CRÔNICAS

TEMER: NEM COM UM TIRO DE CANHÃO

Em: 18 de Outubro de 2009 Visualizações: 3113
TEMER: NEM COM UM TIRO DE CANHÃO

A sala de embarque do aeroporto de Brasília, para onde vim a trabalho, está entupida de gente, nessa sexta-feira. Vou tomar um chá de cadeira de três horas. Conformado, abro o lepitope para escrever o taquiprati. Levanto a cabeça em busca de assunto e quem é que vejo? Meu amigo, o senador João Pedro (PT-Am). Conversamos, rapidamente, sobre o seu projeto de universidade pan-amazônica. Mas eis que, de repente, passa na minha frente, cavalgando lépido e fagueiro, o meu tema: Jáder Barbalho (PMDB, vixe, vixe!).

- Oba! É ele, o meu tema! – grito com meus botões. A passagem fugaz de Jader Barbalho, trotando em direção a um portão de embarque, me inspira. Deixo a universidade pan-amazônica de lado e começo a escrever uma carta para a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, usando o modelo epistolar criado pelo finado Waldick Soriano, em uma de suas músicas. Aí vai a carta.

Fé de mais

Dona Dilma, saudações! Escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que sinto e o que penso sobre suas recentes alianças políticas. Leio nos jornais que a senhora esteve na procissão do Círio de Nazaré, em Belém, depois de haver participado do Dia Nacional da Marcha para Jesus, organizada pela Igreja Renascer. Cabem elogios ao seu ecumenismo, embora falte visitar um templo de candomblé e reverenciar a pajelança cabocla do Marajó, sem a qual o ecumenismo é superficial, de fachada.  

Alguns jornalistas criticaram sua conduta pan-religiosa. Bobagem! Se houver fé, nada impede de rezar em vários altares e de cantar em diversos terreiros. Não é incompatível transitar por múltiplas religiões. A religião é que nem a língua. A gente tem uma, é monolíngue e respeita a dos outros. Mas pode também ser bilíngüe, aprendendo idiomas alheios. O importante é a fé, que é o que existe de mais profundo, de mais sublime e de mais necessário no ser humano.  

Me diga, a senhora tem fé, dona Dilma? Aprendeu catecismo? Fez primeira comunhão? Cadê as fotos com a vela e o missal na mão? Sabe cantar “Virgem Mãe Apareciiii-ida”? A senhora é bi-religiosa ou quer apenas - o que é louvável - marcar posição de respeito e tolerância a todas as religiões? O que foi buscar na procissão do Círio de Nazaré, em Belém? Leio nos jornais que a senhora subiu num palanque em frente ao prédio da Companhia das Docas do Pará para assistir a procissão, distribuiu sorrisos e acenos aos romeiros, ajudou a carregar algumas crianças próximas à corda e até rezou.

Diz-me com quem rezas

No Círio de Nazaré, a senhora rezou, dona Dilma? Qual oração? Alguma jaculatória, tipo “Jesus manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao Vosso”? Os jornais noticiam que suas orações não foram dirigidas ao Sagrado Coração de Jesus, mas ao santo de casa, que é um santo do pau-oco - o deputado federal Jader Barbalho, presidente local do PMDB (cruzes!) - durante jantar oferecido no Hangar, lá no Centro de Convenções, em Belém.  O rega-bofe se estendeu pela madrugada de domingo.

A família Barbalho estava lá em peso, comendo vorazmente, com dentes afiados, como costuma fazer, com destaques para dona barbalha Elcione, o barbalhinho Helder e o chefe do clã, que atacou o pato no tucupi. O certo é que a senhora, dona Dilma, comeu com a barbalhada toda, riu com Jader Barbalho, paparicou Jader Barbalho, pediu e ofereceu apoio a Jader Barbalho, declarou que ele é um “animal político extraordinário” e que as análises políticas dele, na época do ‘mensalão’, a  impressionaram. “Ou se governa junto ou não se governa” – essa foi sua promessa ao PMDB local.  

Nesse momento, Jader arrotou o tucupi do pato, satisfeito, com a língua tremelicando, anestesiada pelo jambu, compreendendo que, caso a senhora emplaque, ele subirá junto a rampa do Planalto. Ninguém viu, mas naquele instante, no altar da Basílica, aconteceu um milagre: uma lágrima rolou pela face da imagem solitária da Virgem de Nazaré. A bichinha ficou mais ferida do que quando foi chutada, em 1995, por aquele intolerante pastor da Igreja Universal, em programa de televisão ao vivo.

Tá certo, dona Dilma, política é tecer alianças. Tá certo, pra governar precisamos do PMDB. Mas por que, então, não procurar Pedro Simon, Jarbas Vasconcellos e o pessoal que lutou contra a ditadura e que é ético? O Jader Barbalho - a senhora não lembra? – é aquele cara que foi algemado e denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios de R$ 16, 7 milhões da extinta Sudam. Se a senhora não reza com Pedro Simon, mas com Jader Barbalho, algo de podre ronda sua candidatura a presidente da República. Dilma, com quem rezas? Eu te direi quem és. Confesso: estou com medo.

Com medo de ser

Vejo nos jornais, dona Dilma, no Dia da Marcha para Jesus, sua foto ao lado da bispa Sônia, do apóstolo Estevam Hernandes e do pastor Crivella, sobrinho do Edir Macedo, dono da Igreja Universal, cujo pastor chutou a imagem da Virgem de Aparecida. O casal – a senhora não lembra, dona Dilma? – acaba de sair da cadeia nos Estados Unidos, porque tentou entrar naquele país com dólares escondidos dentro de uma Bíblia. Eles cortaram as páginas da Bíblia e, no lugar da palavra de Deus, esconderam os dólares expropriados de gente humilde.

A bispa Sônia, também conhecida como “perua de Cristo”, e seu marido, o apóstolo Estevam, prometeram orar pela senhora. Sua candidatura precisa dessas orações? Por que essa atração da senhora por algemados e trambiqueiros? O noticiário descreve outro jantar, em Brasília, na Mansão Oásis, com o deputado Valdemar Costa Neto (PR – vixe, vixe!) e o ex-governador Garotinho. Valdemar é aquele que renunciou ao mandato por estar envolvido no escândalo do ‘mensalão’. E o Garotinho, a quem combatemos no Rio de Janeiro, é aquele que acusou o PT de ser “o partido das boquinhas”.

Ministra, a senhora tem uma biografia limpa. Foi torturada com palmatória, socos, pau-de-arara, cadeira-do dragão, choque elétrico e os cambau. A gente admira seu passado de integridade e de luta contra a ditadura. Uma pessoa com a sua biografia não merece passar por esse vexame de conviver com gente que apoiou a ditadura, que está envolvida até o talo com corrupção, clientelismo, nepotismo, com tudo aquilo que a gente sempre combateu.

Ministra, olhe em sua volta, se oriente e se observe, veja por quem está cercada, e quem é que está se pirulitando. Com quem falta se aliar, ministra, localmente aqui no Amazonas? Com o Adail, ex-prefeito de Coari? Com os Kennedy de igarapé – os irmãos Souza? Com Amazonino? Ministra, a senhora está deseducando os jovens que querem fazer política, porque está dizendo a eles que é isso mesmo, que não existe ética, que vale tudo para chegar ao poder, que esse negócio de compostura é pra otário.

Dona Dilma, a senhora já chega ao Planalto – se chegar lá – com as mãos amarradas, comprometida até o último fio da peruca com o que existe de mais abominável e mais sórdido nesse país, desde Thomé de Souza, que foi o fundador do PMDB ou do PFL, tanto faz, vixe, vixe. Veja bem – como diz o Lula - se o mordomo do filme de vampiros, o Michel Temer, for o seu vice, esse petista aqui, euzinho, não voto na senhora num provável segundo turno nem com canhão me ameaçando o peito, nem que a Marina Silva me peça de joelhos. Depois de marinar, eu serro.

Dilma lá? Estou com medo da senhora, dona Dilma, com medo de ser, com medo de ser, com medo de ser... infeliz! A senhora está enterrando nossos sonhos, chafurdando no lamaçal com essa porcalhada toda. Desculpa, dona Dilma. Não repare os senões. Mas não dá. Não é pela senhora, mas pela rabiola que vem junto, pelos seus novos amigos, de quem tenho nojo e quero distância.

P.S. - A charge pirateada do Latuff veio depois, mas o texto de 2009 em nada foi alterado. 

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário