CRÔNICAS

A PASTORAL DA PROPINA

Em: 06 de Dezembro de 2009
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Hoje, domingo, o Maracanã vai ser palco de um espetáculo grandioso, com chuva de papel picado, cem mil balões, bandeiras vermelhas e pretas e uma torcida apaixonada – a maior do Brasil - saudando o Flamengo, que pode se tornar Campeão Brasileiro de 2009, no jogo contra o Grêmio. Se enfiar um fio de alta tensão no bumbum da torcida rubro-negra e ligar num transformador, dá pra abastecer de luz uma cidade do porte de Manaus, dispensando hidrelétricas antiecológicas.  O Maracá, hoje, vai tremer.
O que é que nós, vascaínos, podemos fazer para impedir essa vitória? Nada? Ora, incrédulo leitor, a fé remove montanhas, como prova o episódio a seguir. Só agora vou revelar, publicamente, um segredo mantido a sete chaves: tenho a pretensão de haver contribuído para o Vasco se sagrar três vezes campeão em 2000: da Taça Guanabara, da Copa Mercosul e do Campeonato Brasileiro. Modéstia à parte, minha participação foi tão decisiva quanto os gols de Romário.
Uma graça
Foi assim. Dona Elisa, minha santa mãe, moradora num modesto beco do bairro de Aparecida, em Manaus, era uma mulher de fé inabalável, militante ativa em duas pastorais: Catequética e da Saúde. Visitava e confortava os doentes do bairro, aplicava injeções, ensinava catecismo e preparava as crianças para a primeira comunhão. A Paróquia lhe deu placa de bronze comemorativa de 50 anos de catequese.
Talvez por causa dessa entrega incondicional, de missionária, conquistou prestígio com o Homem lá de cima com quem mantinha – ela dizia - “uma relação pessoal de amizade”. Beliscava a barriga de Deus com a maior intimidade. Conversando com Ele, na base do cochicho, resolvia qualquer problema: doença, desemprego, brigas conjugais, câncer, encosto, frieira, pereba, curuba, etc. Tudo o que pedia, obtinha. Até milagres. Sua reza, poderosa, era capaz de entortar uma colher ou de paralisar ponteiro de relógio. Ela era a Uri Geller da fé.
Então, com uma mina dessas dentro de casa, pensei meio calhordamente: por que não capitalizar essa energia em benefício próprio? A oportunidade surgiu, em 1999, num dia chuvoso, quando passei por Manaus. Antes de sair para a igreja, como fazia diariamente, ela me perguntou:
Vou rezar. Quer alguma coisa, meu filho?.  
Na maior cara de pau, respondi:
 - Quero. Reze pro Vasco ser campeão.
Ela ficou ofendida:
Você né besta não, José? Imagina se Deus, com tanto problema, vai se ocupar de futebol! Peça outra coisa. Não me misture coisa sagrada com profana. 
Expliquei que o futebol era uma espécie de religião, cujo ritual mobilizava mais gente do que todas as igrejas juntas. Argumentei que era minha felicidade que estava em jogo. Não adiantou. Ela não rezou. Por isso, naquele ano o Vasco se ferrou e deu Corinthians na cabeça. Estou convencido disso.
Foi aí que entrou em cena o canalha do neto dela, meu sobrinho, o ‘Pão Molhado’, cuja única virtude é ser também vascaíno. O ‘Wet Bread’, como é conhecido em Miami, me ensinou o caminho das pedras. Ele ficou apaixonado pela Graça, uma caboquinha que morava no Plano Inclinado – “um filezinho, tio” - mas ela fugia dele como o diabo da cruz. A situação mudou. “Por causa das orações da vovó, a menina deu pra mim a maior bola”- ele confessou, lambendo os beiços.
Fiquei intrigado. Se dona Elisa recusara rezar para o Vasco, como é que ousou pedir a Deus para satisfazer os baixos instintos do ‘Pão Molhado’? O biltre me explicou:
Tio, deixa de ser leso, tem que saber pedir. Falei pra ela: ‘vovó, reze pra eu obter uma graça especial’. Aí, ela rezou por uma graça minúscula e eu papei uma Graça maiúscula, porque na reza falada, diferente da escrita, não aparece a letra, só o som.
Reconheci a esperteza do meu sobrinho, que driblou dona Elisa para chegar a Deus. No ano seguinte, camuflei minhas intenções e encomendei a ela orações por uma ‘graça especial’, pensando no meu time.  Foi assim que o Vasco ganhou os títulos.
Panetone nosso
Eis o que queria dizer: é preciso saber pedir. Essa estratégia funcionou com a quadrilha de Brasília. As imagens divulgadas na TV mostram a bandidagem escondendo dinheiro no bolso, na cueca e nas meias, no episódio do mensalão, tudo isso prá quê? Oh, céus, pra comprar panetones e distribuí-los aos pobres. Estava lá o primeiro escalão do governo e o próprio governador José Roberto Arruda (DEM – viche, viche!), flagrados com a mão no cofre pela Policia Federal, na Operação Caixa de Pandora.  
Sem qualquer escrúpulo, os sacripantas criaram um grupo de oração. O ex-deputado distrital Júnior Brunelli foi filmado enquanto fazia uma "oração pela propina". As imagens são chocantes e patéticas. De mãos dadas e olhos fechados, três bandidos de colarinho branco rezam, agradecendo a Deus a ‘graça especial’ alcançada. Com a versão candanga do Pai Nosso, impetraram um habeas corpus preventivo: “O Panetone nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai a formação do Caixa 2, assim como nós perdoamos os outros partidos que antes de nós desviaram recursos”.
Esse é o dado novo do mensalão do DEM (vixe, vixe!). Eles criaram um modus operandi inédito e despudorado: usar a reza como alavanca para arrombar cofres públicos, o que não foi registrado em nenhum lugar do mundo, nem com os dois mensalões operados pelo careca Marcos Valério: o do PSDB de MG, em 1998, e o do PT, em 2005. O Brasil é mesmo o país mais cristão do mundo. Até pra roubar, a gente reza. E na falta de cueca, esconde dólar dentro da bíblia, como fez a bispa Sônia.
Arruda já solicitou ao Papa Bento XVI a canonização de Judas Iscariotes – o que botou na ceroula trinta dinares - para sagrá-lo padroeiro da Pastoral da Propina. A Oração a São Judas Iscariotes, rezada em Brasília, diz: “São Judas Iscariotes, apóstolo incompreendido de Cristo, eu te saúdo e te louvo, por haveres usados os 30 dinares para pagar a conta da Última Ceia, sendo injustamente acusado de vendilhão e traidor. Quero te imitar, comprometendo-me a usar o dinheiro desviado em obras sociais. E$pero alcançar a graça que imploro através de tua interce$$ão. Amém”. 
No Amazonas, surgiram vários grupos de oração. Um deles, com os agentes de pastoral Amazonino Mendes, Carijó, os irmãos Souza e Orleir Messias Cameli, do Acre. O outro com Dudu Braga, Belão, Mello e Adair, todos eles rezando a versão regional do Pai Nosso: “A pupunha nossa de cada dia, nos dai hoje”. Todos esses agentes da Pastoral usam cuecas com seis bolsos sanfonados, três na frente e três atrás.
Com a voz embargada, Arruda disse que confia na Justiça. Todos eles confiam. Pudera! Até eu! Na reeleição para governador de Minas, no século passado, mais precisamente em 1998, Eduardo Azeredo (PSDB) montou esquema de desvio de dinheiro e só agora, no dia 3 de dezembro, é que o STF, em votação apertada, abriu ação penal para investigar as denúncias. A defesa dele vai apresentar “embargo de declaração”, e não há previsão de quando deve começar a ação penal. Eu falei COMEÇAR, porque onze anos depois do crime, ela ainda não começou.  
Numa atitude subserviente e de absoluta dependência, o novo ministro do STF e ex-advogado do PT, José Toffoli, votou a favor de Azeredo, pelo arquivamento da denúncia, talvez se precavendo com o processo aberto em 2007 contra 40 pessoas envolvidas no mensalão do PT, entre eles, o ex-ministro José Dirceu.  
Mais chocante ainda do que a imagem da bandidagem rezando e desmoralizando a oração, é a anestesia quase geral da nação e a impunidade desse tipo de crime. Nesse sentido, o que ainda nos salva é a invasão e ocupação da Assembleia Legislativa de Brasília pelos meninos do PSOL. Quem diria: na continuidade da ação desses meninos repousa a nossa esperança e o nosso destino!
P.S. 1 – Vou ao Maracanã, mas antes rezo com minhas irmãs por uma graça especial. Só mesmo um milagre tira o título do Flamengo, que joga contra o time de reserva do Grêmio. Vamos rezar, antiflamenguistas do mundo inteiro! De qualquer forma, o pecado da pastoral do futebol é muito menor do que o da pastoral da propina.
P.S. 2 – Quem? O Pão Molhado? Hoje é um cidadão decente, alcançou uma graça especialíssima e em alguns meses será pai. Não sabemos ainda o sexo da criança: se será uma bolachinha d’água e sal ou um biscoitinho molhado. Qualquer dos dois será recebido com festa e alegria.
 

 

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