CRÔNICAS

UMA NOITE EM FOLIGNO

Em: 11 de Maio de 2008
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Quem tem boca vai a Roma, mas quem tem amigos em Roma vai direto à Perugia, sem parar em Foligno. No domingo passado, desembarquei em Roma e fui recebido por um casal de amigos. Ela, amazonense, é lá do bairro de Aparecida. Ele, italiano, está fazendo um documentário sobre Ermanno Stradelli, um conde rico, que viveu 43 anos no Amazonas e morreu em 1926, em Manaus, leproso e pobre. Os dois me despacharam num trem para Perugia, capital da Úmbria, considerada o coração verde da Itália.

As cidades da Úmbria têm santo pra cacete, parecem banhadas por um rio de água benta. Cruzá-las implica rezar uma interminável ladainha: Francisco, Clara e, de quebra, Rufino, estão em Assis, ora pro nobis; santa Rita, mumificada, dorme em Cácia, ora pro nobis; santas Ágata e Eufêmia moram nas basílicas de Spoleto, ora pro nobis; são Felipe Nery em Montefalco; são Fortunato, em Todi; santo Emiliano, em Trevi; santa Rosa em Viterbo, já na Toscana, e por ai vai, ora pro nobis, ora pro nobis... Tem mais santos na Úmbria do que pecador no Congresso Nacional em Brasília.

O turismo religioso, que é o motor da economia local, atrai muitos visitantes, mas o grupo de brasileiros que está aqui veio, em realidade, participar do XXX Congresso Internacional de Americanística realizado em Perugia, uma cidade antiga, com construções etruscas e romanas: muralhas, fortalezas, castelos, poços, portais, arcos e uma imponente catedral. O centro histórico está no alto de uma colina e a cidade vai se esparramando vale abaixo.

Todos os anos, Perugia é sede do congresso organizado pelo “Circolo Amerindiano” – um Centro de Estudos que pesquisa as culturas do continente americano e que conta com biblioteca especializada, acervo de documentação audiovisual, coleções etnográficas e uma revista semestral. Os estudiosos que participam do XXX Congresso apresentaram comunicações sobre os temas que pesquisam em diversos campos do saber: arqueologia, história, antropologia, etnobotânica, lingüística, literatura.
 
Uma questão bastante atual emergiu no debate sobre a construção de identidades na América Latina, a etnicidade, a mistureba de culturas e as dinâmicas de poder, o que permite refletir sobre um tema pautado hoje pela mídia brasileira na questão da terra indígena Raposa Serra do Sol. Os fazendeiros que buscam legitimar sua presença em terras indígenas, alegando que os índios não são mais índios “autênticos”, teriam muito que aprender com as comunicações aqui apresentadas.   
 
Duas sessões – uma hoje e outra amanhã – estão dedicadas exclusivamente à Amazônia indígena. Elas foram organizadas por Gerardo Bamonte, da Universidade de Roma, que faleceu na semana passada, deixando uma grande lacuna nas pesquisas realizadas sobre o tema pelos italianos. O outro organizador é Paride Bolletin, da Universidade de Perugia. Na busca para entender a região, pesquisadores de vários países amazônicos – brasileiros, equatorianos, peruanos, venezuelanos, colombianos – ao lado de estudiosos europeus, deram suas contribuições, partindo de diferentes campos do saber.

Da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) veio o cirurgião João Bosco Botelho para discutir o que aconteceu historicamente com os pajés, como foram vistos pelo mundo colonial e como são tratados hoje. A Universidade Federal do Amazonas (UFAM) está representada por Lino João Neves e José Exequiel, cujos trabalhos são conhecidos em Manaus, e a Universidade Federal do Maranhão pelo antropólogo Adalberto Rizzo, que estudou a cultura dos índios Ramkokamekra-Canela.

Especialistas de outras universidades brasileiras, que atuam em cursos de pós-graduação e que possuem publicações sobre a Amazônia ou temas afins, estiveram também presentes, entre os quais Sidnei Clemente Peres (UFF), Maria Eunice Maciel (UFRGS), Valéria Carvalho (USP), Edmundo Peggion UNESP) e Soraia Silva (UNB).  

O caso de Roraima

Como não podia deixar de ser num evento acadêmico como esse, a atual situação dos índios de Roraima mereceu atenção especial. Foi aprovada a seguinte moção de apoio:

“Nós, pesquisadores brasileiros e de diversas outras nacionalidades, estudiosos das diferentes culturas da América Latina, reunidos no XXX Congresso Internacional de Americanística, que se realiza em Perugia, Itália, de 6 a 12 de maio de 2008, manifestamos publicamente o nosso mais veemente protesto contra o ataque cometido na manhã do dia 5 de maio, que feriu com arma de fogo dez índios da área indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, norte do Brasil, de acordo com denúncia do vice-coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Terencio Manduca”.

“Queremos nos solidarizar, de um lado, com os índios feridos, entre os quais Alcides, Jeremias, Lene, Glênio, Tiago, Erivaldo, Xavier, Cleber e mais dois feridos gravemente na cabeça, e de outro, com a luta para permanecerem na terra que ocupam tradicionalmente desde tempos imemoriais”.

“Saudamos o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, que autorizou um mandado de busca e apreensão na Fazenda Depósito, permitindo a prisão de Paulo César Quartiero, seu filho Renato e nove capangas, por tentativa de homicídio, formação de quadrilha e porte de artefatos explosivos. Os responsáveis foram identificados com base em uma fita de vídeo gravada durante o tiroteio e no depoimento de algumas vítimas”.

“Finalmente, afirmamos nossa convicção de que a paz na região só será possível se as leis brasileiras e as convenções internacionais assinadas pelo Brasil forem respeitadas, garantindo assim a demarcação em área contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Perugia, 10 de maio de 2008”.

O documento deve ser enviado às autoridades brasileiras, incluindo ai os magistrados do Supremo Tribunal Federal, que nas próximas semanas decidirão sobre os destinos dos índios, de suas línguas e de suas culturas.

Quem tem boca volta a Roma, onde vai acontecer, depois de amanhã, terça feira, uma mesa redonda para discutir o estado atual de pesquisas na Amazônia na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade Sapienza. A delegação brasileira está rezando para que um de seus integrantes, conhecido antropólogo, não se perca no meio do caminho, como ocorreu na vinda. Sem amigos em Roma, ele pegou o trem errado e teve de descer em Foligno, onde passou a noite, porque já não havia mais conexão para Perugia.

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