CRÔNICAS

MANAUS: CIDADE DERROTADA E MAL-AMADA (SÉRIE MANAUS I)

Em: 04 de Fevereiro de 1987
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"Toda ciudad es un destino porque es, en princípio, una utopia"
(Salazar Bondy em "Lima, la horrible"
 
Este chão que nós pisamos, hoje, neste ano de 1987, na cidade de Manaus, foi trilhado e palmilhado nos últimos milênios por milhões de pés anônimos. Como é que o território onde foi erguida a cidade de Manaus era habitado no período denominado de pré-história? O que passava pela cabeça das pessoas que aqui viviam? O que mudou e o que permaneceu através dos tempos? Como era o cotidiano dessas pessoas?
Numa série de seis artigos, nós pretendemos traçar algumas linhas do processo evolutivo de ocupação do nosso chão.
O primeiro artigo, a ser publicado na próxima semana, busca situar o território da Amazônia no século XVI, mostrando que o espaço amazônico não era um "lugar selvagem". Ele foi ocupado, hierarquizado e, portanto, humanizado pelos povos indígenas que aqui viveram antes da invasão do europeu. Mas esse fato é encoberto hoje pelos que se consideram herdeiros dos conquistadores e até mesmo é desconhecido pelos descendentes dos conquistados.
No primeiro artigo intitulado "Amazônia: a civilização de palha" reproduzimos as observações dos primeiros viajantes e dos cronistas sobre as formas como as nações indígenas ocupavam o solo, como construíam, as suas habitações, qual o papel que as malocas tinham na conformação dessas sociedades e, finalmente, o que é que isso tudo tem a ver com a Manaus de hoje.
Terra dos Barés
O segundo artigo intitulado "Rio Negro: as malocas e as muralhas", depois de apresentar um quadro geral da região banhada pelo rio Amazonas, entra  a cidade de Manaus, cujo território era habitado por povos indígenas de língua Aruak, abrindo um destaque para os Manáo, Baré, Tarumã, Baniwa e Passé.Tentamos ainda refletir sobre as razões das diferenças, por exemplo, de uma maloca enorme e multifamiliar dos Baré para as habitações em forma cônica dos Manáo.
No terceiro artigo - "Manaus: terra dos Barés" - procuramos acompanhar o destino dos povos indígenas que aqui habitavam, descrever suas casas e indagar sobre suas formas de conceber o mundo, após a construção em 1669, pelos portugueses, do Forte de São José do Rio Negro, bem como o que foi que o colonizador edificou no lugar das malocas. Quando fundaram Manaus com o nome de Lugar da Barra há 318 anos, os portugueses estavam selando o destino do manauara de hoje?
"Lugar da Barra: o curral de índios" é o quarto artigo que discute o papel que o novo núcleo populacional desempenhou no mundo amazônico como "curral de índios" ou depósito transitório de escravos indígenas que eram aprisionados e levados depois para Belém do Pará. Destacamos ainda a vida desta aldeia rural durante todo o período colonial e nas décadas posteriores à Independência até o momento em que o Amazonas é elevado a categoria de Província, em 1850, como Manaus como capital.
O quinto artigo - "A Paris dos Trópicos" - se concentra no processo de urbanização que Manaus sofreu no período áureo da borracha comandado pelo governador Eduardo Ribeiro e seus sucessores. Em geral, este período é muito exaltado porque se destaca o fato de Manaus ter se modernizado e ter sido  dotada dos serviços básicos de infra-estrutura urbana. Com a ajuda de alguns autores, mostraremos o outro lado da moeda.
Finalmente, no sexto e último artigo - "A Miami Brasileira" - ficamos frente à frente com a "Manaus dos Sonhos do Prefeito" que pode ser vista como a "Manaus dos nossos pesadelos". Abordamos brevemente a Zona Franca de Manaus e seus reflexos sobre a estrutura urbana da cidade, bem como o projeto "Manaus Moderna".
A tapera queimada
Esse conjunto de artigos que você vai ler nas próximas semanas faz parte de um artigo mais consistente que foi publicado pela revista "AU - Arquitetura e Urbanismo" editada em São Paulo pela Pini Editora. A intenção é cutucar a memória e identificar alguns elementos históricos que permitam acompanhar a trajetória de ocupação do território onde foi erguida a cidade de Manaus, destacando aspectos do processo de urbanização realizado quase sempre para atender interesses de fora contrários às necessidades da população local.
Embora focado na História, não são artigos acadêmicos, porque para tanto necessitaríamos usar outra linguagem e explicitar as fontes usadas, o que parece não ser adequado para leitores de um jornal diário ou de uma revista direcionada a um público de não iniciados. Mas a História nos convém aqui para acompanhar os rastos, os vestígios e a pistas que permitam delimitar a profundidade das raízes do quadro urbano da Manaus atual.
Hoje, a população de Manaus, como regra geral, reage indignada, quase com espírito bairrista, quando os visitantes e turistas manifestam-se muitas vezes agradavelmente surpresos por se encontrarem, apesar de tudo, diante de uma cidade com traços marcadamente indígenas do ponto de vista histórico, cultural e ecológico. Parece que ninguém quer se identificar hoje com os vencidos de ontem - os índios - porque isso implica assumir o fato de que Manaus é uma cidade derrotada.
Derrotada e mal amada. Mal amada porque desconhecida. A civilização de palha erguida na Amazônia - resultado da experiência milenar e coletiva dos povos indígenas - faz parte de um passado que a ideologia dominante teima em considerar "atrasado", "bárbaro", "não histórico" e "já superado", embora ele tenha contribuído com soluções inteligentes, criativas, inventivas e originais nas formas de se apropriar e de habitar o espaço amazônico.
Nós conhecemos muito pouco ou quase nada sobre o modo como os índios pisaram o nosso chão. O resultado de tal ignorância é a ruptura da continuidade espacial entre a sociedade mestiça em construção hoje e aquilo que havia anteriormente.
Em consequência, nós passamos a buscar angustiadamente "no outro" a nossa identidade perdida. Queimamos a tapera dos Manáo para construir, em seu lugar, a Paris dos Trópicos e, em seguida, a Miami brasileira,  num processo realizado em detrimento da qualidade de vida. O elo com o passado era de vidro. E se quebrou.
Os textos aqui publicados foram escritos com muito amor e com muita raiva. Amor pela nossa cidade, pelo povo do qual fazemos parte, triste, humilhado, subnutrido e desorganizado, sem consciência de seus direitos básicos, sem perspectiva de luta. Raiva contra aqueles responsáveis por manter essa situação - os mesmos que estão destruindo a nossa cidade e degradando as condições de existência dentro dela. Vamos continuar permitindo que eles façam o que querem? Como quer Walter Benjamin "o inimigo não parou de vencer" e é necessário dar um basta no "cortejo triunfal em que os senhores de hoje caminham por sobre o corpo dos vencidos".

(Na próxima quarta-feira Amazônia, a civilização de palha")

P.S. Com o título Manáos, Barés e Tarumãs, os artigos aqui mencionados foram publicados em um único texto pela revista Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (ano 3, n°10 fev/mar 1987) e pela revista do Museu Amazônico "Amazônia em Cadernos" (n°s.2/3 1993/1994). Uma versão desdobrada em vários artigos foi publicada pelo jornal A CRITICA de Manaus (fev/mar de 87) e, pelo Jornal da Região O PARINTINS na mesma data. As referências bibliográficas dos livros aqui citados podem ser encontradas no livro organizado pelo autor "A Amazônia no período colonial" (Editora Metro Cubico, 1987).

 

 

 

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