CRÔNICAS

MANAUS, A MIAMI BRASILEIRA (SÉRIE MANAUS VII)

Em: 30 de Março de 1987
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.Não há mais o mistério e das matas / um rumor de alvorada se escuta.

Hino do Amazonas (1980), Letra Jorge Tufic, música Cláudio Santoro
 
A criação da Zona Franca de Manaus (ZFM), em 1967, implantou um modelo econômico baseado na exploração da força de trabalho barata amazonense, na concessão de incentivos fiscais pelo Estado a grupos privados nacionais e multinacionais, na isenção de impostos, na transferência de lucros acumulados para fora do Estado sem reinvestimento produtivo. Criou, para tanto, o Distrito Industrial, onde se concentram as novas fábricas de montagem, cuja produção é destinada ao mercado externo e não utiliza qualquer matéria prima regional.
Com a ZFM, Manaus inchou, espraiando-se em todas as direções e invadindo o espaço da floresta. A população pulou de 200 mil habitantes nos anos 60 para 953.307 em 1980, atingindo os 2 milhões em 2010. Nos primeiros vinte anos, as novas indústrias criaram 40 mil novos empregos, mas não absorveram o exército de cabocos, que em fluxo contínuo, migravam do interior em direção à capital, o que modificou a paisagem da cidade, criando problemas graves relacionados ao saneamento, coleta de lixo, água encanada, esgoto, sistema viário, transporte coletivo, moradia, saúde e educação.
Nos primeiros momentos da ZFM, a infraestrutura urbana de Manaus continuou praticamente a mesma de 1910, limitada ao centro comercial e residencial. A cidade não estava preparada e nem se preparou para receber o proletariado industrial e o exército de reserva. Os "filhos da floresta" que vêm apodrecer em Manaus - os sem terra, sem teto, sem cidadania - passaram a invadir sistematicamente os espaços desocupados nos arredores da cidade para erguerem aí as suas habitações.
Em 1969, a área invadida da Compensa, recebeu a denominação de ‘Cidade de Palha’, como referência ao tipo de material usado na construção de casas – o mesmo das habitações cônicas dos índios Manáo, só que em novo contexto. Os próprios moradores ergueram as paredes, traçaram artesanalmente as ruas e lotearam os terrenos.
O arremedo de Miami
A partir de então e até os dias de hoje - nesse momento é a Vila da Paz II - as invasões foram se sucedendo umas após as outras, criando favelas, sem esgoto, sem água encanada, mergulhadas na poeira e na lama, ligadas por transportes coletivos precários e irregulares. O próprio Plano de Governo 1971-1974, em plena ditadura militar, reconhecia « a existência de um grande número de barracos que não possuem as mínimas condições de habitabilidade » e chamava a atenção para o cinturão de miséria, fome, desemprego, marginalidade, delinquência, prostituição e mendicância que cercava Manaus.
A Companhia de Habitação do Amazonas (Cohab-Am) iniciou a construção de conjuntos habitacionais financiados pelo BNH, totalizando cerca de 7.633 unidades residenciais nesse período, sem contudo resolver o problema. Esses conjuntos praticam uma política de terra arrasada, derrubando as árvores e deixando o terreno nu, desrespeitando as características das culturas locais. O "mistério da mata" é abolido junto com ela, como canta o hino oficial do Amazonas.
O traçado urbano da cidade também sofreu alterações que desrespeitaram a cultura e a tradição amazônica. Milhares de novos veículos passaram a circular pelas vias da cidade, despreparadas para recebê-los. Avenidas de largas pistas foram abertas - é certo - mas se limitaram a ligar o centro comercial com o aeroporto, com o Hotel Tropical e com pontos de escoamento dos bens produzidos, deixando abandonada toda a periferia e os bairros proletários.
Os 37 km de braços de rios e igarapés que ainda circulam dentro da área urbana – sobreviventes da borracha – foram considerados pelas autoridades como pontos de estrangulamento e obstáculo para o escoamento do trânsito. Tratados como inimigos, esses cursos de água foram condenados à morte da mesma forma que os povos que habitavam as suas margens, para dar passagem ao "progresso". Seis igarapés importantes, pontos de referência da cidade, foram afetados pelo projeto denominado "Manaus Moderna", atualmente em fase de execução.
O projeto elaborado em segredo pelo Governo do Estado, que obteve junto ao Banco Mundial um empréstimo inicial de 100 milhões de dólares, repassado em etapas sucessivas às empresas construtoras e de consultoria, objetiva: construir uma grande pista de 5 km unindo o centro ao Distrito Industrial, margeando a orla do rio Negro e passando por seis braços de rio que hoje estão ocupados por 50 mil famílias que vivem em situação de miséria absoluta. O projeto original não contemplava criação de área de lazer ou plano de arborização.
Os mistérios da mata
O conceito de espaço urbano e de vida coletiva não se faz presente no processo de expansão de Manaus. O espaço das praças do período da borracha foi reduzido, as árvores nos jardins e vias públicas foram derrubadas para dar lugar a pistas de carro, estacionamentos e garagens e até mesmo para a edificação de prédios públicos. É o caso da sede da Secretaria de Educação construída na Praça da Saudade.
Os novos conjuntos habitacionais não contemplam espaços verdes para áreas de lazer ou praças, não possuem redes de esgoto e suas calçadas - onde existem - foram construídas de maneira irregular pelos próprios moradores, obrigando os pedestres a caminhar pelas pistas – lugar de lazer das crianças – num combate contínuo com os carros.
O lixo toma conta das principais artérias, à espera de que os urubus façam os serviços dos garis. O jogador mineiro Reinaldo, de passagem por um clube local de futebol, manifestou publicamente em 1986 o seu horror pela quantidade de urubus e moscas que infestam a cidade, provocando indignadas reações de tom provicinano.   
A agressão à natureza e à ecologia transformou o clima da cidade. Longe de ser aquele clima « ameno e agradável » constatado pelos viajantes até o final do século XIX, Manaus se transformou numa sauna. As construções do kitsch zona-franquense, de tremendo mal gosto, janelas retas e quadradas, lambris de metal, vidro fumê e ar refrigerado, buscam como modelo, agora, a cidade de Miami, onde quem enriqueceu com a Zona Franca vai passar suas férias. Construções que se contrapõem à floresta e aos igarapés, num modelo gerador de favelas.
O escritor Márcio Souza, nascido em Manaus, observa com propriedade que a atual arquitetura de sua cidade natal contradiz as experiências da arquitetura ecológica de Severiano Porto, cujos projetos resgatam os materiais locais e a criatividade indígena na busca de soluções para habitar, modernamente, o espaço amazônico.
O Hino a Manaus, escrito por Madre Dias, com uma visão idílica e romântica da cidade foi banido das escolas, onde era cantado. As crianças que moram nesse arremedo de cidade desconhecem hoje «suas róseas madrugadas de baunilha perfumadas » ou « os seus grandes belos lagos onde garças vão pousar ». Nem perfume, nem garça, nem lago, nem a última estrofe do hino: “Tuas selvas tem magia / oh Manaus que poesia / nas tuas noites de luar. De ti, oh minha cidade / terei um dia saudades / se de ti me separar”.
A referência inevitável aos Baré, Manáo e Tarumã, quando se olhava para a cidade, desaparece gradualmente. "A terra em flor dos Barés" cantada no Hino do 2° Congresso Eucarístico de Manaus, em 1952, é substituída pelo "fim dos mistérios das matas" presente na letra do Hino Oficial (1980) gravado pelo Coral da Assembleia Legislativa em parceria com a Banda da Polícia Militar.
Quem nunca andou debaixo de árvores, não sabe que tem direito à sombra. Um  no povo sem memória, com a identidade fraturada, é um povo incapaz até para nutrir sonhos, sonhos do presente para com o passado e para com o futuro que se pretende construir. O resgate desse passado histórico, a tomada de consciência das experiências coletivas são pré-condições para que a população de Manaus se organize e impeça que sua cidade, iniciada sobre os escombros de um cemitério indígena, continue sendo edificada sobre os cadáveres de seus descendentes.  
P.S. - O texto aqui postado em 08/01/2015 é basicamente aquele que foi escrito em 1987. Precisa ser atualizado. Passados quase 30 anos, muita coisa mudou como sinalizam algumas pesquisas realizadas e o redesenho proposto pelo Instituto Municipal de Ordem Social e Planejamento Urbano (IMPLURB) presidido pelo arquiteto Roberto Moita.

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