CRÔNICAS

O TERCEIRO CICLO

Em: 14 de Abril de 1995
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.O economista Chico de Oliveira abre o seu livro "Ensaios sobre a Economia Brasileira" com um artigo intitulado "O Banquete e o Sonho", no qual ele narra um fato ocorrido nos anos 70, em plena ditadura militar, na época do chamado "milagre econômico", tendo como protagonista um amigo seu, sociólogo, que era funcionário público.

A história começa com um banquete oficial organizado pelo Ministério da Fazenda para comemorar mais um recorde do crescimento do produto nacional bruto - o tal do PIB. O sociólogo, amigo do Chico, participou da comilança, da bebedeira e dos discursos. De pança cheia, foi dormir, com a consciência (e o bucho) pesando. Por isso, teve um pesadelo. Sonhou com uma cidadezinha do interior - parecida com Eirunepé, no Amazonas - onde um menino de uma família pobre foi atacado por uma estranha doença, que deu um nó em suas pernas, paralisando a parte inferior de seu corpo.

A família - coitada! - em sua extrema pobreza, não tinha recursos para consultar um médico que, aliás, não existia na cidadezinha. Também não era aparentada com qualquer vereador de Manaus, para usufruir dos ressarcimentos médicos. Paralítico, o menino ficou vegetando, com as pernas enroladas como se fossem linha de carretel, até que a notícia da sua estranha doença chegou à capital e se espalhou pelos principais centros de pesquisa e hospitais do mundo. Aí, começaram a chegar pessoas para visitar o doente.

Primeiro, vieram alguns médicos do Hospital Tropical de Manaus, acompanhados de vários estudantes da Faculdade de Medicina, vestidos de branco e com estetoscópios pendurados no pescoço. Depois, começaram a chegar delegações numerosas de cientistas do mundo inteiro, que vinham ver de perto a estranha enfermidade para poder estudá-la melhor.

Ao cabo de alguns anos, o menino e sua doença alimentavam uma poderosa corrente de pessoas, que terminaram por transformar a estadia na cidadezinha num poderoso fluxo de turistas. Barcos de recreio, de duas em duas horas, atracavam no porto do pequeno povoado, com passageiros saindo pelo ladrão.

A família do menino, percebendo o estranho tesouro que tinha em suas mãos, passou a cobrar ingresso à casa, para quem quisesse ver o doente e, com isso, saltou do anonimato à celebridade, da miséria à fartura. Tanto a família como os comerciantes e políticos locais já não tinham o menor interesse na cura do menino, porque a sua saúde significaria o fim dos lucros crescentes.

Este texto de Chico de Oliveira nos vem à memória, quando vemos o governador do Estado, Amazonino Mendes, anunciar pomposamente a inauguração do denominado "Terceiro Ciclo de Desenvolvimento do Amazonas", baseado no tripé: turismo, produção de macaxeira e fabricação de "bacalhau".

O menino doente é a própria população enferma do Amazonas, que continua - coitada! - padecendo com a falta de hospitais e de assistência médica adequada, com escolas de baixa qualidade e salários indecentes de seus professores, com transportes urbanos caros e ineficientes, com proliferação de favelas, falta de saneamento básico e até mesmo de água encanada.

Parece que o governador do Estado, Amazonino Mendes, necessita manter a população doente, paralítica e paralisada, para poder operacionalizar essa "coisa"vaga, imprecisa e eleitoreira, impropriamente denominada de "Terceiro Ciclo", aplaudida por um bando de políticos puxa-sacos - os terceiro-ciclistas - sob o olhar atônito dos eleitores. Enquanto a população permanecer paralisada, com um nó nas pernas e outro na garganta, Amazonino e seu grupo faturam. Se ela for curada, acaba a mamata deles.

Uma contribuição importante que a oposição poderia dar ao Amazonas e até mesmo ao próprio Governo do Estado seria pensar criticamente esse delírio megalomaníaco, impropriamente denominado de 'terceiro ciclo de desenvolvimento", que não tem qualquer consistência e acaba nos levando a cair no ridículo, conforme pretendemos mostrar - em um outro tom - na próxima terça-feira, na coluna Taqui Pra Ti". (No dia 18/04/95, foi publicada a crônica intitulada "O bacalhau de pacu", discutindo mesmo tema). 

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