CRÔNICAS

O Testamento de Judas (versão 2026)

Em: 06 de Abril de 2026 Visualizações: 657
O Testamento de Judas (versão 2026)

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

1.

Eu sou Judas, caboco velho,

traidor de profissão.

Todo ano levo peia

no meio da multidão.

Mas antes da surra eu falo:

escuta aí, meu irmão.

2.

Não deixo ouro nem nada,

nem promessa de eleição,

só herança envenenada

pra lascar essa nação.

É presente que não presta,

mas ninguém larga, não.

3.

Pro gringo metido a dono,

que invade sem permissão,

deixo mapa da Venezuela

todo riscado de avião.

Rouba, prende presidente

e chama isso de “missão”.

4.

Ao xerife do planeta,

Donald Trump em expansão,

que apoia guerra alheia

em nome da proteção,

deixo um Oriente em chamas

e um barril de contradição.

(Israel com respaldo,

Irã na mira do canhão…

paz virou commodity

na bolsa da destruição.)

5.

Ao mesmo que ameaça o mundo

com guerra e negociação,

deixo o Irã sitiado

e o petróleo em convulsão.

Pra aprender que toda guerra

cobra em sangue e inflação.

6.

Pro cabra do ICE ligeiro,

que deporta sem pensar,

deixo ele sem documento

numa fila pra chorar.

Pra ver se aprende na pele

o que é não ter pra onde voltar.

7.

A quem embarga país pobre

com discurso de sanção,

deixo prateleira vazia

e remédio em extinção.

Pois bloquear uma nação

também é forma de agressão.

8.

Ao banqueiro engenhoso

Daniel Vorcaro em construção,

e ao seu Banco Master de ocasião,

deixo conta sem lastro

e lucro sem explicação.

E de brinde vai um jatinho

pra passeio de eleição.

9.

Ao deputado ligeiro

Nikolas Ferreira em excursão,

que passeia em avião

com cheiro de relação,

deixo CPI no colo

e pergunta sem edição.

10.

Aos que odeiam na tribuna

mas pedem voto na eleição,

deixo o eco das falas

contra Erika Hilton e Duda Salabert na sessão.

Pra aprender que preconceito

também cobra exposição.

11.

A quem quer vender rio

como ativo em licitação,

deixo o Rio Tapajós seco

e o povo sem proteção.

Pois privatizar a vida

é crime em qualquer versão.

12.

Ao país que naturaliza

a morte em repetição,

deixo o aumento do feminicídio

marcado no coração.

Pra ver se a dor das mulheres

vira pauta — não só estatística, não.

13.

Ao banco estatal confuso

e seus casos em mutação,

deixo o Banco de Brasília

em eterna explicação.

Com contrato mal contado

e auditor em procissão.

14.

Ao capitão recolhido

Jair Bolsonaro em reclusão,

deixo tornozeleira frouxa

e saudade de eleição.

Pra lembrar que toda história

tem volta — e prestação.

15.

Ao herdeiro apressado

Flávio Bolsonaro em ascensão,

que bajula o estrangeiro

como forma de projeção,

deixo um espelho nacional

sem legenda e sem tradução.

16.

Pros saudosos da farda

que pedem intervenção,

deixo fila, censura

e porrada sem explicação.

Pra ver se gostam mesmo

quando a ordem vira opressão.

Quer ditadura de volta?

Então segura a lição:

quem bate palma pra golpe

depois apanha calado — sem direito a reclamação.

17.

Ao pré-candidato firme

Ronaldo Caiado em missão,

deixo palanque instável

e promessa em revisão.

18.

À mídia que apresenta

verdade em PowerPoint de ocasião,

deixo slide sem fonte

e vergonha na exibição.

Pois manchete sem lastro

também é manipulação.

19.

Ao governador que disse

“fico” — mas saiu na contramão,

Wilson Lima na contradição,

deixo legado invisível

e marca em branco na gestão.

20.

Ao mesmo que nada fez

no Amazonas em sua mão,

deixo páginas vazias

no livro da administração.

21.

Ao prefeito que sonha alto

David Almeida em projeção,

que bagunçou a cidade

e quer subir de escalão,

deixo a conta da Manaus

pra cobrar na próxima eleição.

22.

E junto vai a suspeita

de contrato e corrupção,

pra lembrar que cargo público

não é balcão de transação.

23.

À praia que virou risco,

Ponta Branca em contaminação,

deixo água imprópria

e vergonha na inspeção.

Pois até o banho virou

ato de investigação.

24.

E ao povo — sempre o povo —

que aguenta sem reação,

deixo o ciclo infinito

de erro, voto e decepção.

Pois quem vende consciência

compra a própria prisão.

25.

E eu, Judas, me despeço

sem pedir absolvição,

porque hoje eu sou pequeno

perto dessa multidão.

Tem mais traidor na praça

do que santo na procissão.

26.

Agora podem me malhar,

cumprir tua tradição…

mas olha bem pra tua volta

antes de levantar a mão.

Vai que o Judas esse ano

tá mais perto do que imaginação.

Testamentos de anos anteriores:

Já é tradição: testamentos de anos anteriores:

2023 – O Testamento verde-amerelo do Judas.

https://www.taquiprati.com.br/cronica/1688-o-testamento-verdeamarelo-do-judas

2021 – O Testamento de Judas na Pandemia

https://www.taquiprati.com.br/cronica/1575-o-testamento-de-judas-na-pandemia

2017 -O Testamento de Judas e o Serra Velho

https://www.taquiprati.com.br/cronica/1334-o-testamento-de-judas-e-o-serra-velho

2010 -O Testamento de Judas no Brasil 

https://www.taquiprati.com.br/cronica/855-testamento-de-judas-no-brasil-2010-

2009 – Lula, Cristo, Judas e as alianças políticas

https://www.taquiprati.com.br/cronica/48-lula-cristo-judas-e-as-aliancas-politicas

2008 – O Testamento de Judas - https://www.taquiprati.com.br/cronica/93-o-testamento-do-judas-2008

2006 – O Judas amazonense no manuscrito de Urucurituba

https://www.taquiprati.com.br/cronica/195-o-judas-amazonense-no-manuscrito-de-urucurituba-

2004 – O Testamento do Judas

https://www.taquiprati.com.br/cronica/294-o-testamento-do-judas-2004

2001 – O Testamento de Judas  

https://www.taquiprati.com.br/cronica/323-o-testamento-de-judas-2001

1987 – O Testamento de Judas (censurado)

https://www.taquiprati.com.br/cronica/652-o-testamento-de-judas-1987--censurado

 

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1 Comentário(s)

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Douglas Pôrto comentou:
07/04/2026
Fantástico, olha essa resenha em forma de rap — um verdadeiro passeio histórico e político, super atual, verdadeiro, consubstanciado a uma figura que sempre foi muito atacada - JUDAS, e hoje nem parece ser uma pessoa tão repugnante quanto o que nós temos enfrentado ou que tem estado ao nosso redor. É como pensar em Satanhyaru e no estadunidense Cenourão — e não ver tanta diferença do alemão de bigodinho, dos holocaustos de outrora. Texto elaborado com muita perspicácia, e muita habilidade e boa conexão com a realidade atual.".
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