Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
1.
Eu sou Judas, caboco velho,
traidor de profissão.
Todo ano levo peia
no meio da multidão.
Mas antes da surra eu falo:
escuta aí, meu irmão.
2.
Não deixo ouro nem nada,
nem promessa de eleição,
só herança envenenada
pra lascar essa nação.
É presente que não presta,
mas ninguém larga, não.
3.
Pro gringo metido a dono,
que invade sem permissão,
deixo mapa da Venezuela
todo riscado de avião.
Rouba, prende presidente
e chama isso de “missão”.
4.
Ao xerife do planeta,
Donald Trump em expansão,
que apoia guerra alheia
em nome da proteção,
deixo um Oriente em chamas
e um barril de contradição.
(Israel com respaldo,
Irã na mira do canhão…
paz virou commodity
na bolsa da destruição.)
5.
Ao mesmo que ameaça o mundo
com guerra e negociação,
deixo o Irã sitiado
e o petróleo em convulsão.
Pra aprender que toda guerra
cobra em sangue e inflação.
6.
Pro cabra do ICE ligeiro,
que deporta sem pensar,
deixo ele sem documento
numa fila pra chorar.
Pra ver se aprende na pele
o que é não ter pra onde voltar.
7.
A quem embarga país pobre
com discurso de sanção,
deixo prateleira vazia
e remédio em extinção.
Pois bloquear uma nação
também é forma de agressão.
8.
Ao banqueiro engenhoso
Daniel Vorcaro em construção,
e ao seu Banco Master de ocasião,
deixo conta sem lastro
e lucro sem explicação.
E de brinde vai um jatinho
pra passeio de eleição.
9.
Ao deputado ligeiro
Nikolas Ferreira em excursão,
que passeia em avião
com cheiro de relação,
deixo CPI no colo
e pergunta sem edição.
10.
Aos que odeiam na tribuna
mas pedem voto na eleição,
deixo o eco das falas
contra Erika Hilton e Duda Salabert na sessão.
Pra aprender que preconceito
também cobra exposição.
11.
A quem quer vender rio
como ativo em licitação,
deixo o Rio Tapajós seco
e o povo sem proteção.
Pois privatizar a vida
é crime em qualquer versão.
12.
Ao país que naturaliza
a morte em repetição,
deixo o aumento do feminicídio
marcado no coração.
Pra ver se a dor das mulheres
vira pauta — não só estatística, não.
13.
Ao banco estatal confuso
e seus casos em mutação,
deixo o Banco de Brasília
em eterna explicação.
Com contrato mal contado
e auditor em procissão.
14.
Ao capitão recolhido
Jair Bolsonaro em reclusão,
deixo tornozeleira frouxa
e saudade de eleição.
Pra lembrar que toda história
tem volta — e prestação.
15.
Ao herdeiro apressado
Flávio Bolsonaro em ascensão,
que bajula o estrangeiro
como forma de projeção,
deixo um espelho nacional
sem legenda e sem tradução.
16.
Pros saudosos da farda
que pedem intervenção,
deixo fila, censura
e porrada sem explicação.
Pra ver se gostam mesmo
quando a ordem vira opressão.
Quer ditadura de volta?
Então segura a lição:
quem bate palma pra golpe
depois apanha calado — sem direito a reclamação.
17.
Ao pré-candidato firme
Ronaldo Caiado em missão,
deixo palanque instável
e promessa em revisão.
18.
À mídia que apresenta
verdade em PowerPoint de ocasião,
deixo slide sem fonte
e vergonha na exibição.
Pois manchete sem lastro
também é manipulação.
19.
Ao governador que disse
“fico” — mas saiu na contramão,
Wilson Lima na contradição,
deixo legado invisível
e marca em branco na gestão.
20.
Ao mesmo que nada fez
no Amazonas em sua mão,
deixo páginas vazias
no livro da administração.
21.
Ao prefeito que sonha alto
David Almeida em projeção,
que bagunçou a cidade
e quer subir de escalão,
deixo a conta da Manaus
pra cobrar na próxima eleição.
22.
E junto vai a suspeita
de contrato e corrupção,
pra lembrar que cargo público
não é balcão de transação.
23.
À praia que virou risco,
Ponta Branca em contaminação,
deixo água imprópria
e vergonha na inspeção.
Pois até o banho virou
ato de investigação.
24.
E ao povo — sempre o povo —
que aguenta sem reação,
deixo o ciclo infinito
de erro, voto e decepção.
Pois quem vende consciência
compra a própria prisão.
25.
E eu, Judas, me despeço
sem pedir absolvição,
porque hoje eu sou pequeno
perto dessa multidão.
Tem mais traidor na praça
do que santo na procissão.
26.
Agora podem me malhar,
cumprir tua tradição…
mas olha bem pra tua volta
antes de levantar a mão.
Vai que o Judas esse ano
tá mais perto do que imaginação.

Testamentos de anos anteriores:
Já é tradição: testamentos de anos anteriores:
2023 – O Testamento verde-amerelo do Judas.
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1688-o-testamento-verdeamarelo-do-judas
2021 – O Testamento de Judas na Pandemia
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1575-o-testamento-de-judas-na-pandemia
2017 -O Testamento de Judas e o Serra Velho
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1334-o-testamento-de-judas-e-o-serra-velho
2010 -O Testamento de Judas no Brasil
https://www.taquiprati.com.br/cronica/855-testamento-de-judas-no-brasil-2010-
2009 – Lula, Cristo, Judas e as alianças políticas
https://www.taquiprati.com.br/cronica/48-lula-cristo-judas-e-as-aliancas-politicas
2008 – O Testamento de Judas - https://www.taquiprati.com.br/cronica/93-o-testamento-do-judas-2008
2006 – O Judas amazonense no manuscrito de Urucurituba
https://www.taquiprati.com.br/cronica/195-o-judas-amazonense-no-manuscrito-de-urucurituba-
2004 – O Testamento do Judas
https://www.taquiprati.com.br/cronica/294-o-testamento-do-judas-2004
2001 – O Testamento de Judas
https://www.taquiprati.com.br/cronica/323-o-testamento-de-judas-2001
1987 – O Testamento de Judas (censurado)
https://www.taquiprati.com.br/cronica/652-o-testamento-de-judas-1987--censurado
