CRÔNICAS

O REVÓLVER DO QUIDOCA

Em: 27 de Dezembro de 2009
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Quando ele nasceu, em 3 de outubro de 1935, o rio Branco estava transbordando. Boa Vista era, então, uma Macondo, com seus três mil e pouco habitantes e uma fila de casas alegres cercadas de água por todos os lados. A cheia havia atingido seu pico. A mata ciliar estava toda alagada. Os igapós, encharcados de vida. Os bosques, úmidos.  Mas foi exatamente nesse dia que as águas pararam de subir e o rio começou, lentamente, a baixar.
Filho da enchente que agonizava e da vazante que iniciava, o menino, meio anfíbio, perambulou na sua infância por rios, igarapés, furos e varadouros, em companhia do avô, com quem aprendeu a pilotar canoa e a ler os segredos da floresta. Com ele, pescava de arco e flecha, fazia armadilhas, coletava açaí, tucumã, buriti e pupunha naquelas terras que faziam parte do Estado do Amazonas.
Sua identidade entrou em crise em 1943. É que Boa Vista, desmembrada do Amazonas, se tornou nesse ano a capital do recém-criado Território Federal do Rio Branco. Aos oito anos, ele quis saber se ainda era amazonense ou se já era rio-branquense.
- Você é filho da floresta, do lavrado e do rio – sentenciou o avô, mascando tabaco de corda.  
Muitos anos depois, com o golpe militar de 1964, preso no Quartel do 27º BC, em Manaus, ele haveria de recordar aquela tarde remota, em que seu avô lhe dera de presente de aniversário um revólver de espoleta, com uma estrela desenhada na coronha, dizendo-lhe:
- “Nunca esqueça: você é um caboco de luta”.
Como num filme, imagens, e sons se sucediam em suas lembranças, acionando ainda a memória olfativa: o avô, o cheiro de pólvora e tabaco, o chiado do rabo quente...
Rabo quente
O revólver – uma novidade em Boa Vista - viera acompanhado de coldre, cartucheira vermelha e farta munição: uns rolinhos de papel cor de rosa com resíduos de pólvora concentrada em mancha marrom escura. Quando o gatilho disparava, a fita com as espoletas produziam um estampido seco, deixando no ar uma pequena nuvem de fumaça com olor de enxofre. Parecia “peido de velha”. 
Cavalgando seu potro tordilho pelo corredor da casa – tololoc, tololoc – ele passou o 3 de outubro de 1943 disparando incansavelmente contra nazistas alemães e fascistas italianos, cujos crimes eram transmitidos por um receptor de rádio americano de seis válvulas, contrabandeado da Venezuela por seu avô, e que era chamado de ‘rabo quente’, por causa do aquecimento do cabo de alimentação que o ligava a uma bateria.
Foi graças ao ‘rabo quente’ que ele conheceu a 2ª Guerra Mundial – uma estupidez dos países ditos civilizados, que matou 40 milhões de pessoas. A rádio, com chiado parecido à tosse de fumante do velho Santino, anunciava batalhas: o Exército Vermelho resiste em Moscou, os alemães se rendem em Stalingrado, a Luftwaffe bombardeia Londres, seus pára-quedistas ocupam Roma, o 5º exército americano invade Nápoles.
No fim daquela jornada de intensos combates, o guerreiro, obrigado pela tia, foi repousar. Quando acordou, o revólver havia desaparecido. Inconsolável, buscou-o pelos quatros cantos do mundo. Na ‘estrebaria’, onde deixara seu potro tordilho, encontrou apenas o cabo de uma vassoura. Desconfiou que os alemães, aproveitando o sono, roubaram-lhe o encantamento, o cavalo e a arma, ingredientes sem os quais não era possível lutar pela liberdade. Odiou ainda mais o nazi-fascismo. "Posso, sem armas, revoltar-me?" indagava Carlos Drummond no poema A Flor e a Náusea.
Durante três meses, ficou ligado no “rabo quente”, para ver se o roubo do revólver era noticiado. A rádio transmitia tudo: tanques blindados franceses na Córsega, Exército Russo em Kiev na ofensiva de inverno, força aérea britânica lançando 350 bombas de duas toneladas em meia hora, navio de guerra britânico afundando submarino alemão. Sobre o roubo de sua arma, necas de pitibiribas. O silêncio era revelador.
Revelador de quê? Eis que, no dia de natal, o mistério se desfez. Ao som de “Noite Feliz”, Papai Noel lhe trouxe um revólver de espoleta. Não era OUTRO revólver. Era o SEU, aquele com as marcas que ele próprio fizera na coronha. Acontece que sua tia, indubitavelmente aliada ao nazi-fascismo, por economia de guerra escondera o presente de aniversário para transformá-lo em troféu natalino. Desencantado, ele se fez adulto e rejeitou o esbulho. Atirou a arma no fundo do igarapé Jararaca, imitando o gesto teatral do general Rommel às margens do rio Vístula.
Time de tucumã    
O avô tentou compensar o prejuízo. Entrou com ele no mato e selecionou diferentes tipos dos melhores tucumãs. Serrou cada caroço, ralou, raspou, retirou o miolo do coco, lixou, pintou, engraxou, encerou, poliu e fez um time de botão, que embarcou pra Manaus, pra onde se mudou de mala e cuia logo depois da guerra. Lá viviam seus primos Rodolfo e Freida Bittencourt, hoje professores universitários.
Foi com o time do Vasco da Gama – “o Expresso da Vitória” - que ele estreou no campeonato organizado pelo Demasi, no porão de uma casa na esquina da Epaminondas com a Dez de Julho. Jogou com o time completo: Barboza, Augusto e Rafaneli, Eli, Danilo e Jorge, Chico, Maneca, Ademir, Ipojucan e Friaça. No banco de reserva: Tesourinha, Noca e Lelé. Os jogos eram irradiados, com cobertura de ‘O Jornal’.
Barboza, uma caixa de fósforos cheia de chumbo, fechava o gol. Os dois beques pesadões eram feitos de tucumã-açu. As casquetinhas de tucumã-piririca se deslocavam agilmente no ataque, com a ajuda de um pente de osso comprado no Mercadão. O Vasco só perdeu para o time do Moisés, da Bandeira Branca, empatando com o do Tonico, filho do Domingos Sapateiro. Foi vice-campeão.
Quando se mudou para Curitiba, em 1954, Euclides Coelho de Souza - o Quidoca - deixou seu time de caroço de tucumã aos cuidados de Félix Valois e do Júlio Martins. Grande agitador e membro do Partido Comunista, ele participou da luta estudantil, das greves, das passeatas, do movimento cultural, do CPC da UNE, do teatro político, até que veio o golpe militar de 1964. Escondeu-se em Roraima. Lá foi preso e levado para Manaus. Tudo isso, ele lembrou anos depois quando estava preso no Quartel do 27º BC. 
Perseguidos pela ditadura militar, Euclides e sua mulher Adair foram condenados a quatro anos de prisão, se exilaram, estudaram no Teatro Kuklo de Moscou, percorreram vários países da América Latina, a Europa e o Japão, encantando milhares de crianças com as peças montadas pelo Teatro de Bonecos Dadá. Este locutor que vos fala teve o privilégio de conviver e trabalhar com os dois, no exílio, com quem muito aprendeu, inclusive a compartilhar o frango nosso de cada dia.  
Hoje, aos 74 anos, Euclides, o maior titiriteiro da América Latina, brinca com bonecos no seu teatro em Curitiba, usando-os como arma de divertimento, de arte e de reflexão. Com entusiasmo e fervor de menino, ele leva idéias, alegria, riso, beleza e magia a um público cativo. Agora, quer reaver seu time de caroço de tucumã, uma relíquia dos anos 1950 e, através da coluna, pede ao advogado e ex-deputado Felix Valois que devolva o time no estado em que estiver.
Devolve, Valois! Quem sabe, dessa forma o Quidoca não recupera também um pedaço da infância perdida?
P.S. Sugiro que a Câmara Municipal conceda o título de cidadão honorário de Manaus a Euclides Coelho de Souza, esse filho da floresta, do lavrado e do rio, caboco de luta que não esqueceu as palavras do avô e dedicou sua vida ao combate pela justiça social e pela liberdade. Na cerimônia de entrega, o Teatro Dadá pode muito bem se apresentar no plenário da Câmara. Crianças e adultos vão adorar.
 
 

 

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1 Comentário(s)

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comentou:
10/08/2010
carmba nao tem cronica menor
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