CRÔNICAS

Kassio: o cafofo de Deus e a maloca Tarumã

Em: 11 de Abril de 2021 Visualizações: 2357
Kassio: o cafofo de Deus e a maloca Tarumã

“Deus, oh Deus! Onde estás que não respondes?”

Castro Alves. Vozes d’África. 1876

Diante da tragédia do coronavirus, o Brasil se pergunta: afinal, onde está Deus? Quem respondeu no séc. XVII foi Karabaina, cacique Tarumã, com argumentação sólida capaz de desmontar a xaropada do ministro do STF, Kássio Nunes, para quem templos e igrejas devem permanecer abertos em plena pandemia, porque só assim os fiéis podem encontrar Deus lá no seu cafofo. Os nove ministros do Supremo derrubaram esta decisão genocida na quinta (8), mas - data vênia – eles teriam reduzido Kássio a subnitratus pulvis peidorum, se tivessem traduzido a fala do cacique para o latim, depois de situar historicamente esse povo de fala Arawak e o uso que fizeram do catecismo.

Habitantes da margem esquerda do rio Negro, zona Oeste de Manaus, os Tarumã eram refinados ceramistas e exímios “fabricantes de ralos de mandioca”. Mas - oh desgraça! - “os estrangeiros chegaram” ou, em língua tarumã, “madakina wanicú”, como registrou Loukotka, linguista tcheco que dedicou a vida a buscar em arquivos documentos sobre línguas indígenas. Os primeiros forasteiros foram os missionários jesuítas, que ensinaram a língua geral e o catecismo aos Tarumã, logo substituídos pelos carmelitas.

O trocano

O catecismo é um gênero literário usado pelas ordens religiosas com diferentes versões em língua geral elaboradas por autores diversos: Anchieta (séc. XVI), Araújo (1618), Bettendorff (1687) entre outros, analisados por Cândida Barros e Ruth Monserrat em Notas sobre um catecismo manuscrito na língua geral “vulgar” da Amazônia (séc. XVIII). O modelo de todos eles foi aquele escrito em português, em 1566, pelo jesuíta Marcos Jorge – Doctrina Christã ordenada à maneira de Diálogo pera ensinar os mininos. Tinha o formato textual de diálogo com perguntas e respostas destinadas a adultos “rudes” e crianças.

Os poucos catecismos escritos em línguas particulares seguiram o mesmo modelo como a Doutrina Christãa na Língua Brasílica da Nação Kiriri, (sec. XVII) que vivia às margens do rio São Francisco e o Caderno da Doutrina pella lingoa dos Manaos (séc. XVIII), vizinhos dos Tarumã do rio Negro, composto com “algumas palavra nam mui alegantez” na opinião do índio que auxiliou na tradução. Eles eram destinados aos novos missionários para que pudessem atuar com mais eficácia na catequese.

O catecismo levado aos Tarumã na sua versão menor abreviada indagava na primeira pergunta:

- “Quem é Deus”?

Os Tarumã repetiram diariamente durante três anos:

- “Deus é um espírito perfeitíssimo, eterno, criador do céu e da terra".

Depois que haviam decorado essa e dezenas de questões, de cor e salteado, foram convidados pelo missionário a “descer” para um “aldeamento de repartição” em Belém do Pará. Mas os Tarumã sabiam o que os esperava lá. As notícias corriam celeremente pelos rios em canoas e através do som do trocano – uma tora de madeira escavada -  que podia ser ouvido em malocas situadas a 12 kms de distância. E o que lhes dizia esse “telégrafo indígena”?

Dizia, em outras palavras, que o “descimento” era uma forma de recrutar a força de trabalho indígena. Os missionários convenciam as comunidades a “descerem” de suas aldeias de origem para os “aldeamentos de repartição” próximos aos centros coloniais. Lá, os indígenas “descidos”, falantes de diferentes línguas, eram comandados por um colono ou missionário com o título de “capitão da aldeia”, encarregado de “repartir”, de distribuir os índios aos diversos agentes coloniais num sistema de trabalho compulsório.  Perdiam assim a autonomia e o controle sobre sua organização social que se esfacelava.

Dá ou desce

Os que de lá fugiam relatavam aos demais as condições infernais de trabalho dos índios “repartidos”, sem pausas nos domingos e dias santos, sem tempo para descanso, com jornada de 14 e até 16 horas. Era “um trabalho excessivo e nele muitos morrem” – testemunhou o padre Antônio Vieira. Há registro de “ombros esfolados e em carne viva” de índios que carregavam pesados troncos de madeira para exportação.

Por isso, os Tarumã se recusaram a “descer”. Diante do argumento do missionário de que no “aldeamento de repartição” eles estariam perto de Deus e poderiam receber assistência espiritual dos padres, o cacique Karabaina ensinou Pai-Nosso a vigarista, citando a segunda pergunta do catecismo com a respectiva resposta:

- Onde está Deus?

- Deus está no céu, na terra e em toda parte.

- Padre – ele disse – a gente aprendeu no catecismo quem é o Deus de vocês que agora é também o nosso. Vocês ensinaram que Ele está em todos os lugares, em Belém, mas também aqui na nossa aldeia. Então, a gente fica com Deus, mas aqui na nossa maloca.

O missionário ficou com aquela cara boboca do Kássio Nunes. Bo-bo-ca, como silabou didaticamente uma militante do Grotão para ninguém duvidar que se dirigia a sementes de bolsominions.

Com a recusa de “descer”, a cruz cedeu lugar ao canhão. A “guerra justa” comandada por Pedro da Costa Favela, entre 1665 e 1669, massacrou os Tarumã. Quem sobreviveu e não fugiu, trabalhou como escravo na construção do Forte de São José do Rio Negro, origem de Manaus. Em 1690, Samuel Fritz viu o cacique Karabaina “condecorado” com cicatrizes no corpo, marcas das violências sofridas, conforme conta John Hemming em “Red Gold”, usando imagem do padre Vieira para denominar o ouro vermelho que era a maior riqueza do Grão-Pará: o sangue indígena explorado na produção de riqueza.

Começou, então, o longo êxodo dos sobreviventes. Eles subiram o rio Negro, numa longa marcha de 2.000 km, que durou mais de um século. Foram parar na Guiana Inglesa, onde vivem até hoje, conscientes de que o discurso religioso colonial usava Deus como pretexto para extrair deles um sobretrabalho responsável por tanto sofrimento e tantas mortes. É isso que Kássio Nunes fez agora.  

Sacanagem espiritual

A lição dos Tarumã está implícita na fala do teólogo Antônio Carlos Costa, pastor da Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro e autor do livro “Convulsão Protestante: quando a teologia foge do templo e abraça a rua”. Em entrevista a Regiane Soares da Folha de SP (9/4), ele declarou que o argumento da liberdade de culto usado para abrir templos na crise sanitária é um “infantilismo espiritual”. Na realidade é mais do que isso: é uma “sacanagem espiritual”, um atentado à vida, que obriga o uso de transporte público e a aglomeração dos fiéis, aumentando o risco de contaminação.  

- “Para nós, cristãos, -  disse o pastor - o verdadeiro culto a Deus não se dá dentro das chamadas quatro paredes da igreja. O verdadeiro culto a Deus tem relação estreita com o modo de viver [...] subindo morro para levar comida aos desempregados, telefonando para amigos endividados, trazendo palavras a pessoas que caíram em depressão em razão do risco de morte ou por ter perdido um ente querido”.

Por que Kassio Nunes usou esse argumento furado para empurrar tanta gente para o cemitério na fase mais crítica da pandemia, com mais de 4 mil mortos por dia? Por razões políticas para agradar quem o nomeou e manter sua base eleitoral? Por razões econômicas? O pastor Antônio Carlos não descartou essas razões:

- Não resta dúvida, conhecendo parte da liderança religiosa evangélica no país, nós somos levados a crer que há muita preocupação com a arrecadação da igreja. Eles sabem que [com os templos fechados] não têm à sua disposição os recursos psicológicos para manipular pessoas e delas arrancar dinheiro”.

No passado, os aldeamentos de repartição queriam lucrar com o trabalho dos Tarumã. Hoje se quer arrancar o dízimo, que permite o bispo Macedo atacar a imunização e viajar para ser vacinado em Miami.

O deus de Kássio Nunes é o mesmo do vereador Jairinho. Em diálogo com Marcelo Crivella que viralizou nas redes, o covarde assassino de uma criança de quatro anos invoca a deus para esconder crimes hediondos. Quando é que as ovelhas desses pastores vão poder perceber aquilo que o cacique Karabaina viu com tanta nitidez?

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23 Comentário(s)

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Sérgio Roberto Costa Costa comentou:
14/04/2021
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Sírio Possenti comentou:
14/04/2021
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Rodrigo Martins comentou:
14/04/2021
Excelente crônica professor. Eu quando li o ótimo livro "Rio Babel" que o senhor escreveu, confesso que tomei ranço do Padre Antônio Vieira, achei ele um padre muito malvado. A resposta do cacique Karaibana foi muito feliz, deixou o padre sem reação. Por falar na temática indígena, recomendo a todos o documentário "falas da terra" que passará na rede globo após o BBB 21. Ele mostrará 21 depoimentos que falarão sobre as diversas culturas, línguas, costumes, além de tentar quebrar esse esteriótipo do índio congelado que muitas pessoas ainda possuem em pleno século XXI. Acompanho como hobby audiência de televisão aberta desde 2006 (pois como gosto de futebol queria saber quantos pontos o Vasco dava e da na audiência e acabei pegando o hábito de acompanhar os números dos outros programas e de todas as emissoras) e achei bacana a Rede Globo colocar o documentário com uma temática tão importante no horário nobre e logo após o programa de maior audiência da atualidade que é o BBB (o único programa ao vivo e inédito da tv aberta com participantes famosos e anônimos que quase toda a população está acompanhado). Isso será ótimo para o documentário que deverá receber uns 30 pontos de audiência e dará ainda mais evidência para a atração. Cada ponto no Ibope reapresenta em média 75 mil domicílios, multiplicando por 30 pontos= 2.250.000 domicílios. Como em cada residência possui em média pelo menos 3 pessoas, teremos no mínimo 6.750.000 pessoas assistindo, isso só em São Paulo. Esse Ibope que as emissoras usam é de SP que é onde o mercado publicitário paga mais, porém temos a audiência aqui do RJ e dos demais estados, então temos tudo para ter sucesso. Estou na torcida para que o documentário seja um sucesso, além disso o nosso amigo Alberto Alvarez do Proindio estará na produção. Agora posso dizer que tenho um amigo global. Um abraço querido professor! PS: Teaser do “Falas da Terra”: https://www.youtube.com/watch?v=Whm8k5QfLf4
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Salomão Montenegro comentou:
12/04/2021
Templo liberado, Dizimo arrecadado, Fiel entubado, Bispo vacinado. Perfeito.
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Valter Xeu comentou:
12/04/2021
Publicado no Blog PATRIA LATINA - uma voz a serviço da integração dos povos. https://patrialatina.com.br/kassio-o-cafofo-de-deus-e-a-maloca-taruma/
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COMBATE RACISMO AMBIENTAL comentou:
12/04/2021
Publicado no Blog COMBATE RACISMO AMBIENTAL https://racismoambiental.net.br/2021/04/11/kassio-o-cafofo-de-deus-e-a-maloca-taruma-por-jose-ribamar-bessa-freire/
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Serafim Correa comentou:
12/04/2021
Publicado no Blog do Sarafa https://www.blogdosarafa.com.br/kassio-o-cafofo-de-deus-e-a-maloca-taruma/
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Celeste Correa comentou:
12/04/2021
Muito boa a crônica! Uma baita reflexão crítica sobre as atrocidades que fizeram e fazem em "nome de Deus". Quando eu era criança também aprendi no catecismo que "Deus era um espírito perfeitíssimo criador do céu e da terra.". Com o passar do tempo essa resposta não me satisfazia mais. Como o Cacique Karabaina eu também entendi que Deus pode estar na igreja, na maloca, e estar principalmente nos mais vulneráveis., Porém o Deus que acredito não está "acima de tudo" como diz a turma da sacolinha. Ele está no meio de nós, na pessoa do espoliado e do marginalizado. E que me perdoem os "evangelizadores" , mas o Deus de amor passa longe da "igreja" dessa turma que explora a fé alheia e que, em busca de lucro, expõe os seus fiéis a um risco de morte.
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Rey Koening comentou:
12/04/2021
Belo relato histórico, trazendo luz ao debate sobre atitudes boçais como a do ministro Kassio do STF sobre a abertura das igrejas
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Renato Athias comentou:
11/04/2021
Como sempre, Bessa, os teus textos são muito legais. Você toca num ponto importante.... Há várias décadas que estou analisando o termo "diabo" no uso das línguas indígenas, principalmente na região do alto Rio Negro. Bem da verdade, são os famosos catecismos que moldaram certas noções no contexto da catequese. Mais recentemente, lendo o autor do Poranduba Amazonense" João Barbosa Rodrigues, ele apresenta os termos sobre a tradução da palavra Jurupary para o português como  "diabo" . Ele mostra a grande influência dos missionários na criação desse personagem que justamente não tem nada ver com o Jurupary da mesma como os catecismos escritos em guarani que criaram outras aberrações conceituais no entendimento das relações transcendentais. Parabéns!
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Custodia Axiotelis comentou:
11/04/2021
Esse André Mendonça está já mostrando para o que veio.
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José Guimarães comentou:
11/04/2021
o Cara de coroinha que rouba as ofertas dos fiéis e bebe o vinho do padre.
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Dinho Rousseff comentou:
11/04/2021
Tem que dizer para ele que o Brasil é um país cristão, católico por tradição e que os evangélicos não representam todos os brasileiros. Eles representam no máximo meia dúzia de charlatães da fé, de falsos profetas, mercenários do Templo, que usam a religião para enriquecer às custas da exploração da ignorância e do desespero dos fiéis incautos, dispostos a comprar milagres e lotes no céu... Ah, e para finalizar, a cereja no bolo: o Brasil é um país LAICO e os cientistas e as pessoas sensatas não irão permitir os cultos, porque o descuido deles pode matar gente nossa.
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Regina Albino comentou:
11/04/2021
Não libera porque os médicos enfermeiros não aguenta mais É Não igreja fechada!
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Sonia Regina Sales (via FB) comentou:
11/04/2021
Acho loucura liberar..o povo ama aglomeram...isso vai dar ruim
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Alexandre Rodrigues comentou:
11/04/2021
O oessoal da ;area juridica gosta de arrotar latim para enrolar a gente. Subnitratus pulvis peidorum é ótimo
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Ana Silva comentou:
11/04/2021
Bessa, ckmo sempre, preciso e cirúrgico! Parabéns pela excelente crônica.
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André Lázaro comentou:
11/04/2021
Parabéns amigo! Claro, firme e certeiro, como bom xamã.
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
10/04/2021
Muito bom seu texto! E o Kassio conka vai mostrar na quarta de novo de quem é serviçal votando contra a CPI. Vai levar de novo surra do Gilmar
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Tenorio Telles comentou:
10/04/2021
: Professor, Que belo texto. Como o passado continua desafiando o presente.
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Joaquim Barbosa comentou:
10/04/2021
Leio teus textos, divirto-me e aprendo com eles. São de uma qualidade ímpar.
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Loyua comentou:
10/04/2021
Prof, a raiva é tamanha diante de tanta falta de amor, humanidade, consciência, mortes... Kassio com k representa e manipula uma parcela da sociedade brasileira. Não perco a fé de que um dia o Brasil será direcionado politicamente por um cacique Karabaina.
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Leila Martins Leong comentou:
10/04/2021
Uma bela aula de História. Obrigada
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