CRÔNICAS

As cagadas amazônicas: do Pão Molhado e do Ricardo Salles

Em: 23 de Março de 2026 Visualizações: 465
As cagadas amazônicas: do Pão Molhado e do Ricardo Salles

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

Para a ganância, toda a natureza é insuficiente. (Sêneca)

 

Meu irmão, apelidado carinhosamente pelo Zé Bessa de Pão Molhado, pediu que eu escrevesse uma crônica sobre os banheiros do comércio de Manaus. Ele defende a tese de que o estado do banheiro revela o respeito que a empresa tem pelo cliente.

— Mano, sempre que posso, uso os banheiros da Bemol; são mais limpinhos. E sempre evito os daquela rede de supermercados — são imundos, são daqui, ó. — disse, fazendo um gesto grotesco com as mãos.

Disse a ele que não seria de bom tom começar uma crônica falando sobre cagadas. Afinal, tenho profundo respeito por quem me lê. Então, ele sugeriu a vinda de Ricardo Salles a Manaus. E aí, caboco, como é que muda de assunto depois disso?

Então vamos lá:

Há políticos que falam. Há políticos que tropeçam nas palavras. E há Ricardo Salles — que transformou a fala em método: testar, em tempo real, até onde vai a tolerância pública ao absurdo dito com convicção.

Em sua passagem por Manaus, não veio a passeio. Foi participar de um evento da Associação PanAmazônia, esse curioso espaço onde a floresta costuma aparecer menos como ecossistema e mais como planilha — uma variável subaproveitada, à espera de otimização.

O ambiente era favorável: empresários, entusiastas da infraestrutura, defensores da integração regional e uma confiança tranquila de que o problema da Amazônia talvez não seja o que fazem com ela, mas o que dizem sobre ela.

Salles, então, entra em cena. E entrega.

Chamou povos indígenas de “indiarada que faz garimpo”. A frase é dessas que dispensam lastro: não precisa de dados nem de contexto — basta a segurança de quem fala. Cabe em um slide de PowerPoint, sem provas e com muita convicção.

Mas o mais interessante não é a frase. É o ambiente onde ela ecoa.

A pedagogia torta

A Associação PanAmazônia se apresenta como uma entidade civil, privada, sem fins lucrativos e apartidária. Um detalhe técnico importante: apartidária, mas não exatamente desinteressada.

Na prática, funciona como um fórum de - digamos assim – “pensamento” sobre a Amazônia, com forte presença de empresários e agentes econômicos. O que, por si só, não seria problema, não fosse o fato de que, ao observar suas posições públicas, o debate parece sempre começar com uma conclusão pronta: a floresta precisa produzir mais.

E produzir mais rápido.

A Associação já manifestou apoio explícito a Ricardo Salles, elogiando sua atuação e destacando a convergência entre suas ideias e as defendidas pela entidade.

Não é exatamente uma coincidência ideológica. É uma afinidade estrutural.

Nos eventos, nas notas públicas e nas falas de seus dirigentes, o repertório é consistente:

  • desenvolvimento econômico como prioridade;
  • integração por infraestrutura;
  • crítica recorrente a entraves ambientais;
  • desconfiança de ONGs e da produção acadêmica;
  • negacionismo científico. Afinal, eles são “quadrados” como creem ser a terra.

E então surge um detalhe curioso. E já parafraseando o humorista José Simão, “Buemba! Buemba! Amazonas é o estado da piada pronta.”

A identidade visual da associação — seu emblema — traz a figura de um indígena com arco e flecha. Um símbolo poderoso, quase épico, evocando ancestralidade, território, resistência.

Mas aí entra o ruído.

Porque, no mesmo ambiente em que esse indígena estilizado é usado como marca institucional, Ricardo Salles — convidado, homenageado e, ao que tudo indica, perfeitamente alinhado ao espírito da casa — afirma que os próprios indígenas são responsáveis pelo garimpo ilegal na Amazônia.

A imagem e o discurso não apenas divergem. Eles se anulam.

De um lado, o indígena como símbolo.

De outro, o indígena como problema.

É uma espécie de esquizofrenia estética: celebra-se o ícone, acusa-se o sujeito.

O convidado é da casa

A relação entre Ricardo Salles (NOVO-SP) e a associação não é eventual.

Ele participa de eventos, recebe homenagens — como medalhas concedidas pela própria entidade — e tem suas posições reiteradamente defendidas em notas oficiais.

Salles é mais do que convidado: o site da PanAmazônia afirma, no “perfil de nossos associados”, que “NÃO PODE PARTICIPAR QUEM ESTEJA EM EXERCÍCIO DE CARGO POLÍTICO”, mas apresenta o nobre deputado como um membro honorário.

Ou, talvez, algo mais preciso: a versão sem filtro do que a associação formula com cuidado.

Se a Associação PanAmazônia organiza o pensamento em linguagem técnica, Salles traduz para o idioma direto. Se a associação lapida o argumento, Salles o simplifica até o osso.

Mas essa tradução não surgiu agora.

Ela vem de método antigo testado em escala nacional.

Quando ocupou o Ministério do Meio Ambiente no governo Bolsonaro, Salles ajudou a consolidar uma forma muito particular de gestão: reduzir o problema até que ele caiba no discurso.

Foi nesse período que sugeriu “passar a boiada” enquanto o país atravessava a pandemia de COVID-19 — não como metáfora descuidada, mas como estratégia declarada. Aproveitar a distração, acelerar mudanças, simplificar o debate.

E não se tratava apenas de floresta.

A lógica da flexibilização se espalhou como princípio: licenças mais rápidas, controles mais frouxos e um ritmo acelerado na liberação de agrotóxicos — muitos deles com restrições ou banimentos em outros países. Tudo em nome da eficiência, da competitividade, da necessidade de produzir mais.

O argumento era técnico. O efeito, nem tanto.

Também foi ali que órgãos de fiscalização ambiental perderam protagonismo, multas deixaram de ser prioridade e operações passaram a ser tratadas mais como inconveniente do que como política pública.

O desmatamento avançou. O garimpo ilegal se expandiu. E a explicação, curiosamente, ficou cada vez mais simples.

Salles não responde à complexidade — ele a reduz.

O garimpo ilegal, por exemplo, envolve redes criminosas, financiamento difuso, logística sofisticada. Na versão de Salles, cabe em uma frase: indígenas. Problema enquadrado. Debate encerrado.

Não é descuido. É método.

Se a realidade é intrincada, ele a comprime. Se resiste, substitui. No fim, sobra uma narrativa funcional: simples o bastante para circular, firme o bastante para não precisar de prova.

E é justamente isso que o torna tão à vontade ali.

Porque, no ambiente da associação, a complexidade também costuma entrar já domesticada — organizada em gráficos, filtrada por interesse, apresentada como inevitabilidade.

Salles apenas elimina o intermediário.

Diz em voz alta o que, em outros tons, já estava sendo dito.

Tudo se encaixa

A Associação PanAmazônia prepara o ambiente: linguagem técnica, aparência de equilíbrio, discurso limpo.

Ricardo Salles traduz: menos nuance, mais impacto.

E, no meio disso tudo, há uma coincidência que eu não sei se o Pão Molhado aprovaria.

Entre os nomes ligados à associação estão membros das famílias Benchimol e Minev, responsáveis pela Bemol — aquela mesma cujos banheiros, segundo ele, são exemplo de respeito ao cliente.

Pão Molhado completa o raciocínio: se o banheiro é limpo, a consciência também deve ser. Ele não vê a contradição. Para ele, coerência não é requisito — apenas conveniência.

E talvez esteja aí o ponto de convergência mais honesto de todo esse arranjo.

Porque, no fundo, tudo parece funcionar como um grande banheiro institucional: o que importa não é o que acontece lá dentro, mas o quanto se consegue manter o cheiro sob controle.

E, nisso, convenhamos, há técnica. Há método. Há gestão.

O problema nunca foi a cagada.

É quem escolhe onde ela fica — quem limpa o que aparece e quem decide o que pode feder em silêncio.

Porque, no fim, não se trata de higiene. Trata-se de poder.

E, pelo visto, já está tudo muito bem distribuído: o perfume fica na vitrine — e o esgoto, como sempre, corre por baixo de quem não tem voz.

 

Referências

https://www.panamazonia.com.br/

https://www.acritica.com/politica/a-indiarada-que-faz-garimpo-diz-ricardo-salles-em-evento-em-manaus-1.398965

 

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