CRÔNICAS

LULA, CRISTO, JUDAS E AS ALIANÇAS POLÍTICAS

Em: 25 de Outubro de 2009 Visualizações: 4959
LULA, CRISTO, JUDAS E AS ALIANÇAS POLÍTICAS

“Se Jesus Cristo nascesse no Brasil e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. (Lula, em entrevista a Folha de S. Paulo, 22/10/2009).

Vamos ver se isso é verdade. Supunhetamos que Jesus nasceu em Belém. Podemos imaginar as circunstâncias. Foi assim: estamos na periferia de Belém do Pará, em 1980. Uma caboca bonita, do pé roxo e de olhar triste, chamada Maria, e seu marido Zé, trabalhador de uma serraria, visitam a prima Isabel. É de noite. Faz um calor amazônico. Eles sintonizam a Rádio Aurora, emissora concedida à cunhada do senador Gilvan Borges (PMDB/AP–vixe!). Eis que de repente o programa “Alô Alô Amazônia”, entre tantos avisos para os ouvintes do interior, coloca no ar um anúncio surpreendente:

- “Alô, alô, Dona Maria! Alô, alô, Dona Maria, no bairro do Jurunas, Rua Mundurucus esquina com a Travessa dos Apinagés! Gabriel, o Anjo do Senhor, anuncia que a senhora vai conceber e dar à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e reinará eternamente na casa de Jacó e seu reino não terá fim”.

O último que soube da notícia foi seu Zé, coitado, ali, num cantinho, fumando um Continental sem filtro. Tentando disfarçar, Maria disse pra prima: - “Eraste, maninha! Eu, hein! A buchuda aqui és tu!”. Acontece que uma buchuda sempre reconhece a outra. Bebel, grávida de seis meses de Zacarias, ex-jogador do Paissandu, avaliou com um olho clínico a barriga da prima e saudou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre”. A caboca Maria confessou, então, a recente gravidez e cantou o mais belo carimbó já gravado pelo Pinduca - o Magnificat:

- “Dona Maria chegou, chegou, com a mandioca / Glorificando ao Senhor, Senhor, com a tapioca”. E completou: “O Senhor fez em mim maravilhas / Santo é seu nome. Saciou com maniçoba os famintos / deixou os ricos sem nada. Derrubou do trono os poderosos / e exaltou os humildes”. Esse era o programa de vida da criança que ia nascer.

Entre os doutores

Pronto! Acabamos de parir o Cristo brasileiro do Lula. Ele nasceu num casebre, perto do Forte do Presépio, no dia 25 de dezembro de 1980, no segundo ano da presidência do general Figueiredo, sendo governador do Pará o coronel Alacid Nunes. O tetrarca de Ananindeua era Jader Barbalho, conde de Abacatal. Naquele mesmo ano, nasceu o PT, comandado por Lula, líder das greves históricas de quase 200 mil trabalhadores do ABC paulista, com piquetes e assembléias gigantescas em estádios de futebol.

Os pais de Jesus iam todos os anos, em outubro, para as festas do Círio de Nazaré. Numa dessas, o menino, que tinha apenas doze anos, se perdeu no meio de dois milhões de romeiros que seguiam à procissão. Maria e José registraram o desaparecimento na Delegacia do Jurunas, na av. Roberto Camelier. Três dias depois o acharam num auditório do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), no Campus Universitário do Guamá, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os.

Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com a sabedoria dele. E sua mãe lhe disse: “Meu filho, que nos fizeste? Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição”. Ele respondeu, conjugando o verbo saber como nenhum brasileiro o faz: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu País? Estava conversando com doutores formados na França - Rosa Acevedo, Edna Castro, Raul Navegantes, Jean Hebétte – mostrando pra eles meu compromisso com os famintos, os humildes, os cativos”.

O menino cresceu em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens. Fez tudo o que tinha de fazer. Foi batizado no bosteiro do rio Guamá, viajou pelo Marajó e baixo Amazonas, operou milagres – o maior deles foi sobreviver em condições de extrema miséria. Falou em comício, um deles com o palanque armado em cima de uma montanha: “Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis!”. Eram promessas carregadas de esperanças, sonhos, utopias. Esse era seu programa! Para difundi-lo, arregimentou doze militantes, entre eles alguns pescadores e feirantes do Ver-o-Peso.

Foi aí que o conde de Abacatal resolveu tentá-lo, levando-o para a Jaderlândia, em Castanhal. Mostrou-lhe, o viveiro de rãs, os bois no pasto, as terras e as fazendas Rio Branco e Campo Maior, os cofres cheios de grana desviada do Banpará, e disse-lhe, com mesóclise e tudo: “Dar-te-ei todo este poder e a glória desses reinos e todos os projetos financiados com dinheiro da Sudam, que agora são meus. Tudo isso será teu, se renunciares a teu programa, te prostares diante de mim e beijares minha mão”. 

Beijo de Judas

Jesus Paraense respondeu, então, ao conde de Abacatal: - “Saca fora, capiroto! O meu reino não é o deste imundo. Está escrito: o Espírito do Senhor paira sobre mim, porque me ungiu e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para anunciar aos cativos a libertação e a redenção”. Com essa atitude, Jesus Paraense recusou a coligação mostrando que Lula se equivocou, não sobre a necessidade de fazer aliança, sem a qual não existe vida política, mas com a escolha dos parceiros.

Coligar é saudável. Mas com quem? Para que? O próprio Jesus Nazareno fez isso. Ele não precisou vir ao Brasil para atrair Judas, com quem de fato se aliou. Judas Iscariotes se tornou militante de seu partido, era o apóstolo responsável pelas finanças. Afinal, custa dinheiro fazer campanha pela Galiléia, Cafarnaum, Nazaré, etc. Judas, o cara que arrecadava fundos para as viagens, era uma espécie de delúbio sem mensalão. Mas quando Judas contrariou o programa traçado no Sermão da Montanha, Cristo rejeitou a aliança com ele e preferiu ser crucificado entre dois ladrões.

O erro de Lula, portanto, foi não definir os limites das alianças. Quando ele afirma que, aqui no Brasil, Cristo se aliaria a Judas, está tentando justificar seu pacto com Renan Calheiros, Sarney, Collor, Jader Barbalho, não em torno de princípios, mas do mais abominável fisiologismo, do toma-lá-dá-cá, trocando apoio por cargos, prebendas e favores, exatamente como fez o FHC.

Lula – eu acho – foi o melhor presidente do Brasil. Quem não concordar, que me indique outro: Deodoro ou Floriano? Prudente de Moraes? Sarney, Collor, Itamar? No entanto, Lula foi só isso: um presidente um pouco melhor que os seus antecessores. Mas ele não inovou, não avançou, não reformou, não revolucionou nada, como a gente esperava de um metalúrgico nordestino, sofrido e inteligente, num país sempre governado por doutores. Ao contrário, manteve e fortaleceu as forças políticas retrógradas, não tocou nas estruturas corrompidas, podres e arcaicas do Brasil.

Lula governou, renunciando a muitos itens do programa do PT, numa aliança na qual quem tem a hegemonia em diversas áreas é o Judas, que matou a utopia e impôs suas práticas políticas, sua metodologia, sua falta de princípios. O dano que isso causa à juventude não tem tamanho. Sinceramente, Lula poderia fazer muito mais na oposição, cobrando, exigindo, fiscalizando.

Se Cristo, imitando o Lula, aceitasse beijar a mão de Judas, a Última Ceia seria a primeira de tantos rega-bofes e acordos políticos. Através de decretos secretos, Pilatos nomearia tia Isabel para a Direção Geral de Creches, o primo João Batista para a Superintendência dos Cemitérios, Barrabás para chefe da Casa Civil e até o Anjo Gabriel para o Conselho da ANAC, ganhando uma baba. Com o pacto, a governabilidade estaria garantida e Cristo não seria crucificado - é verdade - mas também não mudaria o mundo. Com essa base governista, sua gestão seria medíocre e seu reino teria fim, como o de Lula terá.

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12 Comentário(s)

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Carlos César Durigan (via FB) comentou:
26/07/2017
Ótimo. E não nos esqueçamos da inesquecível frase qdo eleito para o segundo mandato: Índio e Ambiente são entraves ao desenvolvimento. A meu ver, as alianças pela governabilidade em 4 mandatos só serviram à desconstrução de alianças positivas que já existiam, e seu produto final é o que vivemos hoje.
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Elson Melo (via FB) comentou:
26/07/2017
O registro histórico é bom por nos revelar coisas que em um determinado momento pareciam ser um ato de relevante grandeza, mas na pratica anunciava uma grande tragédia no futuro. Tragédia que nos obrigam a engolir seco as reformas do Temer e o que é pior, a total apatia da sociedade e principalmente dos movimentos sindical e popular. Como um bom sindicalista, Lula promoveu ganhos imediatos, porém sem consistência para o futuro. Meu camarada José Bessa a sua parábola confirma que Lula agiu como o insensato da parábola de Jesus Cristo. "...Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda". Coincidência? Claro que não! Lula optou pelo lado mais fácil da história... E foi grande a queda!
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Rosa Helena Mendonça (via FB) comentou:
25/07/2017
Bessa, gosto muito das suas análises, mas com todos os equívocos, muita coisa avançou nos governos do PT. Vejo a foto e acho que Lula é muito diferente, desde sua origem, dos demais.. Também gostaria de uma reforma política profunda, mas como governar isolado do congresso? Dilma tentou...
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César Simões comentou:
25/07/2017
É preciso urgente discutir essa questão de alianças, quem faz aliança com bandido, mesmo com boas intenções, acaba se sujando,
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Isabela Torres de Castro Innencio comentou:
25/07/2017
Adorei, professor. O senhor escreveu, e de uma forma muito clara, a transformação de uma pessoa que poderia ter entrado para a história, mesmo sem ganhar eleições posteriormente, como o melhor presidente do Brasil. Não, não mesmo... não vale a pena, por poder e por dinheiro nenhum do mundo, aliar-se a desumanos, hipócritas e "vende pátria" para estar "eternamente" no poder. Observei e li muitas postagens dos meus ex-professores, mas sempre...desde as suas aulas...o senhor foi um exemplo para mim, pois é preciso, nesse momento tão triste e caótico, não perder o "juízo", como muito bem disse um professor universitário do sul do país...defendendo o "indefensável"...bem, é o que eu penso. Abraços.
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25/07/2017
Quando vejo fotos como essa em que estão todos juntos é que vejo como somos idiotas. Tomam Whisky e nós ficamos "Dimal" uns com os outros.
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Terezinha Juraci Brasil comentou:
25/07/2017
Os inimigos número 1 na trincheira...e Lula acreditou nessa malta ...se ferrou
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Eudimar Bandeira (via FB) comentou:
25/07/2017
Infelizmente seria impossível se eleger sem alianças, mais impossível ainda governar. Esse Apartheide político que estamos vivenciando, juntamente com essa perseguição ao Lula, lhe serviu como lição para que em um eventual próximo mandato coloque em prática o programa que tanto sonhamos. Se tivéssemos uma mídia a nosso favor e união entre os partidos de esquerda com qualidade, certamente não seria necessária essa aliança e iríamos de igual para o enfrentamento.
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Aurelio Michiles (via FB) comentou:
25/07/2017
Nada como um dia atrás do outro ou "suruba"; como vaticinou o sincero ideólogo Romero Jucá - aquele que é permanente e aderente para qualquer situação.
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Verenilde Pereira comentou:
25/07/2017
Aliança de Lula foi com o 40 milhões que saíram da miséria como disse alguém aí em cima...mas a imagem certamente será usada com má fé...
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Wagner Carvalho De Argolo (via FB) comentou:
25/07/2017
Nobre Professor José Bessa, essa crônica do senhor reflete exatamente o que eu sinto em relação ao PT. O primeiro voto de minha vida, em 2002, foi para Lula. Não tenho como descrever o tamanho da decepção que senti, quando vi a formação de seu primeiro ministério, assim como as fracas desculpas para justificá-lo. O que aconteceu depois, todo mundo sabe (ou finge que não sabe, para poder continuar de olhos fechados, se enganando, pois dói menos se enganar do que enfrentar a decepção). Concordo que Lula foi um pouco melhor do que os antecessores, mas da forma que o senhor colocou. Os antecessores foram nada. Portanto, Lula foi apenas melhor do que nada, o que é muito pouco diante das expectativas que tínhamos de ver o Brasil entrar no caminho real do desenvolvimento social. Quando vi, em 2002, Lula sendo eleito presidente, me emocionei e, no mais profundo do meu coração, pensei: "Agora, o Brasil vai mudar". Infelizmente, não foi assim. Se não enxergarmos a realidade, o Brasil vai continuar dividido entre dois lados que, na verdade, são um só.
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Lidia Santos comentou:
25/07/2017
Lidia Santos Nessa não vai o meu "like". Não concordo com você. Não entendo isso de partido que não quer o poder. O poder é a possibilidade de fazer o que a gente acredita. E acho que o PT fez. Não sou fanática por Lula, reconheço que tem defeitos, mas eles não passam pela área que você atacou, onde o homem é imbatível. Aliás, meu amigo, na hora errada. Já tem muita gente atacando o Lula e o PT. Não precisamos que a esquerda faça isso. Você diz que teria sido melhor ficar na oposição. Pra quem? Pros tucanos? Se assim fosse, a gente teria já mandado soldados pra matar árabes no Iraque, na Líbia e na Síria. Eu perdi a conta dos estudantes que vi aqui nos EUA participando da vida acadêmica com as bolsas que os governos do PT distribuíram. E nenhum se deslumbrava. E nenhum achava que tinha quer vir pra cá e ficar. Muitos tendo sido os primeiros a entrar numa universidade de famílias nordestinas, filhos de pais analfabetos. Eu, que soube dos irmãos "Derley" através de você, me surpreendo como não enxerga que essa gente estava no poder antes de Lula, continuou quando Lula foi eleito pela primeira vez e continuou. Se elegem ad eternum. Como disse o seu amigo Jerry Soares aí acima, "cadê os 110 deputados de esquerda"? A história seria diferente se nós tivéssemos tido humildade suficiente pra reconhecer o tamanho do esforço que foi ter um governo de esquerda no poder. E disposto a exercê-lo. Moro fora do Brasil há quase vinte anos. isso me dá a possibilidade e ver o país na sua interação com o resto do Ocidente e do mundo. E lhe digo, Bessa, fomos pequenos demais pra não ver o respeito que o Brasil tinha aqui, nas pessoas de Celso Amorim e Luis Inácio Lula da Silva. Um Brasil que apostava que poderia contribuir pra mudar a geopolíica ocidental, que ousou propor a aliança sul-sul, e um canal econômico alternativo, como o dos Brics. Faltou tutano pra fechar com esse avanço. E solidariedade pra enfrentar o inimigo que todos sabiam - ou tinham que saber - que viria depois de tamanho desafio. Porque, no fundo, quem tanto critica o PT, só queria mesmo era garantir o próprio mandato; em seguida, eleger um deputado a mais aqui, um senador (quem sabe?) ali. Ou, como você mesmo afirma na sua crônica, ficar na cômoda posição de opositor, onde ninguém erra. Ou seja, ninguém sai limpo desse jogo. Eu sinceramente espero que a gente possa resistir ao avanço desse úlltimo estágio (meio desesperado, porque outras alianças se estão formando sem a América Latina e a hegemonia ocidental como conhecemos nunca esteve tão ameaçada) do capitalismo neo-liberal sobre a nossa soberania. Sinceramernte espero que a gente não se torne uma Síria a levar de roldão o úitimo continente de países pobres ainda com seus governos nacionais de pé.
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