CRÔNICAS

O AGROBANDITISMO: A HORA DE A ONÇA BEBER ÀGUA

Em: 27 de Novembro de 2011
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Dois crimes cometidos por pistoleiros – um há mais de trinta anos, no Acre, fronteira com a Bolívia, o outro, na semana passada, em Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai – têm em comum o fato de ambos estarem relacionados à luta pela terra e despertarem em nós uma insaciável sede de justiça, confundida, às vezes, com desejo de vingança. De qualquer forma, não podemos calar diante da morte de dois homens bons.
Um deles é o cacique guarani, Nísio Gomes, assassinado recentemente por pistoleiros que invadiram o acampamento indígena na terra Guaiviry (MS). O outro, Wilson Pinheiro, o Wilsão, alvejado com três tiros nas costas, em 1980, no momento em que assistia o noticiário da TV, na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia (AC), do qual era presidente. A morte do cacique me fez lembrar a do líder sindical, ambas executadas pelo agrobanditismo, que agora atua com milícia armada paramilitar.
É que o sentimento de impotência é similar nos dois casos. Suas mortes nos deixam uivando por justiça e aumentam ainda mais nossa descrença em relação ao Poder Judiciário, de cuja vontade e capacidade sinceramente desconfiamos. A omissão da investigação policial e dos tribunais funciona como um incentivo para se fazer justiça com as próprias mãos, o que não é uma forma correta de aplicar a lei. No caso do Wilsão, se buscou estratégias alternativas de mobilização popular, mas deu no que deu.
A água da onça
Ninguém me contou, eu vi e ouvi. Fui a Brasiléia (AC), dia 27 de julho de 1980, para o comício de protesto contra o assassinato do Wilsão. Subi no caminhão que servia de palanque, onde estava sua camisa ensangüentada. Era de noite. O silêncio se fez tão eloqüente que se podia ouvir o barulho dos insetos batendo na única lâmpada colocada em frente à sede do sindicato – uma modesta casa de madeira. Discursos inflamados, escutados atentamente por mais de 4 mil pessoas durante quase cinco horas, desfilavam um rosário de denúncias de mortes, de ameaças e de tentativas de assassinatos.
O diretor do Sindicato de Brasiléia, o “Paulista”, estipulou um prazo de dois dias para a polícia prender o criminoso: “Nós não queremos fazer justiça com as próprias mãos, mas se as autoridades não encontrarem os criminosos, vamos ser obrigados a agir”.  Foi nesse contexto que Lula, então presidente do PT, fechou o evento. Era quase meia-noite. Entre outras coisas, ele afirmou:
  - Chegou a hora de a onça beber água.
Um grupo de trinta trabalhadores rurais saiu direto do comício para armar uma emboscada, onde foi morto o capataz da fazenda Nova Promissão, Nilo Sérgio de Oliveira, autor do assassinato de Wilson. A onça bebeu água.  Lula e Jacó Bittar foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, acusados de incitação ao crime. Responderam a processo na Justiça Militar.  
E no caso do cacique guarani, como é que a onça vai beber água? Os alunos indígenas dos cursos de História e Ciências Sociais da UEMS, moradores da aldeia Amambaí, respondem indiretamente a pergunta, numa carta sobre o acontecimento escrita por sugestão de sua professora, a antropóloga Aline Crespe.
A carta relata que mais de 40 pistoleiros invadiram o acampamento indígena. Deram o primeiro tiro na garganta do cacique, seu corpo começou a tremer. Atiraram depois no peito e na perna. O neto pequeno viu o avô no chão e correu para abraçá-lo. Um pistoleiro começou a bater com uma arma no rosto de Nísio e, no final, chutaram seu corpo para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro. Ergueram o corpo e jogaram na caçamba da caminhonete, seqüestrando o cadáver.
A brutalidade da execução e a conduta com o corpo são a assinatura do agrobanditismo ‘político’ que marca as disputas de terra. Diz a carta:
Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento. Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira? E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria Constituição? E nós estamos aí sujeitos a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer. Mas isso não aquieta a luta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de Deus vai funcionar”.
O que é notícia
Chamados de “teólogos da floresta” pela antropóloga Helene Clastres, os guarani clamam pela justiça terrena, e confiam na justiça divina. A onça deles é Ñandejara - Nosso Senhor. De qualquer forma, eles estão exigindo que as instituições funcionem e que a justiça seja feita. A nossa capacidade de indignação deve ser canalizada para apoiar o clamor dos índios.
Um manifesto pedindo a punição dos assassinos de Nisio circulou nessa sexta-feira no Museu do Indio, durante o lançamento do livro Povos Indígenas no Brasil 2006-2010 produzido pelo Instituto Sociambiental (ISA). O livro será lançado em Manaus na próxima quarta-feira, dia 30.
No livro, com quase 800 páginas, vem o resumo de 810 matérias extraídas de 175 fontes no período de 2006 a 2010, entre os quais jornais de circulação nacional e jornais locais de quase todos os estados brasileiros. Traz fotos, iconografias, mapas, documentos, depoimentos, 166 artigos assinados por especialistas, enfim, um painel panorâmico do que aconteceu com os diferentes povos indígenas nesses últimos cinco anos, no campo da luta pela terra, educação, saúde, línguas, cultura.   
É interessante observar que grande parte das notícias publicadas pelos jornais sobre o tema é o resultado de um movimento feito pelos índios em direção à mídia. São poucas as matérias pautadas pelos próprios jornais, por iniciativa das empresas de comunicação, em que seus repórteres são enviados às aldeias indígenas em busca de informação.
Nos manuais que circulavam nos cursos de jornalismo era comum se definir notícia por aquilo que um fato tinha de inusitado, de inesperado. “Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia, notícia é quando um homem morde um cachorro”, era assim que nos ensinavam os velhos manuais.
Seguindo esse modelo, o assassinato de um índio não é notícia, afinal desde 1500 se vem matando índios nesse país. Só em 2010 ocorreram 60 assassinatos de índios, 34 dos quais em Mato Grosso do Sul. Mas isso não é notícia. Notícia seria se os pistoleiros fizessem com o filho de um desembargador ou de um rico empresário aquilo que fizeram com o cacique guarani. Notícia, pelo seu ineditismo, seria se os assassinos dos indios fossem julgados e punidos. Notícia, só quando a onça bebe água.

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21 Comentário(s)

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JAIRTON FÉLIX DA ROCHA comentou:
13/01/2012
Penso que violência acarreta mais violência. No entanto, diante da impunidade que permeia em nosso país, seria bom que a ONÇA VOLTASSE A BEBER ÁGUA...
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LexZiuGoUGFmUwOVFby comentou:
05/12/2011
Shiver me timbers, them's some great infoartmion.
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Paulo Bezerra comentou:
30/11/2011
"Se a justiça da terra não funcionar a justiça de Deus vai funcionar”. Com essa falsa visão da realidade, imposta pelos missionários e indigenistas intrometidos entre os índios, fica difícil a "onça querer beber água". Infelizmente ! !
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Mario de Oliveira Pinheiro (2) comentou:
29/11/2011
Isso foi superado pela história. Dona valéria pulou na barca e jogou o elemento negro como\" proprietário\".Aí vira samba de enredo ou samba do \"crioulo doido\".De confusão estamos cheios.Os cidadãos brasileiros só hão que falar em \"donos\" da terra quando em defesa de nossa soberania política face ao estrangeiro.Já temos por aqui muito pretensos \"donos\" de terras,prefeituras,estados, estado(sociedade organizada) que devem ser desalojados pela luta dos democratas pela república e pelo aprofu
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Mário de Oliveira Pinheiro comentou:
28/11/2011
Não sei onde a sra. Valéria foi encontrar "donos" em nossa terra. Aprendi que antes da "descoberta" Pindorama era habitada por "índios". Chegaram os europeus e começaram a tomá-la. Não havia negros aqui por essas plagas.Negros chegaram aqui po rum imperativo do mercantilismo, Inicialmente preados e depois comprados de outros negros também pelos europeus em África e trazidos para cá como mão-de-obra escrava.Históricamente falando essa terra é das centenas de etnias aborígenes.Isso foi superado
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Vera Thaddeu comentou:
28/11/2011
Todos os governos do Brasil democrático estiveram e estão comprometidos com a máfia capitalista, que no momento acelera a exploração... o modelo econômico do PT e cambada de ladrões é o mesmo da Ditadura Militar...
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Andrea Sales comentou:
28/11/2011
Impunidade...esta é a palavra que fortalece e legitima as ações de assassinos de inocentes.E mesmo com provas eles ainda são absolvidos como foi o caso do menino João Hélio finalizado semana passada. Culpado, que nada...o assassino apenas se defendeu...de uma criança de 5 anos!!!E assim se vão os caciques,crianças indígenas e não indígenas,mães...perdas que deixam um vazio do tamanho do mundo nos corações dos que ficam. Deixo a seguinte mensagem; A gente vai, mas o que somos fica! Ficam os son
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Assis Ribeiro (Blog do Nassif) comentou:
28/11/2011
Alguns devem estar se lamentando porque não tivemos por aqui um general Custer, herói americano.
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Leo V (Blog do Nassif) comentou:
28/11/2011
Só se pode dizer que tal coisa só continua a ocorrer por interesse e conivência dos governos estadual e federal.
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Mario Blaia (Blog do Nassif) comentou:
28/11/2011
Custer não é heroi, é um idiota, quando em combate, generais idiotas morrem, pena que muitos sigam com ele!
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Ana Stanislaw comentou:
28/11/2011
Infelizmente, nesses mais de 500 anos de historia os indios brasileiros continuam sendo mortos. Realmente, Bessa você tem razão a banalização do odio e violencia contra os indígenas não é noticia. Sentimos repulsa por esse sistema judiciario que fortalece o agrobanditismo e ignora os direitos desses que também são filhos dessa terra. Obrigada por mais essa!
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Vera Kauss comentou:
27/11/2011
Realmente, Bessa, quando a onça bebe água a notícia que saí é de que os "bárbaros", os "selvagens" agrediram, mataram, quando, na realidade, deveriam dizer "se defenderam"... Os ataques continuam... e a justiça cada vez mais mostra-se vendada e sem audição se os direitos a serem defendidos não lhe interessa... Situação revoltante!!!
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maria barcellos comentou:
27/11/2011
Essas histórias nos revoltam!!!!É possível entender a vontade de se fazer justiça com as próprias mãos.!!!! A nossa história está recheada de ações do judiciário que beneficiam apenas os bandidos!
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Arilza comentou:
27/11/2011
É isso, é preciso justiça
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Guilherme Carrano comentou:
27/11/2011
E acrescentando comentário a essa crônica lembro, antes de 1980 - em 1976 - quando pistoleiros e fazendeiros invadiram a Terra Indígena Meruri e assassinaram Simão Bororo e Rodolfo Lünkenbein, também por questões fundiárias. E quem está preso? E hoje ainda os graves problemas que envolvem a invasão da T.I. Marãiwatsede, dos Xavante, em MT, ainda invadida, e o JUDICIARIO e os EXECUTIVOS E LEGISLATIVOS ESTADUAL E FEDERAL envolvidos em sua não solução.
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Eliésio Marubo comentou:
27/11/2011
E digo mais caro Babá, tem uma fonte lá no Javari que vive cheia de água!! Os caciques Matis (conhecidos como "cara de onça"), Marubo, Mayuruna e Kanamari já disseram que não tarda a bebedeira que vão dar na onça. Já disseram muitas vezes, mas tem ministro "pagano" pra ver!!!
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Alexandre comentou:
27/11/2011
Obrigado por mais essa, Bessa. Suas crônicas nos fazem pensar historicamente nestes acontecimentos, algo que está cada vez mais raro, principalmente, em se tratando da apatia existente na universidade, na omissão e consentimento (quem cala...) da mídia 'chapa-branca' (maioria absoluta...) e, principalmente, no imobilismo dos movimentos sociais (salvo raras exceções...) perante às articulações políticas e ideológicas que levaram (e que fazem permanecer) o PT (o que poderíamos chamar de esquerda..
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Valéria Lourenço comentou:
27/11/2011
itePura verdade professor Bessa, é revoltante ver que os verdadeiros donos dessa terra (negros e indígenas) são os que mais precisam lutar para terem seus direitos respeitados. Esperamos revê-lo em breve aqui na UFRuralRJ. Sou ex-aluna da professora Giane Lessa.
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Giane comentou:
27/11/2011
Aqui na UNILA houve o Congresso Roa Bastos. Uma das mesas era sobre a cultura guarani. Vieram o sr. Pedro, um cacique e seu filho. Ele contou a saga da expulsão das terras: viviam onde hoje é o Parque Teconológico de Itaipu, justamente ali, onde pisávamos. Pediu humildemente ajuda, porque agora trabalham para fazendeiros, mal tem o que vestir e comer. Alguns nos sentimos indignos.. ocupávamos o lugar que era dele e ele nos vinha pedir.. Ele falou várias vezes em Ñandejara.. E é assim..
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Giane comentou:
27/11/2011
A crônica de um gole d'água anunciado.. parabéns Bessa pela argumentação brilhante sobre a injustiça de sempre e sobre a sede da onça que aumenta a cada dia.. Quando ela beber água anunciarão como selvageria, alguns dirão que a "catástrofe poderia ter sido evitada", só não se evita a catástrofe diária dos índios.. só Ñandejara? A onça dirá..
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VANIA TADROS comentou:
27/11/2011
EU NUNCA ENTENDI PORQUE EM OITO ANOS DE GOVERNO FERNANDO HENRIQUE E MAIS OITO ANOS DE GOVERNO LULA NÁO FORAM TOMADAS MEDIDAS SÉRIAS PARA REGULAMENTAR O CONFLITO DE TERRAS NO BRASIL INCLUINDO ÍNDIOS E BRANCOS. NINGUÉM ENTREGA O PODER DE BOA VONTADE. E TERRA É PODER. SE HÁ CONFLITOS O ESTADO DEVE SER O MEDIADOR DESTES,
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