CRÔNICAS

Sobre a difícil arte da paternidade

Em: 20 de Abril de 2026 Visualizações: 233
Sobre a difícil arte da paternidade

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

" Quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, este fica preso para sempre".

Gabriel García Márquez. Portal OExtra. Dia dos Pais. 2014

A frase de Gabriel García Márquez citada no Portal OExtra ("Quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, este fica preso para sempre") foi publicada no site em agosto de 2014, na semana em que se celebrava o Dia dos Pais. 

Caboco, vou te dizer: cuidar, educar e reeducar não é pra qualquer um, não. Aqui em casa tem dois que estão me testando diariamente, como se fosse um experimento científico de resistência emocional.

Sou pai há 16 anos. Achei que esses anos de experiência ajudariam.

Um deles tem uma teimosia que, olha… se fosse energia, já tinha resolvido o problema de apagão em Manaus. Quando encasqueta com uma coisa, pode cair o mundo que não muda de ideia. O outro já é mais silencioso, mas compensa na arte de fazer arte: se descuidar, a casa fica de cabeça para baixo e imunda.

E tem a questão da tecnologia. Rapaz, é uma luta diária. Eu explico, mostro, desenho, faço tutorial ao vivo… explico de novo, mostro de novo, desenho de novo… mas parece que os eletrônicos, pra eles, são uma entidade mística. Às vezes tenho a impressão de que estão esperando o aparelho responder por telepatia.

Tem também a alimentação. Um dia gostam de uma coisa, no outro torcem o nariz como se eu tivesse servido veneno. E não adianta argumentar, explicar, negociar. A resposta vem pronta, com aquela segurança de quem tem razão desde o nascimento:

— Não quero.

E os horários, então? Num dia dormem cedo demais, como se fossem galinha; noutro, simplesmente resolvem acordar pouco antes do sol se pôr, como se não tivessem compromissos ao longo do dia. Aí pronto: a casa inteira entra no ritmo deles.

Estamos mimando eles?

Sem falar na necessidade de atenção. Se a gente dá, reclamam. Se não dá, reclamam também. Reclama se tem, reclama se não tem. É um equilíbrio delicado, quase uma coreografia emocional. Às vezes basta eu sentar um pouco mais distante que já vem a cobrança, disfarçada de comentário inocente:

— Não me ama mais?

Sem foco

Mas o que mais me deixa encucado é a distração constante.

Eles adoram a alienação das redes sociais. Ela passa horas nos reels do Insta e nos shorts do YouTube. Ele, nos canais de esporte, vidrado em futebol.

E não é só distração, não. Aquilo ali já virou um modo de existir.

Aqui em casa, a atenção dura menos que propaganda pulável. Cinco segundos e já apareceu outra coisa mais interessante.

A gente começa uma conversa e, no meio, o celular vibra. Pronto. Eu viro coadjuvante. Fico ali, esperando, igual ligação em espera de operadora. Quando voltam, ainda perguntam:

— Tu tava falando o quê mesmo?

Eu, por dentro: “Rapaz, tava falando da minha vida inteira.”

Peço uma coisa simples — “pega um copo d’água pra mim” — e o percurso até a cozinha vira um documentário da Discovery. No caminho, param, observam, mexem em alguma coisa, sentam, esquecem… quando dou fé, estão em outra atividade completamente diferente, com ar de quem sempre esteve ali. O copo? Virou lenda.

Assistir a um filme juntos é outro espetáculo. O filme passando, trama acontecendo, reviravolta… e eles no celular. Aí, do nada:

— Quem é esse?

— Por que ele fez isso?

— Esse aí é o vilão?

Dá vontade de responder: “Também queria saber. Vamos descobrir juntos, se tu largar esse telefone por dez segundos.”

E tem a habilidade impressionante de começar tudo e terminar nada. É um talento. Um copo na pia, outro na mesa, um prato no quarto, a toalha em cima da cadeira… a casa vira uma exposição de tarefas inacabadas. Se organizar direitinho, dá até pra montar um roteiro: “A trajetória de um copo perdido.”

E o raciocínio? Ah, o raciocínio é um passeio turístico. A gente começa falando de uma coisa séria, importante, e, quando percebe, já estamos em outro assunto completamente aleatório, com uma lógica que só existe na cabeça deles — e, pior, faz sentido pra eles.

Tenho conversado e tentado alertar, mas tá difícil. E confesso pra ti: não sei mais o que fazer.

Sento com eles e converso. Converso mesmo. Converso muito. Falamos de política, filosofia, coisas da vida e, de vez em quando, temos nossos momentos de paz.

Outro dia mesmo, estávamos falando sobre o caso recente da Amazonprev no governo de Wilson Lima, em que a Polícia Federal investiga as aplicações suspeitas de cerca de R$ 390 milhões no fundo previdenciário do estado.

— E, por falar em aplicações, vocês viram a harmonização facial do Humberto Martins? — ela perguntou.

Com ele não é diferente. Estávamos falando sobre a crueldade da escala 6x1 e os impactos na família quando ele disse:

— Eu me compadeço do sofrimento do Mateo e da Giuliana.

Já estávamos em Terra Nostra... Tentei puxar de volta. Não consegui.

PowerPoint

Analisando a forma de pensar deles, concluí que funciona igual ao PowerPoint do Deltan Dallagnol ou da Andrea Sadi da Globo: sem provas e com muita convicção.

Outro dia, resolvi falar com eles sobre o tal caso do Banco Master. Gente na televisão, gente na internet, todo mundo falando em investigação, em dinheiro, em isso e aquilo.

Ele encostou na cadeira, coçou o queixo e começou:

“Banco Master… master é inglês. Inglês me lembra Estados Unidos. Estados Unidos me lembra dólar. Dólar me lembra inflação. Inflação me lembra preço alto. Preço alto me lembra supermercado. Supermercado me lembra fila. Fila me lembra espera. Espera me lembra televisão…”

Deu uma pausa, já animado com o próprio raciocínio.

“Televisão… televisão me lembra novela. Novela me lembra drama. Drama me lembra briga. Briga me lembra votação… votação me lembra paredão!”

Levantou num pulo.

“Pera aí… então isso tudo de Banco Master é esquema pra eliminar alguém no BBB?!”

No mesmo instante, eles pegaram o celular, abriram o aplicativo e votaram com a convicção de quem acabara de desvendar um grande plano nacional.

No fim das contas, o brother saiu com rejeição recorde.

Eles dormiram em paz.

Tinham certeza. Certeza mesmo. De que, de algum jeito, tinham feito a sua parte.

Tudo é cuidado

Mas vou te dizer uma coisa, caboco: no meio dessa confusão toda, tem uma ternura que não dá pra explicar direito. Porque, por trás da teimosia, da implicância e das manias, tem um carinho que aparece nos detalhes. No jeito de perguntar se eu já comi. No cuidado atravessado, meio torto, mas sincero.

Aí é que está.

Esses dois são assim, sempre foram assim, desde que me entendo por gente. Dão trabalho, mas fazer o quê? São meus pais.

E talvez a resposta daquela pergunta lá de cima seja essa: sim, a gente mima. Mima sem perceber, mima por cansaço, mima por carinho, mima porque lembra.

E a vida, meu irmão, tem dessas ironias bonitas: a gente passa anos sendo carregado no colo, ensinado a comer, a falar, a atravessar a rua… pra depois aprender, com o tempo, a devolver tudo isso em forma de paciência.

Não é fácil, não. Tem dia que cansa. Tem dia que a gente repete, repete, repete… e parece que nada entra. Mas aí vem uma lembrança besta, um gesto pequeno, e a gente entende.

Cuidar também é uma forma de agradecer.

E, no fim das contas, esses dois aqui de casa só estão me ensinando, mais uma vez, como é que se ama.

 

Referencias

https://bncamazonas.com.br/poder/operacao-da-policia-federal-mira-amazonprev/

https://oglobo.globo.com/ela/noticia/2026/03/06/quem-e-o-influencer-amigo-de-anitta-e-ex-de-mc-mirella-que-aplicou-botox-intimo-especialista-comenta-procedimento.ghtml

 

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1 Comentário(s)

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Douglas Pôrto comentou:
22/04/2026
Mais uma importante análise do cuidar: num momento, estamos sendo cuidados e, de uma hora para outra, passamos a ser os cuidadores. Nesse primeiro momento, temos a nítida ignorância de que o mundo gira à nossa volta. E no momento seguinte, temos a nítida impressão de que o mundo conspira contra nós, nossa estafa, nosso excesso de preocupação e, principalmente, o que mais nos crisa: a perspectiva de desinteresse da pessoa da qual cuidamos. Infelizmente ou felizmente, fazemos isso porque somos chantageados pelo mundo - quando ele nos pegou com as mãos de uma criança e segurou nosso dedo. O mundo nos dotou de responsabilidade e, agora, essa responsabilidade nos prende àqueles que devemos cuidar. Mas é importante: assim como temos de ensinar, também temos de aprender, principalmente aprender quando deixar, pois, quando temos uma responsabilidade muito grande para com uma pessoa ou alguém, passamos a possuí-la e a fazer com que ela seja nosso objeto máximo, e a colocá-lo ou colocá-la em uma redoma. Quando fazemos isso, não estamos prendendo só esta pessoa e seus livros e iniciativas, mas também estamos nos prendendo àquele foco máximo que idealizamos sempre proteger. É necessário também aprendermos a des-cuidar, a ignorar e, com isso, passarmos a ter um novo foco: nós mesmos, pois precisaremos do resíduo de atenção e de energia potencializar a nós mesmos. Grande abraço.
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