CRÔNICAS

Aos professores Alexandre e Isidoro

Em: 19 de Outubro de 1993 Visualizações: 985
Aos professores Alexandre e Isidoro

.Se hoje conhecemos um pouquinho mais a Amazônia é graças ao legado de naturalistas estrangeiros que percorreram e estudaram a região nos séculos XVIII e XIX, num diálogo com os indígenas, cujos saberes foram por eles registrados. As contribuições de La Condamine, Alexandre Rodrigues Ferreira, Von Humboldt, Spix, Martius, Spruce, Gardner e tantos outros continuam atualmente como referências para aqueles que fazem ciência no Museu Goeldi, no INPA e nas nossas universidades.

Dois naturalistas ingleses tiveram um significado especial: Alfred Russell Wallace (1823-1913) e Henry Walter Bates (1825-1892), que renderam homenagem aos seus professores nativos sem os quais não teriam podido coletar e classificar mais de 8.000 espécies da floresta amazônica e de seus rios, que foram remetidas ao Museu Britânico.

Os dois chegaram ao Brasil em 1848 e encontraram a Amazônia dilacerada pela Cabanagem. Wallace permaneceu apenas três anos, enquanto Bates ficou até 1859. Estudaram a flora e a fauna e produziram, de quebra, conhecimentos etnográficos e históricos com observações deliciosas sobre a cidade de Manaus que podem ser lidas em dois livros, ambos traduzidos e editados pela USP-Itatiaia na Coleção Reconquista do Brasil.

No último sábado (16), o escritor Antônio Callado, em artigo na Folha de SP, mexeu com os nossos brios ao comentar que Wallace poderia ser relembrado pelo menos duas vezes neste ano de 1993, mas provavelmente não terá nem nascimento nem morte evocados em sua nativa Grã-Bretanha, nem no Brasil.

Na Inglaterra, a data não poderia passar em branco, porque Wallace foi quem descobriu, por conta própria o princípio da luta pela vida e pela sobrevivência, apresentando ao mundo científico em coautoria com Darwin uma súmula do que ambos pensavam acerca da seleção natural.

Darwin nasceu em berço de ouro e viveu sempre de rendas. Wallace era um pobretão e a vida inteira ralou duro. Callado lembra que, em termos políticos, Wallace foi socialista, propondo uma reforma agrária radical. Estava mesmo condenado ao esquecimento.

Talvez, uma forma de homenagear Wallace, cuja morte completará 80 anos no próximo dia 7 de novembro, seja refletir sobre como ele e Bates se tornaram sábios e profundos conhecedores da Amazônia.

Dotados de sólida formação científica, com extraordinária capacidade de observação e disciplina rigorosa de trabalho, eles haviam assimilado o que o conhecimento europeu havia produzido de mais avançado na época. Essas eram condições necessárias, mas não suficientes para revelar os mistérios da Amazônia. Era preciso, além disso, sabedoria e humildade para aprender com aqueles que detinham o conhecimento da região. Esses eram ainda mais humildes que Wallace, mas haviam, por seu lado, digerido a cartilha da floresta, que continham os saberes milenares produzidos pelos índios.

O negro Isidoro e o indígena Alexandre foram os professores que, nem sempre com paciência, transmitiram aos dois cientistas ingleses aquilo que sabiam. Bates reconhece isso, quando escreve no capítulo IV de “Um naturalista no rio Amazonas”:

- “Nosso auxiliar mais valioso era Alexandre, um dos índios do sr. Leavens. Tratava-se de um jovem tapuia, inteligente e afável, perito em navegação e incansável caçador. À sua dedicação devemos o fato de terem sido levados avante todos os objetivos de nossa viagem”.

Cognominado de “Capitão”, o índio Alexandre ensinou aos dois cientistas como classificar bichos e plantas e introduziu-os na taxonomia e na ciência da floresta, com observações valiosas sobre o comportamento das tartarugas, jacarés e outros animais. Foi ele o responsável por grande parte da coleção botânica e zoológica enviada para Londres, caçando pássaros, veados, macacos e coletando insetos e borboletas.

No rio Negro, Wallace teve a oportunidade de continuar a aprendizagem com outros índios. Quando retirou as penas de uma arara vermelha, descobriu que ela não tinha as cores que a natureza lhe havia dado, “pois esses índios dominam a arte de alterar a coloração das penas dos pássaros”.

Wallace, no segundo capítulo da “Viagens pelos rios Amazonas e Negro” nos apresenta o outro professor:

- “Isidoro, o velho guia que atualmente se dedicava aos serviços domésticos, trabalhando como cozinheiro e pau para toda obra, labutara outrora na floresta, estando a par não só dos nomes de todas as árvores, como também de suas propriedades e empregos”.

Segundo Wallace, Isidoro não tinha muita paciência com a ignorância dos dois cientistas:

- “Era um homem de comportamento quase taciturno, salvo quando se irritava com a nossa incrível incapacidade de compreender suas explicações. Aí ele passava a gesticular com veemência. Gostava de exibir seus conhecimentos sobre esses assuntos acerca dos quais ainda nos encontrávamos no estágio da mais completa ignorância, mas cuja aprendizagem queríamos efetivamente alcançar”.

Wallace dá mais detalhes sobre a pedagogia do professor Isidoro:

- “Seu método de ensino constava de uma série de rápidas observações sobre as árvores à medida que íamos passando por elas. Ele dava a impressão de estar falando antes com as árvores do que propriamente conosco, exceto quando solicitávamos algum esclarecimento adicional”.

A sala de aula era a própria floresta. Nas longas caminhadas, Isidoro, o descendente africano que aprendera com os índios a ler a natureza amazônica, ia explicando tudo direitinho.

- “Esta – dizia – é a ucuuba, remédio muito bom. Serve para dor de garganta”.

Para que os gringos aprendessem melhor, Isidoro usava seu próprio corpo como material didático e, “como ilustração, fingia fazer gargarejos, enquanto apontava para a seiva aquosa que escorria do tronco ferido”.

Wallace descreve uma dessas aulas, onde Isidoro aponta para a cupiúba e explicava ser madeira boa para fazer casa e assoalhos. Outras, para fazer remo e outras ainda, para fazer carvão.

O Isidoro sozinho era uma escola de tempo integral, se responsabilizava pela merenda escolar, cozinhando saborosos pratos regionais. No final de uma de suas aulas, derrubou uma palmeira de açaí para extrair palmito, preparando-o para os seus dois alunos famintos.

- Trata-se de um alimento saboroso, de paladar levemente adocicado”- comenta Wallace.

Para completar, a escola de Isidoro oferecia ainda assistência médica. Quando Wallace apareceu mancando, com um pontinho preto do tamanho de uma ervilha, encravado em seu dedo, com uma coceira braba, o diganóstico foi feito por Isidoro:

- “É bicho-de-pé”.

O próprio Wallace quis extrai-lo com uma agulha, mas não conseguiu. Uma vez mais seu professor lhe foi útil, ensinando-o a esfregar um pouco de rapé no local, o que ele fez, ficando inteiramente curado.

Diante do saber dos índios acumulado ao longo dos séculos e transmitido oralmente, Wallace concluiu que “os índios do vale amazônico parecem superiores, tanto física como intelectualmente”, concordando assim com um viajante que o antecedera, o príncipe Adalberto da Prússia.

Entre tantas outras histórias, o naturalista inglês conta como houve um diálogo, uma troca de conhecimentos entre eles e os índios. Um dia, no meio da floresta, depois de jantar um porco, Wallace estava arrodeado por “treze índios nus que tagarelavam numa língua desconhecida. Apenas dois deles sabiam falar o português” e fizeram perguntas sobre a Inglaterra:  

- “Fiquei conversando com eles, respondendo as mais diversas perguntas. De onde vinha o ferro? Como se fazia a chita? No meu país nascia a planta que dava papel? Havia lá muitas mandiocas e bananas? Eles ficaram espantadíssimos quando lhes contei que lá só havia homens brancos. – Então, quem é que trabalha? Outra coisa que não podiam compreender era como seria possível viver numa terra sem floresta”.

Antônio Callado tem razão. Merecem uma homenagem especial. Os formandos dos cursos da Universidade do Amazonas, em vez de ficarem puxando saco de autoridades locais, como foi feito recentemente com Amazonino, podiam muito bem, depois de lê-los, escolherem como patronos Alexandre, Isidoro, Wallace e Bates, por representarem eles a articulação do conhecimento científico com o saber tradicional – a sabedoria profunda a nós legada, que dignifica a raça humana.

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