.Publico carta que me foi enviada pelo deputado Joaquim Corado, criticando a crônica O Direito Romano e os Maiores Infratores de 25/04/1995.
“Manaus, 2 de maio de 1995
Sr. Articulista José de (sic) Ribamar Bessa Freire,
A sua coluna publicada no matutino A CRÍTICA, no dia 25 próximo passado, (...) bem mostra a sua personalidade, acha-se dono da verdade e faz deboche até da existência divina.
Se quer prestar benefício ao Amazonas, sendo mais um defensor dos interesses desta terra, deixe o Rio de Janeiro e venha conhecer melhor e participar construtivamente da nossa realidade atual. É muito cômodo acusar de longe, baseado apenas em informações distorcidas e tendenciosas. É preciso que a população saiba que tais críticas jocosas, de jornalismo ultrapassado, são feitas em plena praia do Leblon e enviadas via fax (...)
Criticar é fácil. Esta é a postura mais cômoda, para quem não tem profundidade da situação real do Estado, pois ao desconhecê-la, não consegue visualizar alternativas que venham melhorar a situação das pessoas que, talvez, em estado de inocência, conseguem achar alguma “graça” daquilo que você escreve.
Por que preferiu a Cidade Maravilhosa, abandonando a ‘Selva Amazônica’, despresando (sic) viver a nossa realidade e se omitindo em dar sua contribuição, neste momento em que a sociedade brasileira exige e vem participar de forma objetiva e construtiva?(...)
Sr. Articulista, é certo que as generalizações nascem uma das outras (sic) e direitos humanos, como bem exclamou V. Sa. não pode (sic) existir sem uma condicionante fundamental: respeito ao próximo.
Segue em anexo, via Correio, cópias das Certidões Negativas emitidas pelo Juízo Eleitoral da 65ª Zona e da Justiça Federal, das quais consta a não existência de Processo de Crime Eleitoral contra a minha pessoa (...). Em nome da Justiça, será que, sempre que pessoas competentes e descompromissados (sic) de interesses outros que não seja (sic) o bem da coletividade, quando se destacam causam descontentamento a outrem?
Hoje, longe desse ‘egoísmo’ quase altista (sic), a sociedade é consciente que a liberdade deve ter uma causa mais ampla”.
O texto, cujos grifos são meus, termina com a assinatura do “Dep. Joaquim Corado, 2º Secretário-ALE/ Líder do PRP” (vixe vixe). Na transcrição, mantive a absoluta fidelidade ao original, suprimindo, por falta de espaço, apenas trechos repetitivos, sem comprometer seu sentido geral.
Último round
Em outra carta, dirigida ao jornalista Umberto Calderaro Filho, Joaquim Corado se queixa da crônica Os Maiores Infratores, afirmando:
“Outro fato de desrespeito ao próximo consiste em detratar fundamentos religiosos daqueles que professam a religião católica, ao usar jocosamente expressões utilizadas nas orações utilizadas nas orações mais respeitadas daquela religião cristã: o Pai Nosso e a Ave-Maria”. Ele prossegue:
“Desta forma, fui duas vezes agredido: como cidadão ao ver meu nome veiculado de forma tão leviana, por uma pessoa desqualificada de razão e que sequer convive em nossa realidade. E como cristão-católico, ao ver desrespeitados dogmas e preceitos de nossa religião”.
Dividi o espaço da coluna, cedendo metade dela para o leitor Joaquim Corado. A outra metade será ocupada pela resposta. Vamos lá? Apertem os cintos, leitores.
Praia do Leblon, 9 de maio de 1995.
Prezado leitor, deputado Joaquim de Corado.
Muito obrigado, de verdade, por sua esclarecedora missiva, o que o situa como fiel leitor da coluna Taqui Pra Ti, junto com Bob Alexandre, L. Wood Bacelar e outras “pessoas em estado de inocência” que riem com aquilo que escrevo. Quero lembrar, no entanto, que em sua carta você não tocou no fundamental e cometeu, no mínimo, algumas imprecisões.
Você me escreve uma carta com mais de 800 palavras e nenhuma delas – nenhuminha! – faz qualquer referência aos fatos registrados na coluna passada. Lá, o prefeito de Amaturá, Francisco Linhares Marinho, acusa você de ter usado o cargo de superintendente adjunto da SUFRAMA para favorecer a Construtora Acari de propriedade da família Corado. Além disso, a eleitora Simone Araújo confessa haver recebido dinheiro para votar 9 vezes em você. Eu me limitei a comentar o que eles denunciaram.
Em vez de peitá-los e afirmar: “vou processar o Chico e a Simone por calúnia e difamação”, você cala sobre esses fatos e para substituir os esclarecimentos que você não prestou, me ataca confusamente, classificando-me de blasfemador e do crime de não morar em Manaus, mas no Leblon, embora lamentavelmente lá eu não resido.
Credo, Corado. Quanta tolice! Em primeiro lugar, você não tem procuração de Deus para defendê-lo, mormente quando Ele não está sendo atacado. Mas se tiver procuração, suponho que seja falsa, não tem firma reconhecida por São Pedro e foi assinada por Simone, aquela dos nove votos noves-fora nada. Joaquim, tu pensas que Deus foi feito à tua imagem e semelhança, sem capacidade de rir? Não, meu amigo, Deus é humor, como canta Chico Buarque: “Deus é um cara gozador” e não usa paletó e gravata.
Em segundo lugar, você acha mesmo que as pessoas devem viver o resto da vida no lugar onde nasceram? Você concorda com a teoria do “Escapole-bate-fica”. Quem nasce em Eirunepé, por exemplo, e dá no pé para ir morar na Ponta Negra, em Manaus, é traidor de sua terra natal? Te aquieta, Corado. Deixa de ser provinciano. Deus não tem domicílio fixo nem aluga apartamento em nenhuma paróquia. Uma pitadinha de cosmopolitismo não faz mal a ninguém.
Posso te chamar de Quincas, mano velho? Então, mano Quincas, vamos supor que você tem razão: sou um blasfemador e traidor do lugar onde nasci. O que é que isso tem a ver com tua fraude eleitoral e o uso do cargo público para enriquecimento ilícito? Mesmo que eu, ex católico da igreja de Aparecida, fosse o próprio capiroto, isso não te inocenta das acusações. São essas denúncias que você tem que responder, Quincas.
- Ah, criticar é fácil — você escreve. Engano seu, meu bom Quincas. Por essa afirmação, logo se vê que você não conhece o ofício do crítico. Não, Quincas, criticar é muito difícil. E perigoso. Você tem que ter lucidez para perceber o que está errado. Depois, tem que ter coragem para gritar com toda força de seus pulmões e habilidade para tornar a crítica eficaz. Você – perdão, você não, que não critica nada nem ninguém – mas aqueles que criticam, acabam arrumando inimizades e criando problemas para si. Não é nada cômodo.
Por isso, Ronaldo, o Tiradentes de igarapé, que pertence ao mesmo partido que você, ouviu os conselhos do seu pai: “Meu filho quem não puxa saco acaba puxando carroça”. O Tiradentes optou, como você, por puxar saco, que isso sim é cômodo. Quincas, você está perplexo, não entende porque é criticado. Numa frase confusamente redigida, já ao final da sua epístola, atribui as críticas ao fato de você ter se “destacado” e, depois ao fato de eu não residir aí. Ora, ora, meu Quincas, por serdes vós quem sois! Destaque por destaque, sou mais o das escolas de samba ou o destaque pedido por deputados federais, por exemplo.
Não te conheço, Quincas Corado.
Só conheço tua escrita. Nunca te vi mais gordo. Nem mais magro. Nunca você me causou qualquer dano pessoal. Juro que desejo para você toda felicidade do mundo! Quero ver minha mãe mortinha no inferno, se estou mentindo. Só critico você e sua curriola pelo mau exemplo que vocês dão à juventude, sujando a vida política de minha terra.
Ultimamente, Quincas, você tem praticado muita indecência. O que criticamos é essa imoralidade, você me entende? Nós não queremos acabar com você, queremos acabar com a indecência que você patrocina, você me entende? Se você deixar de ser imoral, a gente também deixa de te criticar, você me entende? Olha o exemplo do Leonel Feitosa, que pelo menos não se ressarce mais e diz que é contra o aumento da passagem do ônibus.
Finalmente, Joaquim, você precisa prestar mais atenção quando escreve num papel e assina embaixo. Sua carta contém grafias incorretas de algumas palavras e alguns cochilos de sintaxe e de concordância. Será que o desprezo é maior, quando grafado com “s”, como você o fez? Egoísmo quase altista, além de denotar preconceito, deve ser autamente inflacionário. Você não estaria querendo dizer autista, com “u”, meu caro Quincas? Ou será que você está se antecipando à reforma ortográfica?
Habituado a concordar, na vida política, com os poderosos, você não consegue acertar na concordância gramatical. Olha, Corado, o sujeito no plural exige, sempre, o verbo no plural, da mesma forma que um substantivo feminino adora um adjetivo do mesmo gênero. Desta forma, os direitos humanos não podem existir com interesses que não sejam defendidos por pessoas descompromissadas.
Quando os autores são pessoas sem escolaridade, o Poder costuma criticá-los, confundindo inteligência com capacidade de escrever. Não sou xerife da língua como já registrei em crônicas anteriores. No entanto, amigo Corado, você é deputado com formação universitária, como é que tem coragem de enviar uma carta dessa, tão vulnerável, para alguém que você acha capaz de debochar até de Deus? De qualquer forma, valeu. Escreva sempre, viu Joaquim! Você tem o espaço assegurado na coluna, porque é mais engraçado do que eu. Prometo fazer vista grossa à gramática normativa.
Do seu crítico vigilante,
José R. Bessa Freire
Referências:
1. O Direito Romano e os "maiores infratores": https://www.taquiprati.com.br/cronica/510-o-direito-romano-e-os-maiores-infratores
2. Os ladrões de ortografia: o "erro" de português. https://www.taquiprati.com.br/cronica/112-os-ladroes-de-ortografia-o-erro-de-portugues
3. Os xerifes da língua - https://www.taquiprati.com.br/cronica/918-os-xerifes-da-lingua
