Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
(João 10:10)
Caboco, tem uma frase que circula há tanto tempo no Brasil que parece ter perdido a capacidade de nos assustar: “bandido bom é bandido morto”. De tanto ouvi-la, repetida por políticos, apresentadores, comentaristas e cidadãos comuns, corremos o risco de não perceber mais a violência contida em apenas cinco palavras.
E quero começar esta conversa contando que essa inquietação não é somente minha; ela também foi despertada pela minha amiga Patty — diferente do “terrivelmente” evangélico André Mendonça, ela é adoravelmente evangélica —, que, durante muito tempo, se identificou com a direita e votou em Bolsonaro. Hoje, ela está estudando, revendo suas convicções e seguindo um caminho mais à esquerda. Não digo isso para apresentar uma “conversão política”, nem para afirmar que existe um lado dono da verdade. O que me chama a atenção é outra coisa: uma pessoa que durante anos enxergou o mundo por uma determinada lente passou a questionar algumas de suas próprias certezas quando começou a confrontá-las com a realidade, com o estudo e, sobretudo, com a própria fé.
Foi também a partir dessas conversas que uma pergunta passou a me incomodar ainda mais: o que estamos dizendo sobre nós mesmos quando aceitamos que a morte de alguém possa ser apresentada como uma solução simplesmente porque esse alguém foi classificado como “bandido”?
Não estou dizendo que devemos ter pena de quem mata, estupra, rouba, racha dinheiro público, tenta dar golpe de Estado, sequestra ou aterroriza. Também não estou dizendo que a sociedade deva cruzar os braços diante do crime. Muito menos que a vítima tenha de compreender o criminoso antes de ser protegida pelo Estado.
O que me incomoda é outra coisa: quando a morte deixa de ser uma tragédia e passa a ser apresentada como solução; quando o ser humano desaparece atrás do rótulo “bandido”; quando aquele que praticou um crime deixa de ser alguém que deve responder por seus atos e passa a ser considerado uma vida que não merece continuar.
É aí, caboco, que a conversa fica mais séria. Porque “bandido bom é bandido morto” não é apenas uma opinião sobre segurança pública. É também uma ideia sobre o ser humano. Ela pressupõe que há pessoas irrecuperáveis, indivíduos que perderam definitivamente o direito de voltar a conviver em sociedade.
O criminoso deixa de ser Renan, Romeu ou Eduardo, deixa de ser filho, pai, irmão ou vizinho, e passa a ser apenas “o bandido”. Primeiro vem o rótulo; depois, a desumanização; por fim, a aceitação de que sua morte seria uma solução. É um mecanismo antigo da humanidade: dividir o mundo entre “nós” e “eles”, entre os que merecem proteção e os que podem ser descartados. E quando uma sociedade começa a decidir que algumas vidas valem menos que outras, talvez o problema já não esteja apenas nas ruas. Pode estar também dentro de nós.
Mas existe uma frase que proponho colocar ao lado daquela: “bandido bom é bandido reabilitado”. Não porque eu seja ingênuo a ponto de acreditar que todo criminoso pode ser recuperado. Há criminosos perigosos, violentos, reincidentes, pessoas que precisam ser afastadas da sociedade para proteger as demais.
A vítima vem antes do criminoso, e isso precisa ser dito sem rodeios. Reabilitar não significa perdoar automaticamente, passar a mão na cabeça ou esquecer o crime. Significa acreditar que responsabilidade e transformação podem caminhar juntas.
O sujeito deve responder pelo que fez, cumprir a pena determinada pela Justiça e, quando houver possibilidade, receber condições para não voltar a delinquir. Afinal, se a prisão apenas retira o indivíduo da rua e o devolve à sociedade mais violento do que entrou, que tipo de segurança estamos produzindo?
Talvez a diferença entre as duas frases revele duas concepções de humanidade. “Bandido bom é bandido morto” parte da ideia de que há pessoas que devem ser eliminadas. “Bandido bom é bandido reabilitado” parte da possibilidade de que alguém possa mudar. A primeira encerra a história do indivíduo naquilo que ele fez. A segunda admite que o ser humano pode ser maior do que o pior ato de sua vida. E aqui não estou falando apenas de filosofia. Estou falando de política pública.
Porque uma sociedade que deseja menos crimes precisa discutir não somente o que fazer com quem comete o crime, mas também o que fazer para que menos pessoas cheguem até ele.
Lerdeza do Estado
E é nesse ponto que o Estado entra na conversa, caboco. Quando uma criança nasce em um lugar onde a escola é precária, o posto de saúde não funciona, não há esporte, cultura ou lazer, o mercado de trabalho é quase inexistente, a violência doméstica é cotidiana, as organizações criminosas controlam o território, as armas circulam com facilidade e o Estado aparece principalmente quando chega a polícia, seria absurdo dizer que essa criança está condenada ao crime.
Milhões de brasileiros atravessam condições dificílimas e permanecem honestos. Há dias, a TV mostrou um gari que achou uma bolsa com documentos e mais de 200 reais e buscou o dono. Devolveu. A pobreza não fabrica automaticamente criminosos. Mas também seria ingenuidade acreditar que essas condições não influenciam as trajetórias humanas. O Estado não causa cada crime individualmente, mas pode prevenir, reduzir, ignorar ou agravar as condições que favorecem a criminalidade.
É por isso que não me convence a ideia de que segurança pública começa quando a polícia chega. Segurança começa muito antes. Começa na primeira infância, na escola, na família, na urbanização, na iluminação pública, no esporte, na cultura, no trabalho, na investigação policial, na Justiça que funciona e no sistema prisional que não entrega jovens às organizações criminosas.
Quando o Estado chega antes do crime, pode chegar como professor, médico, assistente social, treinador, urbanista, agente de emprego. Quando chega depois, muitas vezes chega de farda, com arma e mandado. Não podemos escolher entre educação e polícia, porque uma sociedade segura precisa das duas. A questão é saber se estamos utilizando a polícia como última barreira ou como substituta de todas as outras políticas públicas que não conseguimos fazer funcionar.
E aqui aparece uma pergunta que talvez incomode mais do que “bandido bom é bandido morto”: se um criminoso responde pelo crime que praticou, quem responde quando o Estado, tendo o dever e os meios para reduzir determinadas condições de violência, deliberadamente deixa de fazê-lo?
Calma, caboco. Não estou dizendo que todo governante incompetente é criminoso. Má gestão, incompetência, omissão política e crime são coisas diferentes. Para existir responsabilidade penal, é preciso haver uma conduta enquadrada na lei e os elementos jurídicos necessários para caracterizá-la. Mas existe também responsabilidade política e moral. Um governante pode não ser criminoso e, ainda assim, ser politicamente responsável por escolhas que agravaram uma situação que poderia ter sido enfrentada.
Discurso de matar
E isso nos leva aos discursos que começam a tratar a morte como parte ordinária do jogo político. Renan Santos, candidato à Presidência em 2026, tem defendido uma política de segurança inspirada em parte no modelo de Nayib Bukele e chegou a afirmar: “ou prende, ou mata” e “reagiu, morreu”. Em outro momento, ao falar sobre uma eventual operação contra organizações criminosas, afirmou que “matar alguém se necessário, faz parte do jogo”. Aqui, caboco, há algo que merece nossa atenção: a morte deixa de aparecer como uma tragédia excepcional e passa a ser incorporada ao vocabulário cotidiano da política de segurança.
Romeu Zema representa uma posição diferente, mas igualmente importante para esta discussão. Ele declarou ser favorável à pena de morte para determinados crimes, citando serial killers e estupradores reincidentes, e já apontou El Salvador como referência para políticas de combate à criminalidade. Zema chegou a visitar o país para conhecer as estratégias de segurança de Nayib Bukele. Defender a pena de morte não é automaticamente defender a banalização da vida; é uma posição jurídica e política específica. Mas quando a morte passa a integrar o repertório das soluções apresentadas ao eleitor, precisamos perguntar que ideia de Justiça estamos construindo.
Bukele, aliás, merece uma conversa sem torcida organizada. El Salvador conseguiu uma redução extraordinária dos homicídios e tornou-se referência mundial para setores que defendem políticas de segurança mais duras. Mas seu modelo também envolve encarceramento em massa - evidentemente nunca para crimes de colarinho branco - estado de exceção e restrições a garantias jurídicas, além de denúncias de violações de direitos humanos.
A pergunta não é simplesmente se Bukele conseguiu reduzir a criminalidade. Os números precisam ser considerados. A pergunta é: quanto de liberdade, devido processo e controle sobre o poder estamos dispostos a entregar em troca da promessa de segurança? E, mais importante ainda: se aceitarmos que o Estado pode ultrapassar determinados limites para combater o criminoso, quem vigiará o Estado quando ele próprio ultrapassar esses limites?
Fé e política
Mas, caboco, no Brasil brasileiro, há outra pergunta que precisamos fazer antes de qualquer uma dessas: o que o cristianismo pensa sobre uma vida que cometeu um crime? Essa questão me parece especialmente necessária num país onde a religião e a política caminham tão próximas e onde existem muitos líderes religiosos que apoiam candidatos e projetos políticos identificados com uma política de segurança mais dura.
Não estou dizendo que um cristão não possa ser conservador, apoiar Bolsonaro, defender polícia, prisão, legítima defesa ou uma política rigorosa contra o crime. Seria uma caricatura dizer isso. O cristianismo não é incompatível com a existência da autoridade, da Justiça ou do Estado. O próprio apóstolo Paulo reconhece, em Romanos 13, a autoridade estatal como instrumento de contenção do mal. A questão é outra: pode um cristão transformar a morte do criminoso em objeto de celebração?
A pergunta é incômoda porque o Evangelho não parece oferecer muito conforto para quem acredita que algumas pessoas deixam de ter valor por causa do que fizeram. Jesus diz em Mateus:
“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.
Não é uma frase fácil de colocar ao lado de “bandido bom é bandido morto”. E, na cruz, Jesus está entre dois criminosos. Um deles reconhece sua condição e pede: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”. E Jesus responde: “Hoje estarás comigo no paraíso”. O criminoso continua sendo criminoso. O crime não desaparece. A vítima não deixa de existir. A Justiça humana não é anulada. Mas aquela pessoa não deixa de ser humana aos olhos de Cristo.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contradições do nosso tempo. Há cristãos que defendem a vida desde a concepção, condenam o aborto, falam em família, moral e valores cristãos, mas, em alguns casos, encontram dificuldades para aplicar o mesmo princípio de dignidade à vida de alguém que cometeu um crime.
Não estou dizendo que todos sejam assim. Longe disso. Há inúmeros religiosos que defendem segurança pública e, ao mesmo tempo, rejeitam a vingança e a execução. Mas quando um cristão celebra a morte de alguém simplesmente porque esse alguém foi classificado como “bandido”, deveria fazer a si mesmo uma pergunta desconfortável: o que aconteceu com o mandamento de amar o próximo? O que está acontecendo comigo?
E talvez alguém responda: “Mas Jesus não conheceu a violência das facções, dos sequestros, dos estupros, dos assassinatos cometidos por organizações criminosas”. É verdade. Mas conheceu a violência humana. Conheceu o Estado que executava. Conheceu o medo, a perseguição, a tortura e a morte. E, mesmo diante da própria execução, não transformou o carrasco em uma vida sem valor. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, registra Lucas. O cristianismo pode defender a autoridade e a Justiça, mas sua ética não parece autorizar a transformação do inimigo em objeto de ódio.
Por isso, quando vejo pastores declaradamente alinhados a políticos que utilizam uma retórica de confronto, penso que a pergunta não deveria ser apenas “em quem esse pastor vota?”. A pergunta deveria ser: como ele concilia sua escolha política com os valores que ensina no púlpito? Um pastor pode apoiar Bolsonaro, Lula, Zema, Renan Santos ou qualquer outro candidato. O voto é uma escolha política. Mas o Evangelho não deveria ser obrigado a caber dentro do programa eleitoral de ninguém.
Vingança ou reconciliação?
E aqui Gandhi e Mandela entram à nossa conversa. Gandhi liderou uma das maiores lutas anticoloniais da história defendendo a resistência não violenta. Mandela é mais complexo: participou da criação do braço armado do Congresso Nacional Africano e aceitou a luta armada diante da repressão do apartheid. Mas, quando o regime caiu, não fez da vingança contra seus antigos inimigos uma política permanente de Estado. A África do Sul criou a Comissão da Verdade e Reconciliação. Não é preciso transformar Mandela em santo para reconhecer a diferença entre lutar contra um sistema opressor e transformar a eliminação do inimigo em princípio permanente de governo.
E talvez os países nórdicos também tenham alguma coisa a nos ensinar. Não porque sejam sociedades perfeitas, nem porque tenham descoberto uma fórmula mágica contra o crime, mas porque possuem instituições sociais mais robustas, menor desigualdade e níveis elevados de confiança social, além de sistemas de proteção que atuam antes que determinados problemas se transformem em tragédias.
O Brasil enfrenta desigualdade profunda, crime organizado, circulação de armas, fragilidades institucionais e problemas históricos de impunidade. A diferença não pode ser explicada dizendo simplesmente que “o brasileiro é violento”. Sociedades produzem ambientes que podem estimular ou conter determinados comportamentos. E o Estado tem enorme influência sobre esses ambientes.
Então talvez a pergunta mais importante não seja “bandido bom é bandido morto ou reabilitado?”. Talvez seja: como fazemos para que menos pessoas precisem chegar ao ponto de escolher o crime? Porque matar um criminoso resolve aquele criminoso. Prender um criminoso impede, durante determinado período, que ele esteja nas ruas. Reabilitar um criminoso pode impedir que ele volte a delinquir.
Mas prevenir a trajetória criminal é uma vitória ainda maior. É evitar uma vítima, uma família destruída, uma criança sem pai, uma mãe diante de um caixão, um policial que não volta para casa e uma sociedade que vai se acostumando a contar cadáveres como quem conta gols em uma tabela.
Dizemos que queremos uma sociedade segura, mas frequentemente discutimos segurança apenas depois que alguém morreu. Dizemos que defendemos a vida, mas algumas vezes só nos lembramos dela quando a vítima pertence ao nosso grupo. Dizemos que queremos Justiça, mas confundimos Justiça com vingança. Dizemos que somos contra a violência, mas celebramos a violência quando ela atinge quem consideramos inimigo.
E acredito que seja exatamente aí que começa a banalização da vida: não quando alguém mata, mas quando nós aprendemos a olhar para a morte do outro e pensar que ela não tem importância.
Eu não sei, caboco, se existe sociedade capaz de eliminar completamente a violência. A história humana parece dizer que não. Mas acredito que existe uma diferença enorme entre uma sociedade que aceita a violência como destino e outra que trabalha para reduzi-la. Entre uma sociedade que pergunta quantos bandidos conseguiu matar e outra que pergunta quantas crianças conseguiu impedir que fossem recrutadas pelo crime. Entre uma política que chega depois do cadáver e outra que chega antes da tragédia. Entre o Estado que apenas pune e o Estado que também previne.
No fim das contas, talvez “bandido bom é bandido morto” seja uma frase fácil demais para um problema difícil demais. Porque matar é definitivo, mas não necessariamente resolve as causas da violência. Reabilitar é mais difícil, mais caro e mais demorado. Prevenir é ainda mais difícil, porque não rende fotografia de operação policial nem discurso de palanque.
E é justamente por isso que devêssemos exigir mais de quem pretende governar o Brasil. O criminoso deve responder pelo crime que cometeu. O Estado deve responder pelo dever que descumpriu. O governante deve responder, diante da sociedade, pelas escolhas que fez. E o cristão, antes de comemorar a morte de alguém, talvez devesse lembrar que o homem que estava ao lado de Jesus na cruz também era chamado de criminoso.
Porque uma sociedade verdadeiramente civilizada não deveria perguntar apenas quantos criminosos conseguiu matar. Deveria ter coragem de perguntar quantas pessoas conseguiu impedir que se tornassem criminosas — e quantas vidas conseguiu salvar sem precisar escolher quem deveria morrer.