Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Verás que um filho teu não foge à luta.”
(Hino Nacional Brasileiro — Joaquim Osório Duque-Estrada. 1909)
Caboco, outro dia, conversando com uma amiga que vou chamar de Esperança, fiquei pensando numa pergunta que parece simples, mas talvez seja uma das mais difíceis que a vida nos faz: o que os pais deixam de herança para os filhos? Não estou falando de casa, terreno, conta bancária ou daquela coleção de dívidas que, no Brasil, às vezes passa de geração em geração com mais eficiência do que o patrimônio. Estou falando de outra herança: a que a gente carrega por dentro.
Tô falando da herança que não cabe no inventário: exemplos, valores, lembranças, medos, afetos, certezas e dúvidas. Deixam histórias que os filhos contam com orgulho e outras que preferem esconder nos armários dos ossos da família. Às vezes, deixam coragem para enfrentar o mundo. Outras vezes, deixam feridas que os filhos passam a vida tentando entender. E, quando os filhos crescem, podem descobrir que amar os pais não significa concordar com tudo o que eles fizeram, assim como discordar deles não significa deixar de amá-los.
Esperança sabe um pouco disso.
Ela votou em Bolsonaro em 2018. Naquela época, compartilhava das convicções políticas e religiosa dos pais. Trabalhava na área da saúde e, durante a pandemia de Covid-19, acompanhou de perto uma realidade que a fez questionar posições que antes lhe pareciam certas. Começou a estudar política, a ler, a procurar explicações. Mudou de opinião. Em 2026, apoiou Lula e fez campanha para o operário desdedado que virou presidente.
Poderia ser apenas a história de uma pessoa que amadureceu politicamente. Afinal, mudar de ideia não é necessariamente sinal de fraqueza. Às vezes, é justamente o contrário: exige coragem admitir que aquilo em que acreditávamos já não resiste ao confronto com a realidade.
O problema é que Esperança continua morando com os pais e depende deles financeiramente. E os pais não aceitaram bem a mudança. O que antes era uma convivência respeitosa passou a incluir insultos, humilhações, ameaças de expulsão e restrições dentro de casa. A mãe, especialmente, passou a tratá-la como uma vergonha para a família.
Não conheço todos os detalhes dessa relação e não seria justo fingir que conheço. Mas há algo particularmente preocupante nessa história: a liberdade de pensamento de uma filha está sendo confrontada com o poder material de quem lhe oferece teto e sustento.
Esperança pode escolher em quem votar, mas ainda não dispõe de condições para exercer plenamente essa escolha sem medo das consequências dentro de casa. Tem autonomia para pensar, mas não conquistou a independência necessária para viver essa autonomia com segurança.
É uma situação que nos obriga a perguntar: de que vale ensinar um filho a caminhar se, quando ele escolhe uma direção diferente da nossa, tentamos impedi-lo de seguir?
Não se trata de exigir que os pais concordem com as escolhas dos filhos. Pais também têm convicções, histórias e razões para acreditar no que acreditam. Podem discordar, argumentar, criticar e até se decepcionar. O problema começa quando a divergência deixa de ser uma questão de ideias e passa a justificar a humilhação, a ameaça ou a retirada do afeto.
Uma família não precisa votar unida para continuar sendo uma família. A urna não deveria funcionar como teste de lealdade filial, muito menos como instrumento de punição doméstica.
Exílios e fugas
Os filhos não são extensões dos pais, muito menos herdeiros obrigatórios de suas ideias. Crescer também é aprender a examinar aquilo que recebemos, preservar o que nos faz bem e ter coragem de abandonar o que já não faz sentido. Se a educação serve para alguma coisa, é para formar pessoas capazes de pensar por conta própria — inclusive quando chegam a conclusões que desagradam a quem as criou.
A história brasileira conhece bem o preço que os conflitos políticos podem cobrar das famílias. Durante a ditadura militar, muitos brasileiros foram perseguidos, presos, torturados e obrigados a deixar o país. Para alguns, o exílio significou sobreviver; para outros, foi a possibilidade de continuar lutando contra um regime autoritário. Mas, junto com os adultos, muitas vezes foram também os filhos.
Crianças tiveram de deixar a casa, os avós, os amigos, a língua e as referências que conheciam. Precisaram aprender a viver em outros países, frequentar novas escolas e compreender, à sua maneira, por que a família estava longe de casa. Algumas talvez tenham sentido orgulho da resistência dos pais. Outras podem ter sentido saudade, medo, raiva ou simplesmente a dificuldade de entender o que estava acontecendo. Não existe uma experiência única do exílio, muito menos uma maneira correta de vivê-lo.
É importante lembrar disso sem romantizar o sofrimento. A coragem política dos pais não elimina o medo, as mortes, a falta de respostas, as perdas e as dores dos filhos. Uma causa justa não torna fácil uma infância interrompida.
Mais de meio século depois, sob a ótica dos filhos, a história parece se repetir. Poucos outros brasileiros deixam, fugindo, o país em meio a conflitos políticos e judiciais. Entre eles estão Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos, Alexandre Ramagem e Carla Zambelli. As situações de cada um, apesar dos comportamentos covardes e aviltantes, são distintas, e não cabe colocar todos na mesma condição jurídica. Mas há uma pergunta que raramente ocupa o centro do debate: e os filhos desses adultos?
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil em outubro de 2026 acompanhado da mulher e das filhas. Eduardo Bolsonaro já vive nos Estados Unidos com a mulher e os filhos. Nos demais casos, as circunstâncias familiares não são necessariamente as mesmas. Não sabemos, em todos eles, como os filhos compreendem o que está acontecendo, o que pensam das escolhas dos pais ou como lidam com a exposição pública de suas famílias.
E talvez seja justamente isso que mereça nossa atenção. Crianças não escolhem as disputas políticas dos adultos e nem o comportamento ético, não decidem os rumos de processos judiciais e tampouco deveriam carregar a culpa pelas decisões de seus pais. Ainda assim, podem precisar mudar de país, deixar para trás amigos, familiares e referências culturais ou crescer sob o peso de um sobrenome que aparece diariamente nas notícia e por vezes de forma vexatória.
Não se trata de equiparar esses casos aos dos brasileiros perseguidos pela ditadura militar, conforme descrito no livro “Crianças e Exílio”. São contextos históricos e jurídicos muito diferentes. Tampouco se trata de presumir que os filhos sintam vergonha dos pais, que os admirem ou que sofram necessariamente com suas escolhas. Cada história familiar tem suas particularidades.
A pergunta, porém, permanece: quando os pais escolhem o caminho que consideram certo, quanto da conta dessa escolha acaba sendo paga pelos filhos?
Afinal, os adultos podem defender suas convicções, enfrentar as consequências de seus atos e justificar publicamente suas decisões. Os filhos, no entanto, não deveriam ser transformados em escudos, instrumentos de propaganda ou herdeiros obrigatórios das batalhas dos pais. Precisam ter o direito de construir a própria história, inclusive de discordar dela.
Essa constatação nos leva a uma questão mais ampla: o que acontece quando os filhos começam a enxergar os pais não apenas como as pessoas que os alimentaram, protegeram e ensinaram a falar, mas também como figuras públicas, com escolhas políticas e atitudes que podem ser questionadas?
Dor com nome e sobrenome
Há, porém, outra maneira de os filhos pagarem a conta das escolhas dos adultos: quando são transformados em instrumentos de disputa política. No Amazonas, a polêmica envolvendo Omar Aziz e Maria do Carmo trouxe essa questão para o centro da campanha eleitoral. Omar acusou a adversária de envolver sua filha em material usado contra ele. Maria do Carmo, por sua vez, negou ter autorizado ou conhecido previamente a publicação. A responsabilidade de cada envolvido precisa ser apurada, mas a controvérsia nos obriga a pensar sobre os limites éticos da disputa política.
Caboco, um político pode ser criticado por suas decisões, cobrado por suas promessas e questionado por sua trajetória. Isso faz parte da democracia. Mas a filha de um político não ocupa cargo público só porque o pai ocupa. Não tem de responder por ele, defender suas escolhas ou servir de instrumento para atingir sua imagem. A criança não escolheu o sobrenome que carrega nem a disputa em que os adultos decidiram se envolver.
O princípio vale para todos. Não podemos condenar a exposição dos filhos dos nossos aliados e achar aceitável quando os atingidos são os filhos dos adversários. Se defendemos que os filhos têm o direito de pensar diferente dos pais, precisamos defender também que não sejam usados para constrangê-los ou atacá-los, não é mesmo Jefferson Coronel?
No fim, a pergunta não é apenas que herança deixamos dentro de casa. É também que exemplo oferecemos em público. Quando a disputa pelo poder faz os adultos esquecerem que há crianças do outro lado, que lição estamos deixando para elas?
Mas a relação entre pais e filhos não se resume às situações em que os mais novos acabam envolvidos nas disputas dos adultos. Há também o momento em que crescem, formam suas próprias convicções e passam a questionar as ideias que receberam em casa. É quando a herança deixa de ser apenas algo transmitido e passa a ser algo que cada um precisa examinar, aceitar ou rejeitar.
Heloísa de Carvalho, filha de Olavo de Carvalho, tornou pública sua divergência em relação às posições políticas do pai. É um exemplo de que o sobrenome não determina, necessariamente, o pensamento de quem o carrega. Mas também seria um erro imaginar que toda divergência entre pais e filhos precisa terminar em rompimento. Há famílias que discutem, discordam e continuam se amando. O problema não é a diferença de opinião. É o que fazemos com ela.
Pais também são seres humanos. Erram, mudam, se contradizem e, às vezes, confundem autoridade com razão, obediência com respeito e discordância com ingratidão. Ter criado alguém não dá a ninguém o direito de controlar para sempre o pensamento dessa pessoa.
E é aí que a herança deixa de ser apenas uma questão familiar e passa a ser uma questão de liberdade. Uma casa pode ser patrimônio, mas também pode virar instrumento de coerção. Uma convicção pode ser uma referência, mas também pode se transformar em imposição. O amor pode acolher as diferenças ou ser usado como moeda de troca: só merece meu afeto quem pensa como eu.
A política brasileira oferece outros episódios que nos obrigam a pensar na responsabilidade dos adultos e nas consequências de suas escolhas para as crianças.
Em 2021, Ana Clara Gomes Machado, de apenas cinco anos, morreu após ser atingida por um disparo durante uma ação policial em Niterói, no Rio de Janeiro. A menina brincava perto de casa com o irmão de dois anos. O policial Bruno Dias Delarolli foi acusado pelo Ministério Público de homicídio, e o caso segue seu percurso judicial. Ele não deve ser tratado como condenado antes de uma decisão definitiva.
O fugitivo Flávio Bolsonaro integrou a defesa jurídica do policial e, em 2024, assinou um recurso contra a decisão que encaminhou o caso ao Tribunal do Júri. Exercer a defesa de um acusado é um direito, e a atuação de um advogado não prova, por si só, aprovação do crime ou indiferença diante da vítima. No entanto, quando esse advogado usa sua posição de senador da República para pressionar o adiamento do Tribuna de Júri, aí o bicho pega.
Este episódio voltou ao debate público em outubro de 2026, quando Lula levou a mãe de Ana Clara, Cristiane Gomes da Silva, a um debate presidencial e questionou Flávio, o trânsfuga, sobre sua atuação no caso. Na ocasião, segundo os relatos publicados, Flávio se dirigiu à mãe pelo nome da filha, confundindo as duas. Cristiane afirmou depois que suas perguntas não haviam sido respondidas e criticou a falta de empatia que percebeu naquele encontro.
Não conheço o que se passava na cabeça de Flávio naquele momento, e não preciso inventar uma intenção para compreender a dimensão humana do episódio. Uma mãe estava diante de um candidato, falando de uma filha que perdeu. Ana Clara não era apenas o nome de um processo judicial, uma peça de debate eleitoral ou um argumento de campanha. Era uma criança, uma filha, alguém que tinha lugar próprio na vida de sua mãe.
Para Cristiane, a diferença entre os dois nomes não poderia ser maior. Uma era a filha que morreu; a outra, a mãe que permaneceu, carregando a dor da ausência. Confundi-las naquele contexto foi mais do que um equívoco de identificação: foi um momento em que a relação afetiva que dava sentido àquela presença pareceu não ter recebido o devido reconhecimento.
E aqui é preciso separar as histórias. Ana Clara não foi vítima de uma divergência política familiar como Esperança. Sua morte não deve ser transformada em ilustração fácil de uma disputa entre partidos. Mas sua história nos lembra que, por trás das decisões públicas, dos discursos jurídicos e das disputas eleitorais, existem pessoas que continuarão vivendo as consequências muito depois de as câmeras serem desligadas.
A política não acontece apenas nos palanques, nas urnas ou nos tribunais. Ela entra nas casas, interfere nas relações e, em certas circunstâncias, participa de decisões cujos custos são suportados por quem tem menos poder para evitá-los.
É por isso que me incomoda quando a fidelidade a uma ideia passa a valer mais do que a capacidade de reconhecer o sofrimento alheio. Não importa se a justificativa vem da direita, da esquerda, de uma religião ou de qualquer outra convicção. Uma crença pode orientar nossa vida, mas não deveria nos dispensar da responsabilidade de enxergar o outro.
Que lembrança deixaremos?
Volto, então, à Esperança.
Não sei como será sua relação com os pais daqui a dez ou vinte anos. Talvez as coisas mudem. Talvez haja reconciliação, pedidos de desculpas e conversas que hoje parecem impossíveis. Talvez ela precise estabelecer limites para proteger a própria dignidade. Não cabe a mim decidir por ela, muito menos exigir que suporte tudo em nome de uma suposta obrigação de amar os pais.
O que sei é que ela não deveria precisar renunciar às próprias convicções para merecer respeito dentro de casa.
E também não quero transformar seus pais em personagens sem humanidade. Eles têm suas histórias, seus medos e suas crenças. Podem estar convencidos de que defendem aquilo que consideram certo. Mas nenhuma convicção elimina a responsabilidade pelos atos que praticamos. A história que contamos a nós mesmos sobre nossas intenções não apaga a experiência daqueles que sofrem as consequências de nossas escolhas.
Talvez essa seja uma das heranças mais difíceis de compreender: podemos transmitir aos filhos nossos valores sem conseguir controlar o que farão com eles. Podemos desejar que sigam nossos passos e descobrir que a maior contribuição que lhes demos foi justamente a capacidade de escolher outro caminho.
Um filho pode crescer e concluir que os pais tiveram coragem. Pode descobrir que foram generosos, que lutaram por um mundo melhor, que erraram tentando acertar. Mas também pode precisar reconstruir a própria vida para se libertar de humilhações e medos que nunca deveriam ter feito parte da infância ou da juventude.
Não temos como escolher a memória que nossos filhos guardarão de nós. Podemos, porém, escolher o que fazemos enquanto essa memória está sendo construída.
E talvez o teste mais difícil da educação não seja saber se nossos filhos aprenderam a repetir nossas ideias, mas descobrir se conseguimos amá-los quando começam a questioná-las.
Caboco, no fim das contas, a pergunta da Legião Urbana continua ecoando. O que você vai ser quando você crescer? Talvez devêssemos acrescentar outra: o que seremos nós, pais, quando nossos filhos crescerem e já não precisarem pensar como nós para saber quem são?
Porque a herança que deixamos não está apenas no que ensinamos a acreditar. Está também na maneira como tratamos aqueles que acreditam em outra coisa.
E, quando nossos filhos olharem para trás, talvez não se lembrem de todos os nossos discursos, dos candidatos que apoiamos ou das certezas que defendemos com tanta veemência. Talvez se lembrem de algo muito mais simples: se tiveram liberdade para pensar, segurança para discordar e amor suficiente para continuar sendo nossos filhos.
Essa, sim, é uma herança que vale a pena deixar.
Referências:
Nadejda Marques e Helena Doria Lucas de Oliveira (orgs). Crianças e Exílio. Memórias de infâncias marcada pela ditadura militar. (46 autores). São Leopoldo (RS). Carta Editora. 2025.
José R. Bessa – As crianças no exílio e o mundo flicts. Taquiprati. 21 de abril de 2025 https://www.taquiprati.com.br/cronica/1769-as-criancas-no-exilio-e-o-mundo-flicts