica, mas não menos importante: se existe voto de esquerda, por que esses votos não caminham juntos?
Talvez seja essa a conta que a esquerda precise fazer depois desta eleição. Não apenas quantos votos perdeu, quantos ganhou ou quantos mandatos deixou de conquistar. Mas que ideia conseguiu colocar dentro da cabeça — e do coração — de quem foi votar. Porque candidato pode aparecer a cada quatro anos. Partido pode mudar de nome. Coligação pode desaparecer. O eleitor pode até trocar de candidato. Mas, se houver uma ideia forte o bastante para sobreviver a tudo isso, o voto deixa de ser apenas um número na apuração e passa a ser expressão de uma escolha política.
A esquerda não acabou. Talvez o problema seja outro: ela ainda não descobriu completamente como fazer com que os seus próprios votos se reconheçam.
E, enquanto procura essa resposta, talvez Cazuza continue oferecendo a melhor pergunta:
Ideologia, eu quero uma pra votar.