CRÔNICAS

O DIVÓRCIO DA RAINHA

Em: 30 de Março de 2008
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Vocês lembram daquela rainha cujo casamento foi anunciado, há duas semanas, nessa coluna? Quem diria! Ela está se divorciando! Comentamos aqui a festa que deu para 1.600 convidados, helicópteros, limusines, mercedes, catraca na entrada com cartão magnético, desfile de jóias e colares com cenas exibicionistas de riqueza e ostentação. Pois é! Leitores escreveram: uns elogiando, outros espinafrando, todos me obrigando a noticiar, agora, o divórcio da rainha.
     
 - “Você é um ressentido social. O dinheiro é dele. Pode gastar como bem entender” - escreve um amazonense que vive no Canadá, defendendo Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
 
Tudo bem! Cada um tem direito de casar seus filhos como puder desde que “nadie escupa sangre para que otro viva mejor”, como canta o argentino Atahualpa Yupanqui. E é aqui que o fiofó da cotia assovia. Skaf deve à Previdência Social, à Receita Federal e aos seus empregados. A grana, portanto, não é dele.
 
Muita gente cuspiu sangue para a festa acontecer. Outra longa carta, escrita por uma leitora de São Paulo, inteligente e sensata, a quem não conheço pessoalmente, me convenceu disso. Embora eu não esteja de acordo com todos os argumentos dela, publico-a aqui, por considerar a autora representante de uma linha de pensamento que contribui para o debate.
 
A carta
 
Prezado colunista, acabo de ler sua crônica. Gosto e me divirto muito com o que escreve. Sou de São Paulo e nem sempre entendo os seus comentários regionais, mas acho-os saborosos. No entanto, no casamento do André Skaf, quero lembrar uma coisinha, se você me permite. Não conheço os envolvidos no acontecimento, nem tenho procuração para defendê-los. O motivo de lhe escrever é banal: sobra-me tempo hoje, sexta-feira santa, sozinha em casa, dona absoluta do computador.
 
Ex-classe média, hoje estou em plena queda social, sobrevivendo como sempre – desde os 16 anos – do meu trabalho, apesar de ser considerada ‘das zelites’, porque tenho inteligência, me esfalfei e tive a capacidade e a competência de estudar na USP à noite, após o trabalho. Portanto, não fui convidada para a festa.
 
Mas advirto que quando minha filha de 26 anos se casar, se possível for, daremos uma grande festa, um casamento de rainha, dentro do nosso conceito do que isso significa, e conforme nossa disponibilidade financeira. É assim que tem se comportado o gênero humano em suas mais variadas formas de expressão, raça e credo, quando o assunto são as bodas dos próprios filhos.
 
Casamento é sempre notícia boa, porque comemora a união de pessoas que, espera-se, formarão uma família saudável e feliz – a famosa célula mater da sociedade – e perpetuarão, antes de tudo, a espécie humana, não importa se de ricos (sacanas ou não), de emergentes novos ricos (cafonas ou não), de pobres (revoltados ou não) ou de miseráveis (manipulados ou não).
 
É claro que a condição dos noivos, objeto da sua crônica – ele, filho do presidente da FIESP, ela, herdeira da Cia.Suzano de Papel e Celulose – transformou o evento em comemoração política, pelo peso das amizades dos dois. Imagino que nas bodas da minha filha convidarei também os parentes e os amigos dela e meu.
 
Você talvez não saiba que libaneses (caso do noivo), semitas (caso da noiva), italianos, portugueses, espanhóis, japoneses e coreanos atuam nas áreas de comércio, saúde, cultura e indústria da cidade onde nasci. Estes últimos repovoaram um bairro que, antigamente, era reduto judeu e italiano, o Bom Retiro, e repetem a saga de seus antigos moradores: trabalham feito mouros e priorizam o estudo dos filhos. Sabem que é com conhecimento que se chega a algum lugar.
 
Tais imigrantes vêm com a cara e a coragem a um país estranho (meus avós maternos italianos, por exemplo), trabalham de sol a sol, não recebem nem nunca receberam bolsa de ninguém e, como lhes custou ganhar, sabem exatamente o preço de cada coisa. Lembro Luiz Gonzaga, o rei do baião: “uma esmola a um pobre que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”. Este é meu lado nordestino: minha avó paterna era baiana.
 
Voltando ao evento, permita-me corrigir: o banqueteiro chama-se Charlô. Dizem que prepara pratos deliciosos. Por outro lado, o fato de Paulo Skaf reclamar contra a CPMF, parece que rendeu algum fruto, pelo menos na minha conta-corrente sempre no vermelho. O imposto que havia sido criado por outro libanês, Adib Jatene, então ministro da Saúde, sofreu uma perversa inversão de valor.
 
Trabalho em uma empresa com nove funcionários sob minha responsabilidade. Tive exemplos de comportamento moral deplorável de pessoas que são tidas como honestas, só porque são pobres. Para mim, roubar R$ 50 milhões ou R$ 50 reais tem igual peso: ninguém é mais desonesto porque embolsou mais. Dê igual oportunidade ao andar de baixo, que só não pegará mais porque a mochila que leva a marmita é pequena.
 
“A grana que sobra no andar de cima é a que é retirada do andar de baixo”. Concordo com você. Mas me pergunto: o que faz o partido que empunhava até 2003 a bandeira da ética e que condenava a corrupção, com olhos esbugalhados e dedos em riste? Ficou igualzinho a quem criticava. Desconfio que essa história de meter o pau era despeito por não poder mamar nas mesmas tetas.
 
Muitos noivos, hoje, fazem cursos de dança e de canto, porque darão um show em suas bodas. Filma-se o dia da noiva e cada chilique nervoso que dá. O propósito maior foi esquecido. A festa é filmada como um programa televisivo. Digo a minha filha para esquecer essa história de filmagem. Bastam algumas fotos e pronto. O importante não é se exibir, mas guardar na memória e no coração.
 
Casamento é compromisso sério, que requer prática, habilidade, infinita paciência e profunda compaixão pelo ser mais próximo a nós. Comemora-se porque sempre há que se saudar com festa a repetição de um ritual de acasalamento. Eventualmente, dá pano para uma crônica zangada como a sua e para respostas chatas como a minha.
 
Foi depois de ler essa carta, que decretei, simbolicamente, o divórcio da rainha. Quanto ao Baby Skaff e sua noiva continuam casados,  graças a Alá.
 
P.S. 1 – Agradeço as cartas elogiando o testamento do Judas. Enviei-as para o avô do João Ratão, o dono das rimas.
 
P.S. 2  - Os Ticuna do Alto Solimões lembraram ontem o massacre do Igarapé do Capacete, ocorrido exatamente há vinte anos, em 1988. Voltaremos ao tema.

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