CRÔNICAS

A JAQUEIRA DA PRETA

Em: 17 de Fevereiro de 2008
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É possível falar de flores, quando cartões corporativos são usados criminosamente por funcionários do Governo, financiando até mesmo a lixeira de luxo do reitor da UnB?  Qual dos dois temas é mais importante: as árvores de Manaus ou o iate e a casa do ex-procurador Vicente Cruz-Credo, fruto de desvio de verbas públicas?
 
Depende. Quem digita essas mal traçadas linhas queria abordar a corrupção no país - um tema de relevância nacional. Mas a Pretinha, minha irmã, de nome Aparecida, daí o apelido, prefere a arborização de Manaus – um tema local. Portanto, os leitores que me perdoem. Não contrario minha irmã. Vou, provincianamente, assuntar sobre o quintal da Preta.
 
Acontece que a Pretinha mora no D. Pedro, um conjunto habitacional de classe média. A construção de bairros populares em Manaus representou, para a flora e a fauna, a invasão de tropas bárbaras. Foi política de terra arrasada. As construtoras não podiam ver um pau em pé. Toravam na hora. Em nome do lucro, não deixaram um cantinho verde, uma plantinha, um matinho pra refrescar. Ali onde passaram os tratores, não nasceu nem fiapo de capim. Resultado: as pessoas moram em fornos micro-ondas e se revezam no uso de ventilador, porque se todos forem ligados ao mesmo tempo, Manaus flutua.
 
Vai daí, alguns moradores tentaram colocar um pouco de humanidade nos seus quintais. A Preta foi um deles. Plantou, salvo engano, uma jaqueira. Era uma jaqueira? Não tenho certeza. Sei que foi árvore frondosa. O cenário, porém, exige uma jaqueira, para que o Pão Molhado, que é um bom filho da Preta, possa comer doce de jaca (é isso mesmo que você pensou: ele é um tremendo filho da Preta). De qualquer forma, essa foi uma iniciativa pessoal. Na época, não havia políticas públicas de arborização.
 
Por isso, elogiamos aqui a Secretaria do Meio Ambiente (SEMMA), quando há dois anos prometeu plantar 1.000.000 (um milhão) de árvores.
Dois anos se passaram. Se você pegou o bonde andando, lembro que na semana passada a coluna perguntou: cadê o milhão de árvores, cujas mudas seriam fornecidas pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM)? Chegaram até a assinar, em maio de 2006, um contrato no valor de R$3,6 milhões, com publicação no Diário Oficial, verba empenhada e oscambau a quatro. Cadê as árvores, prefeito Serafim Corrêa? 
 
Cadê as árvores?
 
“Faltam apenas 100 mil mudas para completar meta de um milhão de árvores plantadas e protegidas em Manaus”, responde a SEMMA, a quem agradeço o texto enviado, o que não me impede de perguntar: será verdade?
“É mentira, maninho!”, me diz por telefone a Preta, ofegante em sua dispnéia de asmática. Não duvido da Preta, mas pedi apoio técnico ao Marco Antônio Mendonça – Diretor da Fazenda-Experimental da UFAM. Resumo aqui as respostas.
 
Segundo a SEMMA, “desde 2005 o Programa de Arborização da Cidade de Manaus plantou e replantou 295.929 mudas em vias públicas, praças e margens de igarapés. Por outro lado, o Projeto de Fomento de Arborização de Quintais Urbanos atuou em diversos bairros, protegendo 589.000 árvores, perfazendo o total geral de 884.929 árvores plantadas e protegidas”.
 
A Preta pulou nas tamancas, falando como o Juvenal Antena: - Epa, epa, epa, muita calma nessa hora! Que negócio é esse de árvore ‘protegida’? A Prefeitura nunca protegeu minha jaqueira. Tira ela da estatística. Diminui o total para 884.928 árvores.
 
O diretor da Fazenda Experimental da UFAM, Marco Antônio, concorda com a Preta, pois para chegar a esse total, a SEMMA adicionou uma pequena palavra mágica, o que falseia os resultados. No início, se falava em um milhão de mudas “plantadas e distribuídas”. Agora, se acrescentou o termo ‘protegidas’. “Não possuo todos os números, mas a quantidade de ‘protegidas’, que em tese é obrigação óbvia de uma Secretaria de Meio Ambiente, é bem maior que as plantadas e distribuídas” diz Marco Antônio. Dessa forma, a contabilidade da SEMMA inclui árvores que Deus plantou na época de Adão e Eva e que passaram a ter agora a proteção do poder público.    
 
Mesmo assim, um milhão é árvore pra cacete. Por que, então, a população não vê? Quem responde é o coordenador de Arborização da Secretaria, Heitor Liberato. Ele culpa o vandalismo.
 
“Plantamos várias vezes na Av. Grande Circular, na Zona Leste e, infelizmente, algumas pessoas mal intencionadas destroem a planta e o cercado que a protege”.
 
Quando soube disso, a Pretinha falou: “Eu tinha certeza que a culpa era da cachaça do Barboza. Quer dizer: os culpados somos nós. Mas a SEMMA não protege as plantas? Se protege, por que não protegeu? Onde estão as 589.000 mil árvores protegidas?”.
 
Mudas invisíveis
 
Para os devotos de São Tomé, a SEMMA informa que “as mudas estão nos canteiros centrais das avenidas e têm entre 50 e 80 cm de tamanho, necessitando de tempo para crescerem e serem vistas pela cidade”. Ou seja, o que sobrou da depredação, embora invisível, existe, mas quem vai usufruir são os netos do Pão Molhado, porque de acordo com Liberato “os efeitos só surgirão em longo prazo, já que árvores de espécies florestais precisam de um período entre sete e oito anos para fazer sombra”.
 
A contraditória nota da SEMMA informa que a Prefeitura apresentará projeto à Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado do Amazonas (Fapeam) para realizar, em parceria com a UFAM, um levantamento quantitativo, qualitativo e georeferenciado da arborização da área urbana de Manaus, nunca antes feito, segundo o Coordenador de Arborização da Secretaria, Heitor Liberato. Desculpem a ignorância: o banco de dados é pra ser usado só na próxima gestão? É isso? Mas se o levantamento ainda não foi feito, como é que a SEMMA contabilizou as árvores?
 
Tem mais: se o Horto Municipal não tem capacidade para tamanha produção, de onde, então, saíram as mudas? Exatamente para isso é que foi feito convênio com a UFAM. O diretor da Fazenda Experimental explica que, pelo contrato, a Universidade entregaria 660 mil mudas de espécies florestais e frutiferas.
 
“Ficamos entusiasmados, porque confiamos na qualificação e capacidade operacional do nosso corpo docente e técnico. Investimos recursos próprios, ampliamos e modernizamos os viveiros. Mas a Prefeitura não repassou sequer um centavo, conforme o estabelecido no contrato”.
 
“Começou um longo martírio de idas e vindas, e muita, muita desinformação. Nada de oficial nos era repassado. Continuamos o nosso trabalho, na esperança de que o contrato fosse honrado. Finalmente, tive acesso a documentos mostrando que a secretária Luciana Montenegro Valente, em 06 de setembro de 2006, havia anulado o empenho. O problema é que nunca fomos comunicados formalmente. Dessa forma, as mudas por nós produzidas não foram recebidas pela SEMMA”.
 
“Quase um ano depois da assinatura do tal contrato, o reitor Hidembergue Frota encaminhou ofício à Prefeitura, cobrando o seu cumprimento. Coincidência ou não, pouco depois o Prefeito Serafim Corrêa dava uma entrevista a um jornal local, desqualificando a UFAM” – diz Marco Antônio. Essa é a triste história de um milhão de mudas invisíveis, caladas e desprotegidas.
 
Desconfio que não tratei apenas de um tema local. Suspeito que no quintal da Preta está contido todo o país. Eu diria mesmo, sem qualquer exagero, que o planeta terra está todo na jaqueira da Preta, porque é nela que reside a possibilidade de sobrevivência de nossos filhos e netos.
 
P.S. – Marcus, a Preta avisa que ela é tia do Serginho.

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3 Comentário(s)

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Paulo Bezerra comentou:
27/03/2011
A Administração do Serafim Corrêa na prefeitura de Manaus foi péssima, pífia e pobre. Decepcionou aqueles que confiaram em suas promessas. Governou com os amigos e para os amigos, esquecendo o povo pobre. Praticou nepotismo político. Repetiu as práticas políticas que condenava. Matou a esperança de muita gente. Na ânsia indômita de permanecer no poder, se juntou até com o DEM ex-PFL, E, segundo o Praciano, a sua maior realização foi "Fazer renascer das cinzas o Amazonino".
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drqxnbfsux comentou:
08/12/2010
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bmkptkcr comentou:
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