CRÔNICAS

O OMELETE DO BELÃO

Em: 02 de Março de 2008
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Pizza, tacacá ou omelete? No Brasil, corrupção acaba sempre em pizza. No Amazonas, terminava em redor de uma cuia de tacacá, mas mudou para omelete, depois da denúncia feita ao Tribunal de Contas da União (TCU), em 1996, pelo então deputado Luís Fernando Nicolau. Ele descobriu que a Secretaria de Estado de Educação havia comprado e pago milhares de ovos, que desapareceram junto com duas mil toneladas de merenda escolar, no valor de R$ 6 milhões. O secretário de Educação era José Melo. O governador, Amazonino Mendes. Nicolau acusou os dois.  
 
Os auditores comprovaram o desvio. O TCU acolheu a denúncia e citou José Melo. Só Deus e o diabo na terra do sol sabem o que aconteceu com os ovos do Melo, que dariam para encher 215 caminhões. A única coisa certa é que não alimentaram as crianças. O que aconteceu? Viraram “omelete”. Faz sentido. O dicionário etimológico um dia vai explicar a origem da palavra omelete como “fritada de ovos batidos pelo Melo”. Entre os fornecedores da SEDUC, ele ficou conhecido como José Omelete Merenda (Ver www.Taquiprati.com.br de 17/12/1996).
 
Os ovos do Melo
 
Muitos ovos depois, José Melo Merenda foi nomeado secretário de Governo. Dizem que é, atualmente, o homem forte do governador Eduardo Braga, que acaba de convocá-lo para uma missão especial: fazer dois omeletes, um no Alto Solimões e outro no bairro Santa Etelvina, no valor total de pouco mais de R$ 30 milhões. “Omelete é comigo mesmo” – disse Melo Merenda. E saiu em busca de mais ovos.
 
O omelete do Alto Solimões custou R$ 18 milhões. Esse foi o valor já pago pelo Governo à empresa Pampulha por obras e serviços que nunca foram realizados. São obras “fantasmas”. Os recursos estavam destinados à infra-estrutura e urbanização do sistema viário de sete municípios da região. A Pampulha embolsou a bufunfa, mas as cidades continuam abandonadas, atoladas de lama até o tucupi. Em Tabatinga, um carro circula com a frase: “Tabatinga, mesmo com lama, nós te ama”.
 
Já o omelete do bairro Santa Etelvina custou R$ 12.304 milhões, pagos pelo Governo do Amazonas como indenização por um terreno de 769 mil metros quadrados. Oito meses atrás, esse mesmo terreno havia sido comprado por R$ 1.2 milhão. O cara que aparece como dono não colocou um tijolo, não plantou sequer um pau-pretinho nesses oito meses, mas recebeu 1.150% acima do valor. Com um agravante: o legítimo dono do terreno era próprio Estado, que tinha uma ação judicial tramitando, com chances de ganhar no tribunal. De repente, misteriosamente, desistiu da ação.
 
“Isso é um crime financeiro”, gritou o deputado Ângelus Figueira. Sua denúncia teve repercussão em todo o país. Em geral, as roubalheiras no Amazonas não ganham destaque nacional, até nisso nós somos discriminados. Mas ontem O GLOBO abriu um título “Bandalheira no Amazonas” para noticiar o ‘omelete’ do Alto Solimões e informar que o Ministério Público estadual iniciou investigação e que só falta uma assinatura para criar uma CPI na Assembléia Legislativa.
 
O tacacá do Belão
 
Cinco deputados assinaram o pedido da CPI para investigar a mutreta: Arthur Bisneto (PSDB), Ângelus Figueira (PV), Wallace Souza (PP), Luiz Castro (PPS) e Liberman Moreno (PHS).  Foi aí que entrou Melo para fazer “omelete”. Contou com um ajudante: Belarmino Lins, presidente da Assembléia Legislativa, especialista em tacacá, mais conhecido em Manaus como Belão, em Miami como Big Beautiful, e na Alemanha, de onde ele jura ter vindo, como Grosse-Schon.
 
Big Beautiful se sente o dono do Alto Solimões, feudo eleitoral dos Lins – uma família de cabocos que tem vergonha de sua caboclitude, odeia índios e jura ter origens germânicas. Trocou o tacacá pelo omelete. Com medo do que possa revelar uma CPI sobre as obras fantasmas da região, ele transformou em cozinha o seu próprio gabinete da presidência, cedendo-o para fazer omelete. Lá, na sala envidraçada de onde se vê o plenário, José Melo Merenda negociou com os deputados governistas, tentando abafar as investigações.
 
Os deputados, que estavam em sessão no plenário, saíam de fininho, um depois do outro e subiam para provar o ‘omelete do Belão’. Da tribuna, Arthur Bisneto sentiu, com seu faro, o cheiro de cebola, e usou o microfone, solicitando que José Melo descesse para informar em que pé estava a investigação sobre as obras fantasmas. Você desceu, leitor (a)? O Melo Merenda também não.
 
Os deputados fizeram fila: Vicente Lopes e Nelson Azedo (PMDB), Conceição Sampaio, Wallace Souza e Adjuto Afonso (PP), David Almeida (PAN), Carlos Alberto (PMN), Edilson Gurgel (PRP), Josué Neto (PSB), Ricardo Nicolau (PR), todos filiados aos vixe-vixe da vida política. Não escaparam nem José Lobo e Wilson Lisboa (PCdoB), mas a população espera ansiosamente que o PCdoB, nossa última referência de moralidade, não coma o omelete do Belão. Se o fizer, enfraquece qualquer argumento em favor do partido.
  
A pizza caboquinha
 
No final das conversas individuais, todos foram almoçar juntos. Não sabemos ainda quem comeu o omelete, quem tomou tacacá e quem comeu pizza. Mas vamos ficar sabendo. Depois de encherem a pança, eles deram declarações aos jornais. Wallace Souza enrolou, jurando que não se falou em CPI. Mas Liberman Moreno contou que a conversa de Melo foi mesmo orientada para impedir qualquer CPI que investigue irregularidades do Governo.   
 
Indagado pelos jornalistas, Big Beautiful (BB) – que se acha engraçadinho e, mais grave ainda, inteligente – debochou: “o secretário Melo veio aqui para matar a saudade dos colegas deputados. E aqui ele é sempre bem-vindo”. Sobre a CPI, BB disse que ela é desnecessária, porque o Ministério Público Estadual e o Tribunal de Contas do Estado – o Tribulins, já estão investigando.
 
Enquanto Melo e Belão preparavam o omelete, o Governo do Amazonas informava que o Banco Mundial (BIRD) havia aprovado financiamento de R$ 59 milhões adivinhem para quê? Adivinharam. É para o Projeto de Desenvolvimento Regional do Estado do Amazonas (PRODERAM). Adivinhem onde? É isso mesmo, em nove municípios da região do Alto Solimões, uma das mais pobres do Brasil. Ou seja, Melo terá mais ovos e Belão mais omeletes. Se eu fosse o Banco Mundial, não soltava a grana, enquanto uma CPI não nos dissesse aonde enfiaram os R$ 30 milhões do Alto Solimões e do terreno de Santa Etelvina.

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5 Comentário(s)

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Guilherme comentou:
19/02/2012
Aqui em Brasília tem omelete, tacacá e pizza semanalmente, em várias cozinhas especializadas da República. Até o PC do B metaforseou para PT, e tudo indica está se fartando no café da manhã, no almoço e na janta, inclusive com direito a lanchinho entre as refeiçoes. O BID e o BIRD, sempre foram os maiores investidores dessas guloseimas brasileiras em Mato Grosso e fez muitos ficarem gordos e os povos indígenas magrinhos com o famoso PRODEAGRO e outros...e hoje quem faz os grandes banquetes são
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Ana Stanislaw comentou:
18/02/2012
Em tempos de carnaval... esses bandidos aproveitam para farrear com o dinheiro público. Não é mole, não!!!
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ftrRdmJxShvFd comentou:
11/01/2012
Peferct shot! Thanks for your post!
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jidpgf comentou:
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jlczcg comentou:
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