CRÔNICAS

BABY SKAFF: UM CASAMENTO DE RAINHA

Em: 16 de Março de 2008 Visualizações: 5592
BABY SKAFF: UM CASAMENTO DE RAINHA

Escuta aqui, alguém pode me explicar o que está acontecendo? Paulo Skaf, presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não é aquele cara que vivia zanzando pelo Jornal Nacional, defendendo a extinção da CPMF? Não foi ele quem dirigiu a cruzada contra a cobrança do imposto, alegando que a indústria não agüentava mais pagar tantos encargos sociais? Não era ele que, de pires na mão, vivia por aí chorando miséria, dizendo que os empresários estavam arruinados?

Era. Era ele sim. Dava até pena. O chororó era tão convincente, que a gente tinha vontade de meter a mão no bolso ou fazer uma rifa pra lhe dar uns trocados. Mas se ele, coitadinho, estava tão duro, como é que festejou o casamento de seu filho, André Skaf, com um rega-bofe que “deixou embasbacada gente acostumada a freqüentar as festas mais deslumbrantes do Brasil”, como registrou Mônica Bérgamo, terça-feira, na Folha de São Paulo? 

O embasbacamento

Parecia “um casamento de rainha”, segundo o depoimento de uma testemunha. Os termos apropriados são mesmo ‘testemunha’ e ‘depoimento’, usados em casos de pessoas que presenciaram crimes. O que foi, afinal, que conseguiu deslumbrar o imbasbacável café society paulista? O grau inusitado de exibicionismo e de ostentação que rolou na festa.

Na quadra de tênis da casa da noiva, construíram cenário cinematográfico de  “paredes forradas por folhas de cipreste e arranjos de orquídeas chuvas-de-ouro, miúdas e amarelas; no ar um cheiro forte de dama da noite”. Cerca de 1.600 convidados entraram no local depois de passar por catracas com cartões magnéticos e encheram a pança com iguarias assinadas por Chatô.

É isso mesmo. A comida não foi cozinhada. Foi ‘assinada’ por um tal de Chatô, que na minha ignorância não sei de que buraco saiu, mas parece ser um ‘cordon bleu’. Pato assado com ervas e peras grelhadas, cogumelos e abóbora assada; robalo com molho de ervas e cordeiro grelhado; salada de figos com yogurte e massa com alcachofra; charutinhos árabes servidos ao lado de gesilte fish, comida típica judaica. Bebidas importadas: champagne taittinger, vinho bordeaux e domaine de la comtesse.

Entre os convidados: banqueiros, industriais e comerciantes, gordos e roliços, suas mulheres siliconadas e plastificadas e políticos da tropa de choque que extinguiu a CPMF. Na mesma mesa, comendo a mesma comida, bebendo a mesma bebida, respirando o mesmo ar, estavam FHC, José Serra, Geraldo Alkmin, Gilberto Kassab, misturados com ministros de Lula: Nelson Jobim, Mantega, Marta Relaxa-e-Goza Suplicy. Todos eles juntos, cúmplices, sorridentes, ricos e felizes, competindo pra ver quem era o mais empetecado.

O empetecamento

Nenhuma roupa foi costurada. Eram, todas, também “assinadas”. Mônica conta que a noiva vestia um tule de seda, branco, justo, até o quadril, com um decote ‘bateau’  e que “o bordado, que demorou quatro meses para ficar pronto, foi inspirado em uma renda francesa do século XIX”.  Quem assinou? Uma tal de Wanda Borges, desconhecida por 186 milhões de brasileiros, mas reverenciada pelos gatos pingados do andar-de-cima.

E as jóias? Nem te conto! A mãe da noiva, com vestido prateado ‘assinado’ por uma tal de Demi Queiroz, exibia um colar de diamantes considerado “um espetáculo, uma coisa nunca vista”, segundo “uma das convidadas especialista no assunto”, que falou para Mônica. “Você às vezes vê colares grandes, tipo babador, mas com diamantes pequenos. O dela não: é clean, de uma fileira só, mas com pedras grandes e poderosas”.

O desfile de jóias embasbacou até os especialistas. O tema das conversas e das fofocas era se o colar de esmeraldas de Dona Vicky Safra, mulher do banqueiro, era mais bonito e mais caro que o de diamantes de Dora Rosset. Fotos publicadas por Mônica Bérgamo mostram mulheres empetecadas, com cerol no cabelo, exibindo penteados que devem ter sido ‘assinados’ por alguém muito importante para o mundo deles, mas absolutamente desconhecidos por nós, leitores.

Quanto custou a festa, com cascata, chafariz de ouro e jacaré esguichando água pela boca, ‘assinado’ por algum arquiteto da moda? Se os 1.600 convidados doassem apenas aquelas jóias e roupas, isso em nada afetaria suas vidas, mas o valor permitiria construir um grande hospital, bem equipado, capaz de salvar vidas e mitigar o sofrimento de muitos brasileiros. Na época do debate sobre a CPMF, Paulo Skaf publicou carta em todos os jornais, considerando o imposto “supérfluo, inoportuno e desnecessário”, definição muito apropriada para a festa de casamento de seu filho que, sem qualquer radicalismo, tem, além disso, algo de criminoso.

Grã-finos caloteiros

O casamento de Baby Scaff nos dá saudades de Joel Silveira, que cobriu, em 1943, o casamento de Filly Matarazzo, com texto intitulado ‘A milésima segunda noite da Avenida Paulista’. Em outra reportagem, desancou os ‘Grã-finos de São Paulo’, criticando em linguagem desaforada a futilidade dos três segmentos da elite paulistana: o ‘quatrocentão’, que enriqueceu escravizando índios; o ‘grupo de reserva’, formado por descendentes de italianos e o ‘grupo estribo e penacho’, que não tinha dinheiro, mas fazia tudo para aparentar que sim.

O casamento de Filly, realizado no meio da fome e carestia da Segunda Guerra, se desdobrou em 26 jantares, 16 ceias, 14 coquetéis, 55 chás e um arsenal de festividades, documentados pelo ‘colunismo social’. Foi comparado por Joel com o casamento modesto de Nadir Ramos, operária de uma das fábricas da família Matarazzo. Edmar Morel, outro jornalista que deixou saudades, revelou que enquanto a população passava fome, uma égua de corrida, chamada Farpa, era alimentada como princesa.

A festa de Baby Skaf podia muito bem ser confrontada com o casamento de Janete Alves dos Santos, a última empregada da empresa Skaff, salário de R$ 1.577,20, demitida em janeiro de 2001. O jornalista Alberto Dines, no Observatório da Imprensa, em 2004, mostrou que Skaf era “um empresário sem empresa” e sem trabalhadores, que passou a viver do aluguel de suas máquinas. Além disso, era um tremendo caloteiro: devia à Previdência, à Receita Federal e aos seus antigos empregados.

Josias de Souza, na Folha de São Paulo, revelou que quando a Justiça penhorou os bens de Skaf, era tarde demais. Meses antes, a empresa havia aderido ao programa de parcelamento de débitos fiscais, criado em 2000 por FHC: o REFIS. Logo depois, em 2003, Skaf migrou do REFIS para o PAES, um programa  do Governo Lula, apelidado de MÃES. A dívida de Skaf foi parcelada em 143 meses. Enquanto isso, ele festeja, com a grana de impostos não pagos, esnobando os contribuintes otários da periferia que apoiaram a extinção da CPMF. 

Sorry, periferia

Festas como essas nos humilham e nos degradam. A grana que sobra no andar de cima é a que é retirada do andar de baixo. O pior é que, em menor escala, essas festas se reproduzem em todo o Brasil. Mônica Bérgamo registrou o seguinte diálogo mantido durante o casamento:

 – “Viu como se faz um casamento chique, Tasso? -  perguntava o vice-governador de SP, Alberto Goldman (PSDB-SP) ao senador e empresário Tasso Jereissati.  – Minha mulher está encantada. Vamos casar nossa filha e já estamos fazendo a pesquisa – respondia Jereissati, casado com Renata, da família Queiroz, uma das mais tradicionais do Nordeste”.

Será que a ‘pesquisa’ de Jereissati, da tropa de choque anti-CPMF, inclui o uso da mídia? O sociólogo americano Charles Wright Mills, nascido no Texas, constatou em 1960, dois anos antes de morrer, que o café-society norte-americano também necessitava da ostentação nas páginas dos jornais:

“A tinta de imprensa substituiu o sangue-azul. A chave de ingresso nesse mundo não é a tradição de formação ou dos costumes proporcionados pela riqueza herdada, mas o exibicionismo, o alpinismo social e a capacidade de se manter permanentemente sob a luz dos spot-lights”.

Não basta ter casamento de rainha. É necessário que pareça um casamento de rainha e, sobretudo, que se divulgue que foi um casamento de rainha, embora realizado com recursos de impostos não pagos. Para isso, são imprescindíveis os holofotes da mídia e os aplausos dos políticos em quem votamos. Já dizia o finado Ibrahim Sued, em seu livro “Vinte anos de caviar”: “o colunismo social é a gigantesca súmula da memória nacional”. Pois não é que é? Não existe melhor retrato do Brasil que a cobertura do casamento de Baby Skaff. Sorry, periferia

P.S. - Ver também O DIVORCIO DA RAINHA - http://www.taquiprati.com.br/cronica/92-o-divorcio-da-rainha

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1 Comentário(s)

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neimar m de souza comentou:
23/04/2017
Já comentei várias de suas crônicas, mas esta, confesso que fiquei sem fôlego ou com vergonha. Não sei ao certo.
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