CRÔNICAS

O MIAU DO ALFERES

Em: 19 de Fevereiro de 1996
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.A reprodução dessa crônica na internet vai dedicada a Paulo Figueiredo, exemplo de lucidez, integridade, coragem, bom caráter e bom texto.

- Atirei o pau no ga-to-tó, mas o ga-to-tó, não morreu-reu-reu. O Alfe-re-res admirou-se-se, do berrú, do berrú que o gato deu: miaaaaaaaaaau!
Alô Mocidade Independente de Aparecida! Alô meu povo de Manaus! O bloco do "Taqui Pra Ti" pede passagem e desfila, com todas as leitoras, na Comissão de Frente. A minha maninha Preta vai de porta-bandeira, puxando uma carroça, para fazer contraponto com o mestre-sala, o alferes Ronaldo Tiradentes, que vai puxando saco das autoridades constituídas, seguindo conselho paterno. Abram alas que queremos passar. Vamos lá.
A Preta, minha irmã, tem 24 anos de magistério, leva a sério o que faz e adora o seu trabalho. Como professora do Estado, formada pela Universidade do Amazonas, com diploma verdadeiro, ela recebe a remuneração mais alta do Brasil, segundo a propaganda do Zé Melo Merenda, secretário terceiro-ciclista da educação. O seu contracheque - ninguém me contou, eu vi - registra o salário-base de 160 reais.
Casada com um professor, seis filhos, ela mora no D. Pedro, numa casa modesta que gasta pouca energia. A consumidora Preta possui - anota aí, leitor (a) - seis lâmpadas, uma televisão, uma geladeira, um freezer, uma máquina de lavar, um ferro elétrico, nenhum ar condicionado, dois ventiladores. Só isso. Outro dia, ela deu um cascudo no Piriri, meu sobrinho, porque ele ligou o ventilador fora de hora. No final do mês, a preta paga metade do seu salário-base para a Eletronorte: R$80,00.
O consumidor Ronaldo Lázaro Tiradentes, secretário terceiro-ciclista de comunicação, mora em Adrianópolis, Conjunto vila Municipal. Ele possui em sua casa - anota aí, leitor (a) - os seguintes equipamentos e aparelhos elétricos: quatro aparelhos de ar condicionado num total de 45.000 BTUs, um bebedouro, dois chuveiros elétricos, um ferro de engomar, um forno microondas, um freezer médio e setenta e sete lâmpadas das quais trinta e sete fluorescentes.
Anotou, leitor (a)? Pois ainda não terminou. Tiradentes, o monoglota, utiliza também, em sua residência, outros aparelhos como uma máquina de lavar roupa, um rádio, um secador de roupa, três televisores, uma torradeira, um ventilador, um videocassete, um vídeo game, um sugar duplex GE, um fax, uma máquina xerox, um microcomputador, uma impressora, um aquecedor de vapor de 40 amperes, 220 volts.
A Comissão de Sindicância da Eletronorte não viu, escondida num armário do banheiro, uma máquina americana Automatic Servile flatterer - isto é, um puxador-de-saco automático, que consome mais energia do que aparelho de ar condicionado.
Adivinha quanto ele paga mensalmente de energia?
O leitor honesto já está somando. Compara com sua conta mensal: "Se a Preta paga 80 paus com tão poucos equipamentos, o Alferes Senior, que nunca deu cascudo no Alferes Junior por este ligar o ar condicionado, deve pagar, no minímo-no mínimo, uns 800 reais". Te equivocas, honesto leitor. O consumidor Ronaldo Lázaro Tiradentes pagou, em fevereiro de 1995, a microscópica quantia de R$4,25. É isso mesmo, foi o que você ouviu: quatro reais e vinte e cinco centavos.
Um grito estrondoso ecoou por toda a planície amazônica: Miaaaaaaaauu!!! Ou, depois da viagem do Alferes aos Estados Unidos, um miado em inglês: maia-uuuuuu!!! Tem gato na tuba. Segundo relatório da Comissão Interna da Eletronorte, Ronaldo Tiradentes foi autuado por fraude no medidor, de acordo com a Inspeção Técnica de Medição de 05 de janeiro de 1995 e Laudo Pericial de 10 de abril do mesmo ano, no Instituto de Criminalística do Departamento de Polícia Técnico-Científica, que comprovou a existência do "gato".
O salário da Preta e provavelmente o de muitos leitores constitui um convite irrecusável para "engatilhar" o medidor. Mas a porra da Preta e a quase totalidade da porra dos leitores não frauda. Paga e não bufa. Quer dizer, bufar, bufa. Mas paga a conta direitinho. Questão de princípio, de formação, de educação. A mãe da Preta ensinou-lhe a comportar-se honestamente. Por isso, todos nós que pagamos, ficamos revoltados, com um sentimento de que fomos enganados, quando vemos fraude como a do Alferes.
Os vários salários, comissões, mordomias, diárias, gratificações e jetons que o monoglota Tiradentes recebe mostram que ele não precisa realizar fraudes pequenas como essa. Afinal de contas, ele é um deputado e secretário de Estado. Tiradentes, como César Bonfim, atingiu um patamar de altas jogadas, altas negociatas. Os dois não precisam, por exemplo, levar escondido dentro da mala, a toalha do hotel ou o talher do avião.
Um e outro, no entanto, parecem ter alma de pivete, sentem um prazer enorme em delinquir, querem se lambuzar e se refestelar com os recursos públicos, por mínimos que sejam. Enganam pelo prazer de enganar. Enquanto não forem rigorosamente punidos, continuarão a aprontar.
O comportamento do monoglota Ronaldo Lázaro Tiradentes contribui para desmoralizar a própria Assembleia Legislativa. Afinal de contas, o cara é deputado. Tinha de ter compostura. O povo do Amazonas fica humilhado e espezinhado, quando um de seus representantes, que ganha um polpudo e imerecido salário, arma um "gato" para fraudar a Eletronorte.
Este tipo de prática tem de ser varrido da vida pública e da política baré. Francamente, não podemos mais conviver com tanta imoralidade. Temos que dar um "basta". Se Tiradentes não for punido, a Preta vai se sentir a maior otária da paróquia de Aparecida. Como ela, todos os que pagam direitinho suas contas.
A Assembleia Legislativa recebeu em maio do ano passado um ofício da Justiça Federal, pedindo autorização para processar criminalmente o Alferes, pelos anos em que ele não sentou nos bancos da Escola Severiano Nunes. Fraude de diploma. Quase um ano se passou e a Assembleia empurra o caso com a barriga. O presidente das Comissão de Constituição e Justiça, Omar Aziz, do PPB - o mesmo partido do Alferes - jura que não recebeu nenhum ofício (O irmão de Omar Aziz, o Big Bananão Amir Aziz, está envolvido - dizem - na fraude da Eletronorte)
O presidente da ALE, Humberto Michiles, não pode permitir que o nome da instituição e seu próprio nome sejam enlameados com essa história. O Alferes, jogando pra plateia, diz que abre mão da imunidade. Pois bem, que a Assembleia realize aquilo que o Alferes afirma querer, sob pena de tornar-se cúmplice das falcatruas realizadas. O Michiles com certeza não concorda com essas bandidagens. Vamos conferir.
Tiradentes fica contando bravata, que o delegado Rosinaldo Vanderley fez uma armação para prejudicá-lo, que está processando o delegado por calúnia, que isso, que aquilo. Só falta dizer que foi o delegado Vanderley que armou o "gato" na casa de Adrianópolis. O processo, movido pelo Alferes, na realidade foi arquivado em dezembro pela juíza Maria Lúcia Gomes de Souza, da 3ª Vara da Justiça Federal. Não tem consistência.
Com um currículo desse, Ronaldo Lázaro Tiradentes, o monoglota, pretende governar a cidade de Manaus. Trata-se, efetivamente, de um dos melhores quadros terceiro-ciclistas. Ágil, puxa o gatilho mais rápido que o Bonfim.
P.S. - Meu irmão Paulo Figueiredo, taí prá ti.

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