CRÔNICAS

D. JOÃO: DOIS SÉCULOS DEPOIS, O BEIJA-MÃO CONTINUA

Em: 09 de Março de 2008 Visualizações: 4798
D. JOÃO: DOIS SÉCULOS DEPOIS, O BEIJA-MÃO CONTINUA

.A fila de puxa-sacos era grande. Um atrás do outro. Comerciantes, fazendeiros, donos de escravos, cônegos, bispos, funcionários, fidalgos e nobres de igarapé, todos encasacados, aguardavam, ansiosos, a hora de beijar a mão de D. João VI. Era o dia 8 de março de 1808. O rei acabava de desembarcar no Rio de Janeiro e, pela primeira vez no Brasil, “concedia o privilégio de lhe beijarem a mão”. Era um “privilégio”, como reconhece o secretário de Cultura, Berinho, quando deposita seu ósculo diário sobre a mão do governador Eduardo Braga. “Um privilégio!”.

No entanto, para beijar a mão do Dudu basta beijar a mão do Dudu. Com o rei, era diferente. Tratava-se de um ritual medieval, composto de uma seqüência de atos, que tinha suas regras. Primeiro, o vassalo entrava na fila indiana. Depois, fazia reverência ao mestre-sala e aos camareiros. Quando chegava diante do rei, dobrava um dos joelhos até o chão, como na igreja, frente à hóstia consagrada. Ali, ajoelhado, beijava “a augusta e real mão”, lembrando, com todo respeito, que naquela época não havia papel higiênico, nem alcool para desinfetar a mão.. Finalmente, se levantava, fazia outra genuflexão, recuava de costas, virando pelo lado direito, e se retirava da sala.

Era assim mesmo. Seriozinho! O Berinho, que manja desse assunto, pode confirmar. Aliás, ele que ressuscitou o bonde na Praça São Sebastião, bem que podia restaurar o beija-mão no Palácio do Governo. Trata-se de solenidade com significado simbólico. O rapapé reforçava a autoridade do monarca, afirmando seu poder. O rei tinha diante de si homens cruéis, duros e implacáveis com seus escravos. Mas na hora do beija-mão estavam ali, subservientes, delicados como uma flor, vergando a espinha dorsal. Quanto mais duro com os escravos, mais submissos ao rei.

Orgulho besta

Escrevo isso porque vi o noticiário sobre as comemorações do bicentenário da chegada da família real portuguesa ao Brasil. A mídia enalteceu o beija-mão, quando cobriu o almoço na Confeitaria Colombo para o presidente de Portugal, Cavaco Silva. Os festejos incluem espetáculos, teatro de rua, exposições, seminários, lançamento de livros. Custam caro e estão sendo promovidos sem qualquer sentido crítico.

Por isso, o noticiário está nojento. Os cadernos especiais dos jornais, quase sempre, exaltam o que a gente aprende na escola e no livro didático. Fala-se que D. João abriu os portos brasileiros às nações amigas, mas se omite que durante 308 anos Portugal manteve esses portos fechados. Elogia-se a criação da Biblioteca Nacional, mas se faz silêncio sobre a proibição, que durou três séculos, de se editar livros na colônia e de se criar universidades, existentes desde o início na América de origem hispânica.

O prefeito do Rio, César Maia, responsável pelas comemorações com o dinheiro do contribuinte, hasteou ontem bandeiras do Brasil e de Portugal. Na ocasião, forçando a barra, discursou: “Temos orgulho de Dom João VI, que declarou silenciosamente a independência do Brasil”. Égua! Orgulho? Eu, einh Rosa! Tenho é vergonha. O Armando Português, dono do bar da Bica, fez mais pelo Brasil do que D. João VI. Falo sério.

Príncipe frouxo

D. João fugiu de Portugal com medo do Napoleão. Até ai, tudo bem, o cagaço é humano. Acontece que o príncipe, frouxo diante dos franceses, virou macho diante dos Botocudos, que viviam em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. Declarou-lhes guerra:

Desde o momento em que receberdes esta minha Carta Régia, deveis considerar como principiada contra estes índios antropófagos uma guerra ofensiva que continuareis sempre em todos os anos nas estações secas e que não terá fim”.

O historiador Marco Morel, citado várias vezes nessa coluna, foi conferir esse papo de antropofagia. Ele fez seu doutorado em história na Universidade de Paris. Numa entrevista a Américo Freire conta como ficou curioso em saber por que essa violência toda contra os botocudos.

“A Carta Régia de 13 de maio de 1808 – diz Morel – é um texto impressionante, porque justifica a declaração de guerra, com base no argumento de que os índios eram antropófagos e tinham o hábito de se servir de carne humana e tomar como bebida o sangue humano. Na minha pesquisa, descobri que essa imagem foi construída a partir do padre Caetano Vasconcelos, que pintou uma aquarela, mostrando os botocudos comendo carne humana e essa aquarela circulou e impressionou muito a Corte de D. João”.

Embora reconhecendo que esse não era um motivo para declarar guerra, o historiador Morel acha pouco provável que os botocudos fossem antropófagos, “uma vez que eles pertencem ao grupo etno-lingüístico macro-jê, que não costuma ter essas práticas. O canibalismo ritual é comum entre os tupis. Entre os botocudos, nunca houve qualquer comprovação”.

Guerra sem fim

Na realidade, o que os portugueses queriam era se apropriar das terras indígenas. Os botocudos ocupavam um grande território nas margens do rio Doce, que era uma importante via de navegação para se alcançar o Espírito Santo.  Além disso, com a crise da mineração, houve um movimento para colonizar outras terras, seja pra plantar, seja pra procurar novas áreas mineradoras – como esclarece Marco Morel.

Novos quartéis foram criados e novas tropas foram formadas. A guerra, impiedosa, durou muitos anos. Oficialmente, só terminou em 1831, mas os combates mais violentos aconteceram entre 1808 e 1824. Os botocudos resistiram e tentaram até atacar a cidade de Vitória, mas foram vencidos pelo poder de fogo das armas inimigas. Tiveram sua população reduzida e perderam suas terras - conta Morel.

D. João estimulou a criação de novos pontos de colonização e a criação de fazendas em terras indígenas. Restaurou a escravidão de índios, permitindo que os botocudos aprisionados em combate fossem escravizados por até vinte anos. Hoje, os botocudos, que se chamam Borun e são conhecidos como Krenak, somam 204 índios que recuperaram no Supremo Tribunal Federal pequena parte de suas terras. Hoje, D. João VI é um retrato no Museu da Limpeza Urbana, enfim, do Lixo.

As comemorações do bicentenário da chegada da família real ao Brasil omitem o assassinato, o roubo de terras e a escravização dos botocudos. Dessa forma, é como se o ritual subserviente do beija-mão continuasse, duzentos anos depois. Vejo o prefeito do Rio ajoelhado e submisso. Estou fora dessa. Não quero beijar mãos sujas de sangue indígena. Prefiro homenagear Marét-Khamaknian, o herói civilizador da humanidade, na mitologia dos Krenak. E o bolinho de bacalhau do bar da Bica.

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