CRÔNICAS

O CÃO DO LUSO

Em: 20 de Julho de 2008
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O Brasil está ficando cada vez mais parecido com Fuente Ovejuna, aquele vilarejo da Espanha, que ganhou fama por causa da peça teatral escrita por Lope de Vega (1562-1635), o pai da comédia espanhola. Esse autor se baseou em fatos verídicos ocorridos na época da conquista da América para denunciar as injustiças do sistema feudal que, felizmente, agonizava.

A peça mostra os abusos do Comendador Fernán Gómez, governador de Fuente Ovejuna. Com ajuda de seu exército particular, formado por soldados fortemente armados, o tirano ambicioso cobra impostos exorbitantes dos camponeses, apropriando-se da colheita de trigo e cevada, das frutas e legumes, dos gansos e galinhas. Mata e esfola quem resiste. Por isso é denominado de ‘fera sangrenta’ e ‘bárbaro homicida’.

Além disso, o bode libidinoso e depravado reivindica o ‘direito de pernada’ para estuprar as filhas dos camponeses – Pascuala, Eulália, Inez, Jacinta, algumas delas menores de idade. Tenta violentar a bela Laurência, quando lavava roupa à beira do rio. Ela, então, apressa seu casamento, mas o Comendador, ‘demônio cruel’, interrompe a cerimônia, rapta a noiva, prende o noivo e manda açoitar os pais do casal.

Os moradores de Fuente Ovejuna ficam indignados com esses crimes, mas, intimidados, não reagem. Afinal, a quem recorrer, se o próprio Comendador, um nobre, representante do poder constituído, é justamente o encarregado de aplicar a justiça? Além disso, a ‘pernada’ era um direito imposto ao conjunto da sociedade feudal. A violência, portanto, não é apenas dele, mas de todo o sistema.

Esse filme a gente já viu. O Brasil inteiro assiste com igual indignação e impotência os acontecimentos envolvendo nobres banqueiros. O ex-dono do banco Marka, Salvatore Cacciola, bronzeado, sorridente, sem algemas, diz cinicamente referindo-se a ex-diretores do Banco Central: “As pessoas que foram condenadas comigo no processo estão livres, trabalhando, ganhando dinheiro. Eu confio na Justiça Brasileira”.

O banqueiro Cacciola tem razões de sobra pra confiar na Justiça. Ele deu um golpe, causando um prejuízo de R$1,6 bilhão ao Brasil. Foi preso pela Polícia Federal (PF) em 2000, e condenado por fraude e peculato, mas fugiu pra Itália, onde foi gastar nosso dinheiro, beneficiado por hábeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Agora, extraditado, volta lépido e fagueiro, consciente de que será solto. Injusto não é apenas o juiz que invoca a lei para libertá-lo, é todo o sistema judicial.

Outro que confia na Justiça é o também banqueiro Daniel Dantas, acusado de chefiar uma quadrilha responsável por crimes financeiros. Para livrar sua cara, tentou subornar um delegado com 1 milhão de dólares, tudo filmado, comprovado. Preso duas vezes, foi imediatamente libertado pelo STF. Seu advogado manobrou para que o pedido fosse feito no plantão do ministro Gilmar Mendes, conforme e-mail interceptado pela Polícia. Com antecedência, Dantas já havia anunciado que confiava no STF.

Quem não confia na Justiça é um jovem de 18 anos, Jefferson Monteiro, que tentou (mas não conseguiu) arrancar um cordão de ouro do presidente do STF, Gilmar Mendes, em Fortaleza (CE). Sem antecedentes criminais, com residência fixa, ele é réu primário, mas não conseguiu hábeas corpus para responder o processo em liberdade. Permanece preso há 21 dias. Sua família está revoltada, achando que os banqueiros recebem tratamento privilegiado, enquanto Jefferson sequer pode receber visita do pai. O STF, representado por Gilmar Mendes, é capaz de se colocar na pele do banqueiro, mas desdenha o pequeno ladrão.

A gente não agüenta mais ver, impotentes, tanta injustiça e tanta impunidade. É como se os fatos transcorressem em uma telenovela, cuja história não pode ser alterada por nós. Podemos apenas assisti-la. Somos meros espectadores. O brutamontes do Leo enche de porrada a pobre da Catarina, humilhada e oprimida, e ela todas as noites apanha calada, com aquela cara de égua, é tão revoltante que dá até vontade de invadir a tela da TV Globo e mudar o roteiro de ‘A Favorita’. Mas nós não somos autores nem atores, pelo menos dessa história, e acabamos esquecendo que podemos sê-lo da outra História.

No Amazonas, Fuente Ovejuna é Coari, cujo prefeito Adail Pinheiro cometeu mil atrocidades e permanece impune, protegido pelo governador, blindado pela Assembléia Legislativa, com as bênçãos do Judiciário. Além dele, o juiz Francisco Ataíde, acusado de receber propina para libertar presos, recebe como punição a aposentadoria com seus vencimentos garantidos. “É uma questão de humanidade”, diz o relator do processo, Domingos Chalub. É bebé? Por que Chalub não ajuda o colega com dinheiro do próprio bolso? Ele quer ser bonzinho e ‘humano’ com dinheiro do contribuinte, não com o seu.

Milhares de candidatos com ficha suja em todo o Brasil tentam ganhar um hábeas-corpus nas urnas. No Amazonas, o Ministério Público pediu impugnação das candidaturas a prefeito de Amazonino Mendes e Omar Aziz, ambos respondendo a várias ações por improbidade administrativa, com repercussão nacional. Mas todo mundo sabe que não vai dar em nada. O próprio Amazonino, que entende do babado, já declarou que “no Amazonas se compra juízes, desembargadores e procuradores”.

Ao leitor que está chegando agora, conto como termina a peça Fuente Ovejuna. Laurência foge e invade uma casa onde estão reunidos os homens. Ferida, com os cabelos desgrenhados, faz um discurso inflamado, chamando-os de galinhas, de maricones e de pastores covardes que entregam suas ovelhas ao lobo. Convoca, então, as mulheres: - “Queremos armas. Vamos combater”.

Provocados em seus brios, os moradores – mulheres e homens - armados com espadas e lanças, invadem o palácio e fazem justiça com as próprias mãos. Matam o Comendador. O juiz, enviado pelo rei, tortura cada um deles perguntando: - “Quem matou o Comendador? Cada um deles responde: “Foi Fuente Ovejuna, Senhor”. O juiz insiste: -“Quem matou o Comendador”? Eles respondem: - Fuente Ovejuna, um por todos, todos por um”. Ninguém delata os autores da ação coletiva.

Fuente Ovejuna, escrita em versos, se tornou um patrimônio da literatura universal. Conta a rebelião do povo que se une para fazer justiça com as próprias mãos. Foi encenada no palco e na vida real, em várias línguas, talvez pela vigência do tema da indignação popular contra a impunidade. Os personagens mulheres são decididamente mais fortes e corajosos que os homens. É Laurência que com seu discurso mobiliza a todos para lutar contra a tirania. Lope de Vega, que escreveu 426 peças, era - digamos assim - a TV Globo da época.

Bom, e o cão do Luso, por que aparece nessa história? É que há 50 anos os autos de Natal eram encenados no teatro do Luso Sporting Clube, em Manaus. A figura do diabo, que ficou conhecida como ‘o cão do Luso’, atormentou as crianças da minha geração. E foi lá, no palco do antigo Luso, que Omar Aziz recebeu anteontem o apoio – meu Deus do céu! – do PCdoB. A deputada Vanessa Graziotin (PCdoB), que merece nosso respeito, deve ter ficado constrangida de emprestar seu nome e sua trajetória limpa para apoiar o Comendador Omar Aziz, que é o próprio cão do Luso. Como em Fuente Ovejuna, esperamos que no Brasil as mulheres desempenhem o papel histórico que lhes cabe e possam contagiar toda a sociedade na busca da Justiça.

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1 Comentário(s)

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Eduardo'Flores comentou:
26/11/2010
Fuenteovejuna é o lugar onde nasci, onde nasceram meus pais e os pais de meus pais. Uma vila socegada, entre olivais e vinhedos. Do ruivo trigo em agosto, a branca neve em dezembro. Um bosque, onde correm as águas de um arroio espesso, a saciar a mesma sede de ovelhas e pastores...a trocar seus produtos, no burbirinho da feira!!!! Uma das falas mais comentadas e decoradas de "Fuenteovejuna" (peça teatral)!!!! 100% CIA CEM CARAS DE TEATRO!!!!!!!!!!
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