CRÔNICAS

ADEUS, AMIGO

Em: 23 de Junho de 1995
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Y  aunque la vida murió, / nos dexó harto consuelo / su memoria.
 Jorge Manrique (1440-1479), poeta espanhol
 
 
(Do Rio, via fax) Se no céu existir ainda que seja um simples mimeógrafo, Umberto Calderaro Filho deve estar editando lá um jornalzinho e publicando entrevistas com os recém-chegados. Abrirá espaço para algum querubim, serafim ou o próprio Lúcifer – por que não?  - fazer sua coluna social. Seguramente enviará correspondentes especiais ao Purgatório, à Terra e até mesmo ao Inferno, para que de lá mandem notícias. Afinal, os leitores do Paraíso precisam de informação acabada. Anjinhos rechonchudos, supervisionados por dona Maria, serão os jornaleiros.
Foi assim que ele construiu o maior centro de comunicação do norte do País: com jornalismo fervilhando no sangue. Tinha um poderoso instinto para saber o que é notícia, onde cavar a informação, como valorizar uma entrevista ou uma reportagem e como descobrir talentos para formar equipes de trabalho. Como todo jornalista de verdade, idolatrava a informação e abominava a censura. Colecionei algumas histórias, que um dia contarei, como a daquele superintendente da Sunab, em 1969, que invadiu a redação de A Crítica com um revólver para me intimidar e foi enxotado por Calderaro.
É impossível imaginar o Calderaro fora da redação. O jornal era sua própria vida. De jornal, ele sabia fazer tudo, inclusive aquilo para o qual poucos jornalistas estão vocacionados: administrar a empresa. A Crítica sempre teve os melhores equipamentos do Brasil, renovando-se periodicamente. Era com alegria de menino diante de um brinquedo de natal que ele mostrava as novas máquinas adquiridas.
Se Calderaro representou, no Amazonas, a transição da modernidade, foi por sua capacidade de constante renovação tecnológica, mas também porque soube construir um jornal plural, com espaço aberto para diferentes correntes e tendências, abrigando em suas folhas inclusive quem pensava diferente dele. Com o sentido dos limites fatalmente existentes, mas com a consciência das possibilidades que se abriam. O importante era oferecer aos leitores qualidade de informação e diversidade de opinião.
Grande Calderaro! Foi sempre um enorme prazer trabalhar com ele: por sua concepção dinâmica de jornalismo, por sua moderna visão empresarial, mas sobretudo pela relação afetuosa de amizade com ele estabelecida. Ah, a amizade! Disso, o italiano passional entendia tanto quanto de jornalismo. Sabia cativar. Com ele, a gente ia a qualquer lugar.
Em 1970, em plena ditadura Médici, dona Elisa, minha mãe, informou a dona Maria Calderaro que eu estava exilado, sem passaporte e sem dinheiro. Recebi, então, um recado transmitido de mãe em mãe: o Calderaro oferecia uma passagem Paris-Manaus e ia me buscar no aeroporto para evitar que fosse preso. Ele já havia escondido em sua própria casa o Aristófanes de Castro, em 1964, no golpe militar:
- Era comunista, mas era um sujeito decente – dizia ele. Aqui, a adversativa “mas”  é elucidativa.
Amigo pra valer, leal, generoso, era capaz de grandes gestos de carinho e de solidariedade efetiva, que acaba nos aprisionando numa doce e intricada rede de afetos. Sabia também brigar e encarar adversários. Ele era assim, tal como havia definido, no século XV, o poeta espanhol Jorge Manrique em Coplas por la muerte de su padre, um poema de quarenta coplas escritas com versos octossílabos de pé quebrado, onde elogia seu pai e critica seus adversários:
“Qué amigo de sus amigos! Qué señor para criados / y parientes!/  Qué enemigo de enemigos! Qué maestro de esforçados /  y valientes! (…) Qué benigno a los sujetos! / y a los bravos y dañosos,/ un león!”.
Ah, meu amigo, como estamos sentido sua falta! Se é impossível imaginar Umberto Calderaro sem um jornal, torna-se difícil – e doloroso – conceber este jornal sem Umberto Calderaro. No entanto, ainda que tenha perdido a vida, deixou-nos como consolo a sua memória: este jornal, A Crítica de mãos dadas com este mesmo povo que, comovido, foi lhe dar o último adeus.
 
 

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