Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.
(Júlio César)
Caboco, hoje quero te falar do milagre sem dizer o nome do santo.
Ele é cristão, católico apostólico romano; já cantou para o Papa; formou-se em Serviço Social ou Direito, sei que na faculdade, atravessou Sociologia, Antropologia Cultural, Política Social, Ciência Política e outras veredas do saber. Constituiu família, ama poesia, cultiva plantas com devoção e tem um gato que o observa com a paciência de quem já viu de tudo.
E, como todo bom católico, é contra o aborto — porque é a favor da vida, diz ele.
A cereja do bolo, parente, é que também é bolsonarento, eleitor de David Almeida e Wilson Lima.
Aí eu te pergunto: como alguém que se diz a favor da vida aplaude a máxima de que “bandido bom é bandido morto”? Como um cristão empresta voz a quem trata a vida de homossexuais, negros e pobres como estatística incômoda?
Parece que vivemos sob o patrocínio de um deus das contradições — onipresente, onisciente, onipotente e, sobretudo, onipolarizado.
E não pense que essa contradição mora só na sala de jantar. Ela também vota, comenta, compartilha — e governa. Em Manaus, deu 62.8% dos votos para o agora presidiário da Papuda, que elogia a tortura e tentou dar um golpe na democracia.
Porto de lenha
O nosso santo ficou triste com o pronunciamento recente do governador Wilson Lima. E eu fico aqui me perguntando: o que há por trás da saída da corrida ao Senado?
Em política, caboco, recuo nunca é só recuo. É cálculo. É termômetro. É leitura de contexto. E, às vezes, acordos espúrios.
Há quem diga que foi estratégia; há quem jure que foi prudência; e há quem enxergue apenas a maré baixando antes da tempestade.
Lembra o “Dia do Fico”, de Dom Pedro I, quando bradou que ficava para o bem de todos e felicidade geral da nação? Pois por aqui tivemos o “Dia do Não Vou”: fico no governo para o bem das circunstâncias e felicidade das articulações.
Cada qual com sua coroa — um de ouro, outro de pesquisas.
E, no meio do porto — que já foi de lenha, queria ser Liverpool e hoje é de versões —, atracou a Operação Erga Omnes, da Polícia Federal, em Manaus. Nome em latim, efeito em vernáculo: para todos.
Se, no plano local, a narrativa se antecipa aos fatos, em Brasília ela já nasce com nota oficial pronta.
A operação mirou assessores e movimentou os bastidores da prefeitura. Incomodou o santo. Ele jura que é perseguição, ensaio de desestabilização, tentativa de forçar um “Não Vou” também para o prefeito David Almeida.
Então me diz, santo: se não houve indiciamento do chefe do Executivo, por que a defesa enfática? Solidariedade institucional ou antecipação de narrativa?
No teatro político, às vezes o silêncio é suspeito. Noutras, a defesa apaixonada é que soa como medo.
O porto segue movimentado — não de navios, mas de versões.
A Liga da Justiça
Mas, se o porto é de versões, Brasília é de eufemismos.
Quando a gente desce do púlpito doméstico para a praça pública, encontra o mesmo santo — agora de toga imaginária — contemplando o teatro do Supremo Tribunal Federal (STF).
No Brasil, a física ganhou uma nova força fundamental: a gravidade seletiva do contracheque.
O teto salarial existe… até topar com uma verba “indenizatória”, que levita com elegância acima dele. Não é salário, garantem; é o universo apenas ressarcindo o esforço de existir com responsabilidades muito solenes.
Chamam de penduricalhos — mas penduricalho é enfeite. Aqui temos engenharia financeira de museu: minimalista na explicação e maximalista no resultado.
Se alguém pergunta se não há exagero, surge a resposta técnica, perfumada e resiliente: não é privilégio; é compensação existencial. Afinal, justiça precisa de equilíbrio — principalmente o do extrato bancário.
Quando algo misterioso acontece por essas bandas, pode apostar: haverá sigilo, nota oficial e um código de ética novinho em folha para explicar por que nada aconteceu. O código recomenda evitar conflitos de interesse — uma ousadia comparável a sugerir guarda-chuva em dia de chuva. Também aconselha cautela em encontros com partes interessadas — o que, no imaginário popular, soa como pedir a um gato que reflita sobre sua relação histórica com ratos.
Há o sigilo pedagógico: não se divulga porque é sensível; é sensível porque não se divulga. Um ciclo virtuoso de proteção — da verdade contra a realidade.
O código paira como GPS moral: não impede o erro, mas recalcula a rota com elegância: “Recalculando… prossiga por 300 metros… e, se possível, evite manchetes.”
E, quando a toga decepciona, o palanque promete redenção.
O nobre deputado
E o santo me diz com um sorriso vitorioso no rosto que o nobre deputado nos salvará. Mas como?
Eis que, nesse cenário de princípios estáveis e fatos maleáveis, o deputado do Partido Liberal de Minas Gerais, Nikolas Ferreira (vixe, vixe!), convoca uma manifestação popular contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e membros do STF.
A ideia de protestar é legítima — o direito de ir às ruas é o oxigênio da democracia. A manifestação seria válida, necessária até, se não viesse de quem coleciona polêmicas como quem coleciona figurinhas — e de seus acéfalos de estimação. Quando o mensageiro é refém do próprio ruído, a mensagem chega rouca.
Na Avenida Paulista, bandeiras tremulam, palavras de ordem sobem e descem, e a contradição — sempre ela — desfila em carro aberto: pede-se moralidade com megafone, enquanto a própria biografia ecoa como microfonia.
O santo fica orgulhoso. E eu preciso lembrá-lo de quem é o deputado em questão.
Nikolas, o grande fiscal do fiofó alheio, esquece de olhar para o próprio. Foi autor de discurso transfóbico no Dia Internacional da Mulher; divulgou gravação envolvendo uma adolescente trans de 14 anos em banheiro escolar; teve embates públicos com Duda Salabert sobre identidade de gênero; viu contas suspensas após manifestações ligadas aos atos de 8 de janeiro; atacou a influenciadora Thais Carla com comentários considerados gordofóbicos; além de se envolver em controvérsias sobre desinformação relacionada ao Pix e votar contra pautas sociais como o chamado “gás do povo” e a favor da PEC da “bandidagem”. Sem contar com as viagens, ainda não explicadas, no jatinho do Vorcaro. Quem acabou com o Nikolas foi a Ivete Sangalo no Programa do Ratinho. Vocês viram?
O santo diz defender valores. Mas escolhe quais valores merecem defesa. E não pense que o roteiro é exclusivo nosso.
— Lá fora é diferente — o santo insiste. — Nos Estados Unidos o sistema funciona.
Tio Sam
O santo ergue os olhos para o Norte e encontra Donald Trump como referência retórica amplificada. Lá, a diplomacia vira braço de ferro — e o braço, às vezes, vira míssil. Como justificar o assassinato de 175 meninas, bombardeando uma escola primária?
Fala-se em intervenção na Venezuela; mantém-se apoio irrestrito a Israel em meio a denúncias sobre Gaza; ensaiam-se tensões com o Irã.
Dentro de casa, operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) alimentam denúncias de xenofobia contra imigrantes. Fora dela, os Estados Unidos ensaiam afastamentos de organismos multilaterais conforme a conveniência.
E aqui vai a ironia que não me sai da cabeça: a FIFA excluiu a Rússia da Copa de 2022 pela invasão da Ucrânia. Mas, quando o aliado invade, o apito engasga.
A regra é universal — desde que não atrapalhe o patrocinador.
No campeonato da geopolítica, o VAR só revisa lance de adversário.
Santo do pau oco
O nosso santo observa tudo com a serenidade de quem rega as plantas ao entardecer.
Ele é pela vida, diz. Pela ordem, diz. Pela fé, diz.
Desde que a vida concorde com ele. Desde que a ordem lhe favoreça. Desde que a fé o absolva.
Escolhe, com precisão cirúrgica, quais vidas merecem compaixão, qual ordem lhe convém, qual fé o redime.
No altar do cotidiano, a coerência é vela vagabunda: ilumina pouco e derrete rápido.
No Brasil, a realidade é elástica e os princípios, retrospectivos. Se algo dá errado, cria-se uma comissão para atualizar o código que explicará como deveríamos ter seguido o código anterior.
Democracia é um processo contínuo de aperfeiçoamento — de preferência depois do fato consumado.
E assim seguimos: entre a fé que promete e a política que promete mais ainda; entre o sigilo que protege e o protesto que grita; entre o santo que prega a vida e o mundo que a negocia.
O santo nunca precisou de nome — porque ele é legião.
E o milagre, caboco, não é ele existir.
O milagre é a gente ainda reconhecer a contradição quando ela passa — mesmo disfarçada de virtude.
E, se disserem que estou vendo chifre em cabeça de cavalo, responderei:
— Ah, mas e o PT?
