CRÔNICAS

Se Amélia era mulher de verdade, por que Erika não pode ser?

Em: 16 de Março de 2026 Visualizações: 229
Se Amélia era mulher de verdade, por que Erika não pode ser?

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“Não se nasce mulher: torna-se mulher.” (Simone de Beauvoir)

 

Caboco, tu viste que a deputada Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara? Pois foi. E bastou isso para reaparecer um velho costume brasileiro: o de fazer vestibular de feminilidade.

O apresentador que atende pelo sugestivo nome de Ratinho, resolveu “filosofar” em rede nacional. Com suas filosofezes, disse que não achava “justo” uma mulher trans presidir a comissão. Segundo ele, existiriam “tantas mulheres” — “mulher mesmo”.

Mas Ratinho não está sozinho nesse campeonato de definição biológica improvisada. Na própria Câmara, o deputado Nikolas Ferreira, de sugestivo apelido de “Chupetinha“, já protagonizou alguns capítulos desse debate com Erika Hilton. Em uma discussão numa sessão da comissão, ao defender outra deputada em meio a um bate-boca, disparou a frase que virou manchete:

— “Pelo menos ela é ela.”

Não era exatamente um tratado de filosofia, mas serviu como resumo de uma ideia que circula com frequência: a de que existe um selo de autenticidade feminina guardado em algum cartório biológico.

A frase de Ratinho segue o mesmo roteiro clássico. Primeiro vem o “não tenho nada contra”. Depois, inevitavelmente, vem o “mas...”. E logo aparece o conceito definitivo: “mulher mesmo”.

A palavra “mesmo”, aliás, tem carreira longa na política brasileira. “Homem mesmo”. “Brasileiro mesmo”. “Cidadão de bem mesmo”. “Burro mesmo”. “Corrupto mesmo”.

Ela sempre aparece quando alguém quer resolver uma questão complexa com uma definição curta, simplista — e normalmente torta.

Pode isso Arnaldo?

Mas antes de qualquer vestibular biológico, caberia lembrar uma coisa elementar: para presidir uma comissão da Câmara não é necessário ter determinado gênero. O necessário — e suficiente — é ter competência para exercer a função. Comissão parlamentar não é campeonato de anatomia. É espaço de trabalho legislativo.

Se a régua fosse realmente competência, aliás, o Congresso talvez tivesse evitado algumas escolhas no mínimo curiosas da história recente. Em 2024, por exemplo, a Comissão de Educação foi presidida por Nikolas Ferreira (PL-MG) — que nunca, em sua vida, deu qualquer contribuição ao debate educacional. Pertence àquela categoria de gente (gente?) que condenou Paulo Freire, patrono da educação brasileira,  sem sequer ter lido uma única linha de seus livros conhecidos no mundo todo. Para o Chupetinha educação de qualidade é aquela em que os alunos filmam seus professores para denunciá-los sob pretexto de doutrinação ideológica.

No mesmo período, a Comissão de Constituição e Justiça, uma das mais importantes da Câmara, foi presidida pela deputada Caroline de Toni (PL-SC). Lembra dela? Ela afirmou que não houve tentativa de golpe de Estado e que as prisões seriam injustas ou desproporcionais. Propôs um projeto para permitir que o Congresso barrasse decisões do STF consideradas “exorbitantes”. Lembrou? Então, ela é aquela que parece enxergar apenas aquilo que já está escrito na própria cognição — lembrando a célebre observação do professor aposentado José Geraldo de Sousa Júnior, da Universidade de Brasília, sobre quem só consegue ler o mundo com os olhos do próprio preconceito.

E para completar a coleção de escolhas peculiares, a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado já foi presidida pelo deputado Delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP). O nobre deputado gerou forte reação ao sugerir em um podcast que o Brasil poderia ser dividido em dois países: um “Brasil do Norte” (Norte e Nordeste) e um “Brasil do Sul” (Centro-Oeste, Sudeste e Sul). Tem seu mérito: é que nós, cabocos, ficaríamos longe dessa execrável figura. Mas a declaração foi considerada, com razão, por críticos como separatista e preconceituosa contra o Norte e Nordeste, provocando grande repercussão política e nas redes sociais. Bilynskyi, antes da carreira política, atuava como delegado em São Paulo. Relatórios indicam mais de 12 processos disciplinares na Polícia Civil desde o início da carreira. A corporação chegou a discutir sua demissão administrativa por causa dessas ocorrências. Ou seja, parece que ele andou bilynskando aqui e ali.

Diante desse currículo institucional, discutir o gênero da presidente da Comissão da Mulher parece até um despautério.

Afinal, o que é ser mulher?

A pergunta parece simples, mas a vida real costuma ser menos burocrática que certos debates de internet.

Pensa comigo, caboco. No cotidiano, quando alguém se dirige a uma pessoa dizendo “senhora” ou “senhorita”, ninguém pede exame médico antes. Não existe fila para conferência anatômica. Ninguém pede laudo cromossômico na porta da padaria.

O tratamento no feminino acontece por algo muito mais prosaico: observação social. A forma de se apresentar, de falar, de se comportar, de ocupar o espaço. É assim que as pessoas reconhecem o gênero umas das outras, desde quando o mundo era mundo não imundo.

Em outras palavras: no convívio diário, gênero não é verificado — é percebido.

O curioso é que muitos dos que defendem uma definição puramente biológica passam o dia inteiro tratando as pessoas por “senhora” e “moça” sem jamais conferir o órgão sexual de ninguém.

O que mostra uma coisa interessante: na prática, até os fiscais da biologia convivem normalmente com a sociologia.

Houve um tempo em que diziam que mulher não podia votar porque era frágil. Depois disseram que não podia trabalhar porque era delicada. Mais tarde afirmaram que não podia mandar porque era emocional demais

Curiosamente, enquanto diziam tudo isso, eram as mesmas mulheres que seguravam a casa, criavam filhos, trabalhavam dobrado e ainda tinham de ouvir que eram frágeis.

Ou seja: quando a tarefa era difícil, a mulher dava conta. Quando a tarefa era poder, diziam que ela não podia.

A verdade é que “ser mulher” nunca foi apenas uma característica biológica. Foi — e continua sendo — uma experiência social. Uma espécie de curso intensivo de expectativas, cobranças e opiniões alheias.

A sociedade passa séculos dizendo o que mulher não pode ser. E as mulheres passam séculos mostrando que podem.

A mulher e suas facetas

No lar, a coisa tem sua própria poesia sociológica.

O casal trabalha o dia inteiro. Os dois pegam trânsito, enfrentam chefe, resolvem problema. Mas, ao chegar em casa, acontece um fenômeno fascinante.

O cansaço masculino repousa no sofá enquanto o cansaço feminino lava louça. É quase uma lei da física doméstica. Claro que isso vem mudando — felizmente. Cada vez mais homens dividem tarefas, cuidam da casa e dos filhos. Mas a herança cultural ainda pesa.

Durante séculos ensinaram às mulheres que cuidar da casa era obrigação. E ensinaram aos homens que ajudar em casa era gentileza. E há uma diferença grande entre obrigação e gentileza.

No mercado de trabalho, a matemática brasileira também tem criatividade própria.

Duas pessoas fazem o mesmo serviço. Mesma função, mesma carga horária, mesma responsabilidade. Mas o salário da mulher continua sendo menor. O hóspede da Papudinha declarou em alto e bom som que mulher devia ganhar salário mais baixo porque engravidava. Será que se referia também ao fruto da sua própria fraquejada? Ou ao cheque emitido pelo Queiroz para a Micheque?

Não é milagre. É tradição.

Promoção também segue uma lógica curiosa. Quando um homem é firme, dizem que ele tem liderança. Quando uma mulher é firme, perguntam por que ela está nervosa.

Se ela é assertiva, chamam de mandona. Se é tranquila, dizem que falta pulso.

Ou seja: o problema nunca é a competência. O problema é sempre a expectativa.

Na política, o desafio costuma ser ainda maior.

Historicamente, o poder foi um território masculino. Durante muito tempo disseram que política era “coisa de homem”. Como se administrar orçamento público fosse uma habilidade genética.

No Brasil, as mulheres conquistaram o direito ao voto apenas em 1932. E, mesmo hoje, continuam sub-representadas nos espaços de decisão.

Mas há outro dado ainda mais grave: a violência.

O Brasil convive com números alarmantes de violência contra mulheres. O feminicídio — quando uma mulher é assassinada por ser mulher — continua sendo uma tragédia recorrente no país. Em 2025, mais de 1.500 mulheres foram vítimas desse crime, o que equivale a algo entre quatro e cinco mortes por dia — aproximadamente uma a cada seis horas. E o mais inquietante: os números seguem em crescimento nos últimos anos, acumulando milhares de vítimas desde que o feminicídio passou a ser tipificado em lei.

Ou seja, não se trata de episódios isolados, mas de um padrão persistente que atravessa o cotidiano — muitas vezes dentro de casa, muitas vezes cometido por quem deveria proteger.

E quando falamos de violência motivada por preconceito de gênero ou orientação sexual, o cenário também é preocupante.

Levantamento do Grupo Gay da Bahia registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBT+ no Brasil em 2025, incluindo homicídios, suicídios e latrocínios — o equivalente a uma morte a cada 34 horas no país.

No ano anterior, 2024, o mesmo observatório contabilizou 291 mortes violentas, com vítimas em todos os estados brasileiros.

Esses números são considerados subnotificados, porque o Brasil ainda não possui um sistema oficial consolidado de registro de crimes motivados por LGBTfobia.

Entre as vítimas registradas, a maioria era composta por homens gays e por travestis e mulheres trans — grupos historicamente mais expostos à violência.

Ou seja: enquanto parte do debate público se ocupa em decidir quem pode ou não ser chamado de mulher, há pessoas sendo agredidas ou mortas simplesmente por não se encaixarem na expectativa sexual ou de gênero de alguém.

Mulher, você não passa de uma mulher

No fundo, caboco, a discussão revela um paradoxo curioso.

Tem gente muito preocupada em decidir quem é “mulher de verdade”. Mas parece pouco preocupada em resolver os problemas que afetam mulheres de verdade todos os dias.

É mais fácil discutir cromossomo do que combater desigualdade. Dá menos trabalho.

Enquanto alguns fiscalizam identidade feminina como se fossem auditores de cartório biológico e fiscal do sexo alheio, milhões de mulheres continuam fazendo o que sempre fizeram: trabalhando, criando filhos, sustentando casa, enfrentando preconceito e ainda achando tempo para seguir em frente.

Talvez a verdade seja bem mais simples do que parece: ser mulher não é um selo carimbado no nascimento. É uma condição vivida todos os dias.

No Brasil, convenhamos, sempre existiram muitas formas de ser mulher.

O que nunca faltou mesmo foi gente querendo decidir a vida delas. Sem procuração. Sem convite. E, na maioria das vezes, sem a menor ideia do que está falando.

No fim das contas, caboco, a pergunta “o que é ser mulher?” talvez diga menos sobre as mulheres — e muito mais sobre a obsessão de certos homens em explicar o mundo em que nunca precisaram viver. Como cantou Nara Leão, ser macho é bem fácil, o difícil é ser homem.

Porque enquanto alguns discutem cromossomos em mesas de debate, milhões de mulheres seguem fazendo o que sempre fizeram: tocando a vida. E cada vez mais consciente de seus direitos.

E sem precisar da autorização de ninguém.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

4 Comentário(s)

Avatar
Ana Maria Paiva comentou:
17/03/2026
Certíssimo!!! Salve Amélia, salve Érika!
Comentar em resposta a Ana Maria Paiva
Avatar
Eudimar Bandeira comentou:
17/03/2026
Avatar
Cecéu Ponciano comentou:
17/03/2026
Porreta! Me senti representada!
Comentar em resposta a Cecéu Ponciano
Avatar
Celeste Correa comentou:
17/03/2026
A crônica muito necessária me fez lembrar Paulo Ghiraldelli filósofo e escritor, mestre e doutor em Filosofia pela USP. pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Também é mestre e doutor em Filosofia e História da Educação pela PUC-SP. Ele escreveu: "Vou explicar mais uma vez. Não é olhando cromossomo e verificando falta de pipi que se define mulher. É a prática social de cada pessoa que vai lhe dar, identidades variadas, inclusive a de gênero. Não existe a mulher biológica”
Comentar em resposta a Celeste Correa