CRÔNICAS

A universidade: entre o jaleco e o mural

Em: 04 de Maio de 2026 Visualizações: 36
A universidade: entre o jaleco e o mural

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” (Paulo Freire)

 

Uma hora de trânsito em Manaus não é só deslocamento. É entrar em uma máquina do tempo.

Na última quinta-feira, saí de casa às 18h, rumo à UFAM, para a colação de grau da 103ª turma de Medicina. No papel, era só mais uma cerimônia. Na prática, era o capítulo final de uma história que começou muito antes de qualquer estetoscópio.

E não foi qualquer história. A turma 103 entrou em 2019 e, quando ainda aprendia os primeiros passos, já estava diante da maior crise sanitária do século. Aprender medicina, para eles, nunca foi só teoria. Foi assistir, ainda na formação, o mundo parar. Foi ver o sistema de saúde no limite. Foi entender, cedo demais, o tamanho da responsabilidade que escolheram carregar.

No meio do engarrafamento, entre uma freada e outra, veio-me à cabeça uma cena antiga: no aeroporto de Manaus, a jovem Milena Campelo — hoje doutora e professora de Química da Universidade do Estado do Amazonas — desfilando com uma criança de meses de vida no colo, como se fosse dona do mundo. E era, mesmo sem imaginar o tipo de vida que a esperava do outro lado daquele embarque.

Pouco tempo depois, eu também faria aquele mesmo caminho, cada um à sua maneira. Recordo que Max Sousa — hoje doutor e professor do Departamento de Estatística da UFAM — e eu havíamos ido ao Rio de Janeiro para estudar, encarar um mestrado em Estatística e tudo o que vinha junto com ele. No caso de Max, havia algo a mais: não era só sobre estudo. Era sobre futuro, sobre dar àquela menina um caminho mais amplo e mais tranquilo do que o que ele havia encontrado.

Milena partira em direção a um sonho. Não o sonho pronto, de cartão-postal, mas aquele outro, mais teimoso, que começa bonito e depois cobra seu preço. O Rio não foi cenário de filme. Foi rotina pesada, aperto, responsabilidade chegando cedo demais. Foi aprender a viver olhando mais para dentro de casa do que para o horizonte. E, ainda assim, seguir.

E, no meio disso tudo, crescia Gabi, fruto do amor de um jovem casal.

Mas, de volta à realidade, ali estava eu, chegando na UFAM, procurando lugar, ajeitando a roupa, tentando entender como o tempo teve coragem de passar tão rápido.

E então ela apareceu.

Não mais a criança de colo, nem a pequena turista de Niterói. Agora, de jaleco, postura firme, nome sendo chamado com solenidade: Gabriela Campelo Lima, médica.

Milena, que um dia teve medo de subir no bondinho do Pão de Açúcar, agora subia ao palco do auditório Eulálio Chaves como paraninfa para entregar o canudo à filha — alcançando, ali, alturas bem maiores. Não porque o caminho foi fácil, mas porque nunca faltou empurrão quando a vida exigiu. O brilho nos olhos era o mesmo de tantas outras vezes. Talvez mais calmo. Talvez mais consciente do preço que foi pago.

Max, que um dia atravessou o tempo entre casa e universidade, equilibrando estudo, trabalho e família, agora assistia ao resultado do próprio plano dar certo. Sem alarde, quieto, do jeito dele.

Ali, naquele palco, não tinha milagre. Tinha tempo. Tinha esforço. Tinha escolha difícil feita lá atrás. Mas a UFAM não é feita só de palco.

Ideias não rasgam

Dois dias antes — ou talvez no mesmo tempo, porque hoje tudo acontece ao mesmo tempo — uns cartazes foram rasgados por lá.

Cartaz, caboco, é bicho frágil. Nasce de pressa, cola com fita vagabunda, descola com o primeiro calorão das duas da tarde. Mas, ainda assim, resiste. Porque cartaz não é só papel — é recado. E recado, quando incomoda, parece pesar mais que saca de ouriço de castanha.

Dizem que os meninos foram lá combater “ideologia”.

Eu fico pensando: ideologia é igual carapanã em Manaus — tu podes até espantar uma, mas sempre tem outra zumbindo no ouvido. E, no fim das contas, todo mundo acha que a do outro é que incomoda mais.

Aí o sujeito entra num lugar cheio de ideias — porque universidade é isso mesmo, uma feira livre de pensamento — e resolve fazer o quê? Impor o silêncio na marra.

Isso é curioso.

Porque, no fim, é justamente essa “ideologia” — a da ciência, do pensamento crítico e da formação séria — que constrói profissionais capazes de atravessar crises reais. Foi dentro das universidades públicas que se formaram muitos dos profissionais que estiveram na linha de frente durante a pandemia de COVID-19. Foi dentro da Universidade que nasceu o SUS.

Enquanto representantes de uma determinada ideologia buscavam soluções improvisadas, comprando respiradores em vinícolas, defendendo o uso de cloroquina e apostando numa suposta imunização de rebanho, escolhas que contribuíram para a perda de mais de 700 mil vidas no país, eram justamente os profissionais formados nesse ambiente hoje atacado que estavam nos hospitais, nos laboratórios, nas unidades básicas de saúde, sustentando o combate real à doença.

Mesmo em um período marcado por descaso na condução da crise, foram esses homens e mulheres, moldados nesse mesmo espaço tantas vezes criticado, que seguraram o peso quando o país mais precisou.

Talvez o problema nunca tenha sido a existência de ideias. Mas o medo delas.

Porque quem não gosta de barulho de opinião costuma fazer barulho maior ainda para calar os outros.

E a molecada filmou tudo. Claro que filmou. Hoje em dia ninguém rasga nada sem antes apertar o “rec”. Não basta fazer — tem que performar. É o novo teatro da convicção: primeiro o ato, depois o story, reels, shorts.

Enquanto isso, do outro lado, os cartazes voltam. Sempre voltam. Com fita nova, letra mais grossa, às vezes até mais raiva na ponta da caneta.

Porque ideia, diferente de papel, não rasga fácil.

No fim, ficou aquela cena bem nossa: um grupo achando que limpou o muro, outro grupo colando tudo de novo — e o muro ali, quieto, aguentando tudo, como sempre.

A vida segue. As Universidades públicas seguem. Com calor, com opinião, com gente que fala demais e gente que escuta de menos.

A resposta

Engraçado como a vida funciona.

Às vezes, o sonho não acontece do jeito que a gente imagina. Ele vem disfarçado de rotina dura, de escolha difícil, de renúncia silenciosa. Mas, lá na frente, ele aparece — de jaleco branco, diploma na mão e nome completo sendo anunciado.

Naquele trânsito de uma hora, eu achei que estava apenas indo para uma cerimônia. Mas não. Eu estava indo assistir ao desfecho de uma história feita mais de persistência do que de sorte.

Uma história que tem a UFAM como pano de fundo — uma universidade pública que, entre calor, dificuldades e resistência, segue formando gente preparada para o mundo real. Gente que aprende ciência, mas também aprende compromisso. Que sai dali não só com técnica, mas com uma forma de enxergar o outro — e isso, sim, é uma ideologia que vale a pena. Sai com juramentos e um código de ética a cumprir.

E Gabi é fruto disso.

Não só do esforço de casa, não só das escolhas feitas lá atrás, mas também dessa formação sólida, crítica, humana. Uma médica que não nasce pronta no diploma, mas que já carrega, desde agora, o essencial: responsabilidade, sensibilidade e coragem.

Uma médica que, com toda certeza, vai fazer diferença.

Porque Manaus precisa disso. Precisa de profissionais que entendam a cidade para além do consultório. Que saibam que, por trás de cada paciente, existe uma história — muitas vezes parecida com a dela.

Uma história que começou com uma pergunta simples há 26 anos:

— Milena está grávida, ainda estou estudando e desempregado, e agora?

Hoje, a resposta está ali, completa: Max é o pai da médica. Milena é a mãe da médica. E Gabi… agora é doutora.

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