CRÔNICAS

AS MUDAS ESTÃO MUDAS

Em: 10 de Fevereiro de 2008
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Manaus, cidade careca. Aqui, as árvores, consideradas “inimigas da civilização”, estão condenadas à morte. A floresta é derrubada, queimada, aniquilada, numa guerra sem fim iniciada pelos portugueses em 1669, quando ergueram o Forte de São José da Barra do Rio Negro. Mas que continua ainda hoje. Para construir um shopping, a SONAE – um império luso que reúne 43 corporações em dezenas de países - acaba de destruir um dos últimos fragmentos de floresta urbana no Igarapé da Magistral. Leitores indignados propõem represálias contra os responsáveis, incluindo aí os políticos.
 
Os poderes públicos – Executivo, Legislativo e Judiciário - que deviam zelar pela qualidade de vida da população, são aliados subservientes das grandes empresas, que só querem saber do lucro. No século XIX, uma lei proibiu o corte de árvores no perímetro urbano, mas nunca foi cumprida. Há dois anos, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SEMMA) anunciou que a meta do prefeito Serafim Corrêa era plantar 1.000.000 (hum milhão) de árvores em quatro anos, transformando Manaus num belo jardim. Conversa fiada. O que fizeram foi desplantar.
  
A vingança dos bichos
 
Diante de tal desplante, a leitora Elisa Souto Bessa, minha prima, sonhou que o povo, consciente e mobilizado, boicotava o shopping da Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados (SONAE). Depois da inauguração, ninguém botava o pé lá dentro. Esse ‘templo’ do consumo ficou vazio, os ‘fiéis’ revoltados sumiram do mapa. “Imaginem as lojas com roupas empilhadas, intactas no balcão. Os vendedores tristes, coçando o saco, os donos das butiques irritados coçando a cabeça, em busca de uma solução” - escreve Elisa.
 
Ela sugeriu o seguinte cenário: “o supermercado com produtos vencidos apodrecendo: farinhas bichadas, frutas murchas, verduras amareladas, lanchonetes com as máquinas de café paradas, pães de queijo duros no lixo, sorvetes virando suco, escadas rolantes rolando sozinhas. Especialistas internacionais em marketing, chamados para uma reunião de emergência no Tropical Resort, bolam estratégias para atrair o consumidor. Tudo em vão. Manaus fica conhecida como a cidade que derrotou um shopping arboricida”.
 
O fato, inédito, atrai repórteres do mundo inteiro. A TV Globo faz um programa especial. A mídia internacional abre manchetes escandalosas. La Prensaberra: “Manaus confirma que el pueblo unido jamás será vencido”. Le Monde reforça: “Victoire du peuple à la défense de l’environnement”. O sóbrio New York Times: “The boycott, this is possible”. O Der Spiegel escreve algo como “Das volk sieg...”. Até mesmo o Diário de Lisboa, com clareza contundente, diz: “Ralé defende beldroegas e popinhas”.
 
Esse sonho, se compartilhado por todos, comprova que os nativos não aceitam mais as agressões à qualidade de vida como “algo inevitável”. Acabou o conformismo. Os manauaras deixam de ser bobos passivos e se tornam atores do seu próprio destino. Mas o sonho não para ai. Ele inclui os antigos habitantes do lugar, os bichos, que decidem voltar pra casa e tomar o shopping de assalto. Inspirada nas formigas que colocaram pra correr a população de velho Airão, obrigando a fundação de uma nova cidade, a leitora Elisa imagina a vingança dos bichos.
 
Revoadas de pássaros, como no filme de Hitchcock, invadem os espaços vazios, pousando em lustres e fios. Centenas de macacos escorregam nos corrimões, pulando nas escadas rolantes, uns vestindo roupas das vitrines, imitando manequins, outros devorando bananas no horti-fruti. Preguiças descansam nos sofás das lojas de móveis. Passeando no elevador, pacas e tatus. Cutias não! As cutias ocupam a praça da alimentação, ficando com dor de dente de tanto-tanto comer doce quente, e os fiofós delas começam a assoviar.
 
As saúvas desfilam com pedaços de couve.  Cobras-cipó se enrolam nas colunas.  Sapos e rãs lavam o pé na borda da fonte. Camaleões exibem suas cores nas lojas de eletrodomésticos. Urubus e gaviões no açougue, lontras na peixaria, lagartos nas folhas de alface, formigas no açúcar, compotas e geléias. Os empresários tentam expulsar os animais, mas são comidos pelas onças. Um cenário pra George Orwell nenhum botar defeito! Pode até ser uma ópera bufa encenada pelo Berinho no Teatro Amazonas.
 
A horrível civilização
 
A transformação de Manaus num inferno vem sendo documentada, sobretudo, por observadores estrangeiros. O médico alemão Robert Avé-Lalemant ficou horrorizado com os cadáveres que viu em Manaus em 1859, produzido pela burrice e pela estupidez humana. Ele estava passeando. De repente – escreve - “ouvi o bater do machado”. Foi ver o que era. Encontrou o próprio Comandante da Praça, Amorim Bezerra, com seus homens, derrubando e queimando a mata.
 
“Pairava a imagem do aniquilamento. Sobre as colinas, viam-se alguns troncos carbonizados e outros só meio queimados”.
 
O médico vê, agonizando, algumas “belas palmeiras” de tucumã. “Seus espinhos tinham sido queimados, seus troncos carbonizados, suas nobres folhas esturradas. Algumas lutavam visivelmente com a morte; outras, de pé, hirtas, como cadáveres. A floresta olhava muda e sombria, com suas árvores gigantescas, para o quadro da horrível civilização aniquiladora”.
 
Quatro anos depois desse episódio, em 1863, os deputados da Província do Amazonas aprovaram uma lei, proibindo o corte, dentro de Manaus e na margem dos igarapés, de sorveiras, pajurás, umiri, muruci, cumarú e outras árvores. O infrator podia pegar de cinco a oito dias de prisão por cada árvore derrubada e o dobro na reincidência.  A lei foi para alemão ver. Nunca vingou, ninguém foi preso por esse crime.
 
Há dois anos, escrevi aqui nesse Diário uma crônica elogiando a SEMMA, que firmou convênio com Universidade Federal do Amazonas (UFAM) para produzir 660 mil mudas de árvores com o objetivo de arborizar a cidade. Na época, estava previsto gastar R$ 3,6 milhões para produzir e distribuir mudas e recuperar áreas degradadas, áreas verdes, parques e similares. As mudas seriam plantadas nas praças, ruas e avenidas e também distribuídas para a população usar em seus quintais. Tudo isso estava planejado para ser feito em dois anos.
 
A secretária da SEMMA, Luciana Valente, naquela ocasião jurou que a meta do prefeito Serafim Corrêa era plantar um milhão de árvores até o final do mandato. Acreditei. Elogiei. Enganei os leitores, a quem também peço minhas desculpas manauaras. As mudas da Luciana Valente e do Serafim permanecem mudas. Talvez falem nas urnas.
 
P.S. – Meu amigo baiano, Gilberto Menezes Moraes, professor de engenharia na UERJ, não esconde sua frustração, porque os cartões corporativos, usados pelo pessoal do governo, compraram tudo: da sinuca à tapioca. Menos livros. Não existe UM SÓ livro comprado com o cartão corporativo, o que é bastante revelador. Agora, se o ministro que comprou a tapioca tivesse me avisado, juro que eu teria depositado os R$8,50 na conta dele. Não precisava se sujar por tão pouco. 

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