CRÔNICAS

A HISTÓRIA DE UM ESQUECIMENTO

Em: 10 de Agosto de 2008
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""“Quiero escribir, pero me sale espuma / quiero decir muchisimo y me atollo”.

Esses versos do poeta peruano César Vallejo martelam minha cabeça, enquanto procuro um tema para a conversa de hoje. Tem que ser algo do meu e do teu interesse, exigente leitor (a). Acontece que ainda estou em Lima, onde passei a semana participando do VII Congresso Internacional de Etnohistória. Apresentei um trabalho sobre a história das línguas no Amazonas. Posso escrever sobre isso. Será que te interessa?

A língua falada pela maioria dos amazonenses até o século XIX era o Nheengatu. Essa situação só mudou no período da borracha, entre 1877 e 1914, quando 500 mil nordestinos, falantes de português, entraram na região. Foi aí que o português predominou e nós esquecemos o Nheengatu. Até aí, tudo bem: línguas nascem, crescem e morrem. O grave, porém, é que ninguém lembra mais que esqueceu. Pensamos que aqui sempre se falou o português. “O que se opõe à memória não é o esquecimento, mas o esquecimento do esquecimento”, sugere o filósofo francês Giles Deleuze.

Esquecemos que esquecemos. Embora a história desse esquecimento seja, para mim, apaixonante, e desperte interesse em pesquisadores de outros países, algo me diz que se abordo esse tema aqui, vou encher o saco de muita gente. Abro meus e-mails e as cartas de leitores tocam num único assunto: a eleição para prefeito de Manaus. Mas estou sem cabeça para comentar fatos locais. Como Vallejo, quero escrever, mas só me sai espuma, quero dizer muitas coisas e me atolo.

Busco, então, um tema peruano nos jornais e na televisão. Assisto no teatro Yuyachkani uma peça, onde os atores falam quechua. Visito a exposição ‘Purito Peru’ sobre a identidade peruana. Saio às ruas frias e cinzentas de Lima. Converso com pessoas gentis e discretas, em busca de inspiração. Mas para onde me viro, só vejo eleição para prefeito de Manaus. Acho que fui contaminado pela obsessão dos leitores. A prova disso é a visita que fiz à catedral de Lima, na Praça de Armas, onde tem uma exposição de arte sacra.

Conversas na catedral

A exposição abre com um quadro do Sagrado Coração de Jesus, seu dedo indicador da mão direita chama alguém, com uma frase escrita: “Dejen que los niños vengan a mi, porque el Reino de Dios pertenece a ellos”. Por mais que eu tente evitar, é impossivel não lembrar o candidato do PMDB (vixe, vixe!) Omar Aziz, acusado de ter repetido essas mesmas palavras, embora em circunstâncias nada sagradas e em português: “Vinde a mim as criancinhas”.

Aí, outro quadro me faz lembrar o Negão (PTBesta, vixe, vixe!), porque mostra um lobão de dente arreganhado, com as presas gotejando sangue, mas disfarçado em pele de ovelha. A citação do Evangelho de São Lucas (6,43) não deixa dúvidas: “Tengan cuidado con los falsos profetas, que vienen a ustedes disfrazados de ovejas, cuando en realidad son lobos feroces. Ustedes lo conocerán por sus frutos”. É. É o Negão mesmo, querendo vestir o paletó do Jefferson Peres.

Saio da catedral, meio tonto. Na banca de jornal, a primeira página de ‘El Commércio’ denuncia um vereador da Municipalidad de Miraflores que quer que o governo municipal pague os gastos de saúde de cada um dos concejales. A notícia então, me transporta para Manaus no início dos anos 90, quando a Câmara de Vereadores, presidida por Omar Aziz, viveu o escândalo dos ressarcimentos.

Vocês lembram? Os vereadores de Manaus aprovaram lei que obrigava a Câmara a pagar todos os gastos médicos deles. Só deles. Era pessoal. Alguns apresentaram recibos falsos, outros incluiram familiares. Consultavam médicos em Miami e em Houston. Em 1994 um taquiprati intitulado ‘O vereador que ficou grávido’ comentava os gastos de Roubério Braga, o Berinho, com ginecologistas: uma nota preta. Omar Aziz também meteu a mão na bufunfa. Foi uma locupletação geral. A lei acabou sendo derrubada.

Um dos poucos vereadores que resistiu e denunciou a mutretagem, com muita coragem e determinação, foi Francisco Praciano. Jogaram até bomba na casa dele. Grande Praciano! Manaus teve alguns vereadores de quem todos nós podemos nos orgulhar pela inteireza de caráter, pela honestidade, pela combatividade e pela inteligência. Vanessa Graziottin, Francisco Praciano, Serafim Corrêa e Jefferson Peres com certeza encabeçam a lista. Não podemos esquecer isso. Faz parte da memória política da cidade.

Abaixo o latinorum

Finalmente, abro parênteses para comentar notícia que não está vinculada à eleição para prefeito de Manaus, mas tem a ver com a aplicação da justiça. É sobre a juíza peruana Roxana Jiménez Vargas, titular da 43 Vara Civil de Lima. Ela é diferente de seus colegas juízes, porque decidiu abolir o formato tradicional das sentenças que usa palavras dificeis e citações em latim. “As sentenças devem ser elaboradas para serem entendidas pelo cidadão, pelo homem comum e não apenas por advogados”, declarou ela aos jornais locais.

Pode uma pessoa aceitar a decisão de um juiz se ela não entende o que diz a sentença? A juiza Roxana acha que o acesso de todos à Justiça implica transparência judicial, ou seja, que as decisões dos magistrados sejam claras e publicadas na internet. Essa clareza facilita, inclusive, o direito de criticar as resoluções judiciais. Ela acha que deve haver uma mudança na própria formação universitária, os estudantes de direito devem aprender a falar e escrever como gente. Orozimbus Nonatorum superatus est.

A juíza Roxana criou um modelo próprio de sentença muito comentado pelos jornais peruanos. Nada de latim, nem de ‘vistos’ e ‘considerandos’ que costumam encabeçar as sentenças. Em vez disso, ela escolheu subtítulos bem sugestivos como: Assunto, Petição, Exposição do caso, Contestação, Análise do caso. Usa frases curtas, parágrafos breves, palavras de fácil entendimento. “Uma redação enrolada – diz a juíza – muitas vezes oculta o desconhecimento do caso ou a intenção do juiz de favorecer injustamente a alguém”.

Fecho parênteses e concluo. Pensei em escrever sobre a história de um esquecimento. Na realidade, os esquecimentos são muitos. Nós esquecemos, porque outras histórias cabeludas surgiram, mas é bom que ninguém esqueça que esqueceu. Sobretudo na hora de votar. Deixo essas espumas para o leitor meditar.


 

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