"A memória é uma ilha de edição". (Waly Salomão. Algaravias. 1996)
Quem foi a primeira amazonense que usou uma garrafa térmica? Se essa pergunta cair numa prova do vestibular, marque com um “x” a resposta certa: Cleomar dos Anjos Feitosa, professora de Canto Orfeônico do Instituto de Educação do Amazonas (IEA). Isso mesmo! Foi a Cleomar. Ninguém me contou. Eu vi. Não apenas vi. Usufrui. Se perguntarem a data e o lugar, responda: 12 de outubro de 1955, dia de Nossa Senhora Aparecida, no balneário das Pedreiras, no igarapé do Mindu, em Manaus, comemorado com improvisado show musical.
A data é fácil de lembrar porque em cada 12 de outubro, feriado nacional, acontecia sempre o piquenique anual dos paroquianos e suas famílias, que trabalhavam na quermesse da Paróquia de Aparecida, entre elas, as irmãs Feitosa. O ano é inesquecível por causa de duas mulheres – uma miss e uma cantora - para quem 1955 foi decisivo. Neste ano, a Miss Amazonas, Anette Stone, numa disputa renhida, conquistou o 2º lugar no concurso de Miss Brasil e a cantora Carmen Miranda deu adeus à vida. Durante meses, Manaus só falava nisso.
Portanto, esse recurso à memória – essa ilha de edição - mostra que, indubitavelmente, o ano foi 1955 e aconteceu, indubitavelmente, em 12 de outubro. O uso duas vezes de “indubitavelmente” é para não deixar qualquer dúvida aos incrédulos. Testemunharam o fato: Glória Nogueira, Elisa Bessa, Rosa Magaly, Jiddu Rebouças, Angélica Arruda, Maria Arnaud, Odaísa Braga, Edina Soares, Lili Azevedo e outras pessoas, ainda vivas, que não me deixam mentir. Ou deixam? Já os mortos, que venham puxar meu pé, se minto. De qualquer forma, a seguir passo a descrever o objeto da modernidade e o ritual realizado para apresentá-lo à sociedade manauara.
Era uma garrafa cinzenta, de um litro, marca Alladin, made in USA, recém trazida dos Estados Unidos pelo padre redentorista Thomé Morrissey. Consciente do momento histórico que vivia, Cleomar ergueu o recipiente térmico num gesto que Bellini faria anos depois com a taça Jules Rimet. Sua mão direita fechada segurando o troféu deixou o dedo mindinho flutuando no ar, exibindo uma unha pintada de vermelho vivo. Confesso que até então não havia presenciado nada tão chique. Diante de um público embasbacado, ela desenroscou a tampa de rolha de cortiça, serviu um suco de taperebá que eu, menino de oito anos usado como cobaia, bebi. Perguntou:
- Tá geladinho?
Confirmei. Aí, ela declamou a frase histórica que ficaria gravada para a posteridade:
- É impressionante! Conserva o café quente e o suco gelado. O que é quente fica quente, o que é frio fica frio.
Se a garrafa falasse, diria: Diga ao povo que fico. A garrafa ficou em Manaus para sempre
Taí, meu bem
Parece banal, mas não é. O Brasil, até então, não produzia garrafa térmica e ninguém, ainda mais em Manaus, sabia que diabo era aquilo. Era novidade, raridade, luxo. Nonato Garcia registrou no Jornal do Commércio, em sua coluna social Nogar Tudo Vê Tudo Informa, o uso delas em várias mansões, como se fosse o suprassumo da sofisticação e do refinamento. A geladeira Gelomatic gelava, o fogão Rey esquentava, mas uma geringonça portátil que tinha a dupla função, só mesmo vendo pra crer. Tinha de ser coisa dos States. Era a modernidade importada, trazendo para o centro da floresta panela de pressão, geladeira, fogão a gás, máquina de lavar roupa, rádio e... garrafa térmica.
Nem sei se a protagonista lembra o fato. Eu, sim. A cerimônia de exibição da garrafa térmica foi precedida de muita cantoria num show em um palco improvisado na ponte de madeira sobre o igarapé do Mindu, o maior igarapé da área urbana de Manaus. Ele nasce numa floresta próximo ao Jardim Botânico Municipal e atravessa toda a zona leste da cidade, num trajeto de mais de 20 quilômetros, correndo por um leito pedregoso. Vai se juntando a outros igarapés até desaguar no Rio Negro. Durante décadas, abrigou muitas espécies diferentes de peixes, pássaros, insetos, mamíferos, répteis, tartarugas e plantas e deu água fresca aos abundantes buritizais que, em troca, lhe proporcionavam sombra.
Vale a pena interromper o nosso show para dizer que o Mindu era quase um paraíso, quando ocorreu o lançamento da garrafa térmica. Em uma de suas margens, terminava a cidade, em outra começava a floresta. Suas águas eram límpidas, cristalinas e potáveis. Mas depois do golpe militar de 1964, a censura impediu críticas ao modelo econômico dominante, que se lixava para o meio ambiente. Foi quando a Companhia Habitacional do Amazonas (COHABAM) construiu com recursos federais o conjunto residencial Castelo Branco – nome dado em homenagem ao marechal ditador. Manaus tinha, então, uns 300 mil habitantes. Aí começou a lenta agonia do Mindu.
De lá para cá, a cidade cresceu. A mata foi devastada. Dezenas de novos bairros surgiram sem uma política ambiental e de saneamento básico. As residências passaram a despejar seus dejetos no leito do igarapé, transformando-o num fétido esgoto a céu aberto. A feira do bairro Amazonino Mendes joga nele todo seu lixo. Mindu, hoje, como Itabira, é apenas um retrato na parede. Mas como dói! Nós e nossos filhos pagaremos caro por esse crime, se o poeta Thiago de Mello tiver razão, quando diz que não é só quem brinca com fogo que se queima. Quem polui a água, acaba se afogando no lodo, na cinza e na merda.
Mas voltemos à vaca fria: o show musical. As filhas de dona Rosa, as irmãs Feitosa – Cleomar, Dagmar, Lucimar e Dulcimar – formavam um quarteto da pesada, que alegrava qualquer festa. Elas começaram com a marchinha “Taí” composta por Joubert de Carvalho e gravada por Carmen Miranda em 1930, sob regência do Pixinguinha, que eu ainda não sabia que era tão carinhoso. Ah, se eu soubesse... Deixo com vocês o quarteto:
Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim / Oh meu bem não faz assim comigo não.
Você tem, você tem que me dar seu coração / Meu amor não posso esquecer
me dá alegria / mas também sofrer / a minha vida foi sempre assim
só chorando as mágoas que não têm fim.
Essa música profana era cantada no balneário da dona Dirce Ramos doado ou vendido aos padres estadunidenses responsáveis pela gestão canônica e jurídica da paróquia. As irmãs Feitosa estavam simplesmente deslumbradas com Dalva de Oliveira, que estava bombando no hit parade dos programas radiofônicos e ficou conhecida como “A Rainha da Voz” e “Rouxinol do Brasil”. O repertório do show incluiu algumas das 227 gravações da cantora cadastradas após sua morte pelo ECAD – Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, especialmente aquelas de maior sucesso.
O que será
Várias canções eram composição de Herivelto Martins, com quem Dalva havia casado em uma cerimônia de umbanda e se separado, num escândalo nacional, com acusações de cada lado. Enciumada com as relações extraconjugais do marido, que a espancou e a difamou, Dalva o processou por calúnia e difamação no Tribunal de Justiça. A briga gerou um duelo musical responsável por canções de fossa, amor perdido e sofrimento. A cada lançamento do ex-marido, a cantora respondia em parceria com compositores de peso.
Um dos sucessos a partir de 1953 foi Kalu do compositor cearense Humberto Teixeira, o “Doutor do Baião”, fiel parceiro de Luiz Gonzaga. Os “olhos verdes” de Kalu, que refletiam o amor sofrido naquela guerra conjugal, não podiam ficar de fora. As performáticas irmãs Feitosa cantaram assim: as quatro entoaram em coro: - Kalu. Uma delas, a Cleomar, entrou sozinha em outro tom, com um floreio vocal que imitava o som de um pássaro: - Liri-lirau. As quatro repetiram: - Kalu. A Cleomar voltou a gorjear: - Liri-lirau. Aí as quatro juntas - Tira o verde desses óio de riba d’eu:
Kalu, Kalu, não me tente se você já me esqueceu.
Kalu, Kalu, esse oiá depois do que se assucedeu /
Com franqueza só não tendo coração
Fazer tal judiação / você tá mangando de eu.
Passa a mão aqui no meu braço, maninha. Olha só como eu fico arrepiadinho toda vez que me lembro do liri-lirau da Cleomar. Já na carroceria do caminhão ou ônibus que nos levava para o balneário das Pedreiras, a Cleomar ia puxando os sucessos do momento. Um deles, cantado várias vezes, foi o bolero “Que será” gravado por Dalva de Oliveira composto por Mário Rossi e Marino Pinto, autores que somente agora conheci. Fazia parte da guerra conjugal:
Que será / Da minha vida sem o teu amor / Da minha boca sem os beijos teus.
Da minha alma sem o teu calor / Que será / Da luz difusa do abajur lilás.
Se nunca mais vier a iluminar / Outras noites iguais.
O assunto do dia era essa fofoca. Herivelto ficou furioso e em parceria cúmplice com o jornalista David Nasser gravou Caminho certo, mas sua resposta, que vai aqui registrada, ficou fora do show do Quarteto Feitosa, que jamais daria voz a um machista:
E a culpada foi ela / Transformava o lar na minha ausência / Em qualquer coisa abaixo da decência.
A guerra musical continuou com cada um culpando o outro pelo fracasso do casamento. Dalva gravou “Errei sim”, um samba-canção sentimental e cadenciado composto a seu pedido por Ataulfo Alves:
Errei sim / Manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo o culpado.
Deixavas-me em casa / Me trocando pela orgia,
faltando sempre / com tua companhia.
Sunshine
No breve intervalo após “Que será”, os padres cochicharam entre si e um deles pediu canção com o mesmo título, mas em inglês. Os fundadores da Paróquia de Aparecida no então Bairro dos Tocos eram da Província de Chicago, queriam ouvir “Whatever will be”, que um ano depois ficaria célebre na voz de Doris Day no filme O Homem que sabia demais de Alfred Hitchcock, vencendo o Oscar de Melhor Canção Original. Só a Cleomar conhecia. Não se fez de rogada e engatilhou o canto solo:
O que será, será / Whatever will be, will be / The future is not ours to see.
O que será, será / What will be, will be.
A música, cuja letra assegura que o futuro é imprevisível, logo teria uma versão completa em português gravada por uma cantora e radialista desconhecida em Manaus, Neusa Maria, mas posto que cantores eram reis e rainhas de qualquer coisa, ela foi denominada de “Rainha do Jingle”. Sua versão ficou bastante badalada e até a minha neta de 15 anos já ouviu:
Que será, será / Aquilo que for, será / O futuro não se vê / O que será, será.
Um assunto puxa outro. Houve espaço ainda para outra canção também em inglês no show sobre a ponte de madeira, ao lado de uma pequena cachoeira. Debaixo de um sol escaldante, as irmãs Feitosa cantaram “Sunshine”, uma das músicas oficiais do estado da Louisiana, nos EUA, que no inverno enfrenta geadas e ondas de frio extremo. Sua letra exalta o brilho do sol, portador de alegria e felicidade, que aquece o coração, mas no caso do Amazonas o brilho do sol trazia um calor escaldante de fritar ovo na calçada:
You are my Sunshine / My only Sunshine / You make me happy / When skies are grey
You´ll never know, dear, how much I love you, please don´t take my Sunshine away.
Lembro que Jiddu Rebouças chorou ouvindo a canção e por isso lhe pespegaram o apelido de Sunshine. Deixemos o Jiddu banhado em lágrimas no dia 12 de outubro de 1955, em Manaus, para voar no tempo e no espaço a Niterói, no dia 26 de agosto de 2009. A TV anunciava a morte do senador Ted Kennedy na noite do dia anterior. A última música que cantou no leito de morte foi Sunshine, que me trouxe à lembrança o show da garrafa térmica. Passei o dia inteiro com a música martelando na minha memória, como uma chuva fininha e persistente ou como uma serenata de mosquito.
Fui trabalhar. No caminho, indo para a UERJ, na ponte Rio-Niterói, ligo o rádio no carro que noticia a morte do senador e lá vem a música beliscando meu ouvido, dessa vez na versão de Ray Charles:
“The other night, dear, as I laid sleeping, I dreamed I held you by my side.
Entro na sala de aula. Olho meus alunos. A música continua tocando dentro da minha cabeça, mas agora nitidamente, claramente, na voz da Cleomar Feitosa:
“When I awoke, dear, I was mistaken, and I hung my head and cried”.
Isso, o dia in-te-ri-nho, a música me perseguindo. Uma doce perseguição, que foi interrompida pela última canção gravada por Dalva de Oliveira, antes de morrer também em agosto, mas de 1972. Dalva pedia arrego com a marcha-rancho “Bandeira Branca” composta para ela por Max Nunes e Laércio Alves:
Bandeira branca amor / Não posso mais /
Pela saudade que me invade / Eu peço paz.
Saudade mal de amor, de amor / Saudade dor que dói demais
Vem meu amor, bandeira branca, eu peço paz.
Pertinho do céu
Uma das filhas da dona Elisa, agora não lembro se a Helena ou a Dile, também choramingava discretamente vá lá saber a razão. Sei que uma delas pediu para o quarteto cantar “Ave Maria no morro” composta em 1942 por Herivelto Martins, que antes de se tornar famoso, foi palhaço de circo, vendedor ambulante, ajudante de contabilidade e até barbeiro. Apesar da bronca com o autor machista, o pedido foi aceito por ser uma homenagem à Nossa Senhora Aparecida, Cleomar, com voz firme, cantou solo:
Barracão de zinco / Sem telhado, sem pintura. / Lá no morro / Barracão é bangalô
Lá não existe / Felicidade de arranha-céu / Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu.
No final apoteótico, com sua voz cristalina de soprano, Cleomar imprime solenidade com o uso de agudos em alto e bom som, como se estivesse cantando Panis Angelicus no Mosteiro de São Bento:
Tem alvorada tem passarada ao alvorecer /sinfonia de pardais anunciando o anoitecer
E o morro inteiro no fim do dia / reza uma prece a Ave Maria.
A garrafa térmica se banalizou, entrou nos barracos de zinco, mas esse escriba aqui, 70 anos depois, ainda guarda na memória o gosto e o cheiro daquele suco gelado de taperebá acompanhado de refinado repertório musical.