CRÔNICAS

A ESCOLA TUYUKA: O RIO NEGRO E SUA UNIVERSIDADE

Em: 09 de Agosto de 2009 Visualizações: 4529
A ESCOLA TUYUKA: O RIO NEGRO E SUA UNIVERSIDADE

 


Os índios Tuyuka, do rio Tiquié, afluente do Rio Negro, inventaram, entre outras formas de aprendizagem, a aula-passeio. O professor sai com os alunos, percorrendo áreas da comunidade. As crianças observam, escrevem e desenham. E como se faz a avaliação? “A gente chama os pais e a comunidade, e aí o aluno mostra pra todo mundo aquilo que aprendeu: fala, explica, ilustra.... É como uma defesa de doutorado” – diz o professor tuyuka Higino Tenório, da Escola Utapinopona.

Muitos índios do Rio Negro – a maior bacia de águas pretas do mundo – concluíram o nível médio em escolas indígenas, algumas delas similares à escola Tuyuka. Lá, usando suas línguas e o português, aprenderam aquilo que um aluno de uma escola convencional aprende, mas foram além disso. Mergulharam nos conhecimentos orais, combinando métodos consagrados de ensino, com processos próprios de aprendizagem.

Agora que terminaram o ensino médio, os índios estão se perguntando: O que fazer daqui pra frente? Buscar uma universidade pública como a UFAM ou a UEA? Ou entrar em alguma privada? Essas universidades oferecem conhecimentos que os índios querem e precisam? Ou seria melhor criar um novo modelo de ensino superior? Quais seriam as características dessa nova instituição?

A busca de respostas a essas perguntas foi feita num seminário realizado de 4 a 8 de agosto em São Gabriel da Cachoeira (AM), organizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Lideranças indígenas debateram com pesquisadores da UFAM, INPA, Museu Goeldi, Museu da Amazônia (Musa), UERJ, UFRJ, Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO, UNICAMP, UFSCAR, PUC/SP, UCDB/MS entre outras.    
 
Epistemicídio

Na ocasião, numa das mesas, apresentei o pensamento de dois pesquisadores: o uruguaio Nestor Ganduglia, que trabalha com conhecimento tradicional e o alemão Theodor Berchem, ex-reitor da Universidade de Wusburg. Vou resumir com minhas palavras o pensamento dos dois.  
 
Nós estamos vivendo um momento crucial da história da humanidade – diz Nestor Gandulgia – no qual o conhecimento acadêmico ensinado nas universidades não está conseguindo resolver as necessidades sociais básicas, nem os problemas urgentes que atormentam a sociedade, no campo do meio-ambiente, saúde, economia, educação, transporte. A sociedade está doente, sofrendo, e a universidade não consegue contribuir para evitar esse sofrimento.

Por isso – continua Ganduglia – esse é um tempo de quebra definitiva da onipotência do conhecimento acadêmico, aquela fé de que a ciência ensinada na Universidade pode tudo, de que o conhecimento científico é o único saber válido. Esse é um tempo de crise identitária social que exige, urgentemente, a busca de nova relação entre saberes. Não se trata de desenvolver uma preocupação quase folclórica pelo conhecimento não-científico, mas de desenterrar um saber subterrâneo, quase clandestino, que está presente nas narrativas orais e nos mitos indígenas.

Segundo esse autor uruguaio, a ciência não deve ter fronteiras, estabelecendo de um lado um território – “isso é conhecimento científico e, portanto, é válido e legítimo”, e de outro – “isso não vale nada, porque não é ciência”. A fronteira entre os saberes são impostas pelo medo de pensar algo novo – ele acha - acrescentando que a complexidade dos problemas exige pensamentos mais amplos, mais abrangentes e inclusivos e não exclusivos. Trata-se de promover um diálogo entre saberes, uma troca igualitária de conhecimentos humanos.

Acontece que as universidades da Amazônia – todas, sem exceção – enxotaram os conhecimentos tradicionais indígenas, não deixaram nem sequer que entrassem nos seus cursos, currículos, bibliotecas, laboratórios e salas de aula. Nenhuma dessas instituições estuda pelo menos uma das 23 línguas indígenas faladas no Rio Negro. O índio que entrar numa delas, tem que deixar lá fora seus saberes. A universidade, no caso, é uma usina, uma fábrica de fazer brancos. Comete, assim um epistemicídio, ou seja, mata o conhecimento e o pensamento indígena.

 A Cinza e o Fogo

Os índios do Rio Negro estão querendo criar uma instituição, onde possam aprofundar seus conhecimentos, suas línguas, suas culturas, um espaço que promova esse diálogo entre ciência e conhecimento tradicional, num processo que é sempre tenso, conflitivo, nada harmonioso, mas possível.

E aqui entra o alemão Theodor Berchem. Ele diz que a universidade vive uma grande contradição. De um lado, está preocupada com o conhecimento científico que quer ser universal, e de outro, está encravada dentro de culturas, com as quais tem um compromisso, que são particulares. Ele acha que o conhecimento universal só pode ser alcançado se existir um diálogo entre conhecimentos particulares. Qual o diálogo possível nas universidades amazônicas?

Para ilustrar a afirmação, o ex-reitor alemão imagina que se uma bomba destruísse o planeta terra, mas sobrasse uma universidade, seria possível reconstruir o mundo apenas com os conhecimentos existentes na biblioteca e na cabeça de professores e alunos dessa universidade. Eu então me pergunto: e se a instituição poupada fosse a UFAM ou a UEA, qual o mundo que poderíamos reconstruir? Conseguiríamos plantar as centenas de variedades de mandioca, comer quinhapira, entender o ciclo de vida dos peixes e dos animais? As duas universidades realizaram avanços recentes, mas falta muito a caminhar.

O conhecimento tradicional, que nunca penetrou em nossas universidades, continua sendo discriminado. O saudoso Jorge Terena dizia que essa era uma das conseqüências mais graves do colonialismo: enterrar ou congelar experiências milenares, classificando-as como “primitivas”, como algo que pertence ao passado, quando esses conhecimentos tradicionais continuam, no presente, resolvendo problemas básicos.

Foi o socialista francês Jean Jaurés que escreveu algo muito bonito, capaz de reforçar o argumento de Jorge Terena: “Preservar a tradição não é conservar as cinzas, é soprar a brasa, é vigiar para que o fogo continue aceso, iluminando. Da tradição, do passado, nós devemos nos apoderar do fogo, não da cinza”. Os índios do Rio Negro vão realizar ainda mais quatro seminários para construir um modelo capaz de manter esse fogo aceso.

OBS: Fotos do tuyuka Edilson Villegas Ramos publicadas por Pieter-Jan van der Veld

 

 

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3 Comentário(s)

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Flora comentou:
17/10/2011
Já que essa sucitou poucos comentários, raridade nas suas crônicas (Aliás te curto demais, Bessa!), poderíamos coloca-la prá circular lá na região, publicando-a no Livro Educação escolar indígena no rio Negro. A força das parcerias! ,não é mesmo?
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yrszbpd comentou:
08/12/2010
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